CANDOMBLÉ — O RITUAL
ÌGBÁ — A UTILIZAÇÃO DA CABAÇA RITUALÍSTICA
A cabaça é um fruto vegetal com larga utilização no Candomblé. É o fruto da cabaceira. Inteira, é denominada cabaça; cortada, é cuia ou coité; e as maiorias são denominadas cumbucas.
Nos ritos do Candomblé, sua utilização é ampla, tomando nomes diferentes de acordo com o seu uso, ou pela forma como é cortada. A cabaça inteira é denominada Àkèrègbè, e a cortada em forma de cuia toma o nome de Ìgbá.
Cortada em forma de prato é o Ìgbáje, ou seja, o recipiente para a comida. Cortada acima do meio, forma uma vasilha com tampa, tomando o nome de Ìgbase, ou cuia do Àse, e é utilizada para colocar os símbolos do poder após a obrigação de sete anos de uma Ìyàwó, como a tesoura, navalha, búzios, contas, folhas, etc. que permitirão à pessoa ter o seu próprio Candomblé.
Cabaças minúsculas são colocadas no Sàsàrà de Omolu, como depósito de seus remédios. No Ógó de Èsù, uma representação do fato masculino, as cabaças representam os testículos. Usa-se uma das partes da cabaça cortada ao meio, e colocada na cabeça das pessoas a serem iniciadas e que não podem ser raspadas por serem Àbìkú, para nela serem feitas as obrigações necessárias.
Com o corte ao comprido, torna-se uma vasilha com um cabo, chamada de cuia do Ìpàdé e serve para colher o material de oferecimento ou para colher as águas do banho de folhas maceradas. Inteira e revestida de uma rede de malha será o Agbè, instrumento musical usado pelos Ogans, durante os toques e cânticos.
Uma cabaça com o pescoço comprido em forma de chocalho é agitada com as suas sementes, fazendo assim o som do Séré, forma reduzida de Sèkèrè, instrumento por excelência de Sàngó. A cabaça inteira em tamanho grande substitui nos ritos de Àsèsè, a cabeça de uma pessoa que morreu e que por alguns fatores não é possível realizar as obrigações de tirar o Òsu. Por fim, pode ser lembrado que a cabaça cortada em forma de vasilha com tampa é conhecida como Ìgbádù, a cabaça da existência e contém os símbolos dos quatro principais Odù: Éjì, Ogbè, Òyekú Méjì, Ìwòri Méjì e Òdí Méjì.
A SEMANA NUMA CASA DE CANDOMBLÉ
A semana para o povo Yorubá era composta de 4 dias, pois foi neste espaço de tempo que o mundo foi criado. Segundo as narrativas tradicionais o quinto dia foi reservado para reverenciar o Ser Supremo, Olórun, e para descansar.
Para cada dia da semana — Ojó òsè — é designado um Òrìsà regente, identificado com a tarefa a ser exercida pela humanidade:
1º Dia — Ojó Awo.
Consagrado ao exercício da sabedoria pelo poder de Òrúnmìlà, na revelação dos fatos pertinentes ao destino das pessoas, suas aflições, desejos e condução de vida com retidão. Para isso, o primeiro dia é sempre destinado à prática da consulta divinatória — Awo — por meio dos búzios ou do Ifá.
2º Dia — Ojó Ògún.
Dedicado à tarefa da luta pela sobrevivência e conquista de posições consagradas pela sociedade. É o trabalho diário para o sustento familiar, desbravando as batalhas que a vida apresenta, superando-as com dignidade na busca das realizações que lhes foram destinadas.
3º Dia — Ojó Jàkúta.
O terceiro dia exalta a justiça a que todos estão sujeitos quando infringem as lei do Ser Supremo. Jàkúta é a denominação de um antigo Òrìsà, anterior a Sàngó, cujo nome significa “o atirador de pedras”, numa alusão aos meteoritos que caem do espaço atingindo pessoas, casas e comunidades, como forma de punição divina por erros cometidos. Por isso é cognominado o Justiceiro de Olódùmare.
4º Dia — Ojó Obàtálá.
Reverencia Òsàlá, a quem foi incumbida a criação da Terra. Neste dia é reverenciado o princípio criador e formalizador das idéias. Determina um comportamento digno, boa conduta e caráter íntegro das pessoas.
O primeiro dia após o quarto dia da semana Yorubá é denominado de Ojó Ojà Ifé — dia do mercado de Ifé.
O contato cultural entre negros e brancos exigiu uma revisão na ordenação dos dias da semana, sendo aceito o sistema ocidental de sete dias. Foram designadas divindades tutelares para cada dia a fim de definir o tempo sagrado:
Segunda-feira — Èsù, Omolu
Terça-feira — Nàná, ÒsùmàrèQuarta-feira — Sàngó, YánsànQuinta-feira — Òsóòsì, Ògún[Sexta-feira — Òsàlá
Sábado — Yemojá, Òsun
Domingo — Todas.
Os dias específicos para determinados rituais foram convencionados como variações de acordo com a natureza de certas divindades e as tradições seguidas por determinadas Casas:
Segunda-feira — obrigação para Èsù na maioria dos casos, com trabalhos de sacudimento e outros serviços espirituais.
Quarta-feira — oferecimento do Àmàlà e oferendas votivas; ritos de Bori ; nos ritos de iniciação, determina a entrada para as obrigações, a fim de que os 16 ou 17 dias de recolhimento tenham o seu término num Sábado, para a festa pública do Nome de Ìyàwó. Em alguns casos, não há esta obrigatoriedade de o nome ser dado num Sábado.
Sexta-feira — neste dia, o Candomblé paralisa suas atividades, por ser consagrado à Òsàlà. Resquícios do sincretismo pelo fato de Jesus ter morrido neste dia da semana, daí a expressão Sexta-feira Santa. Nos Candomblés jeje, uma pessoa recolhida para iniciação fica virada sempre, só desvirando às sextas-feiras.
Sábado — de madrugada, ritos de sacrifício, e à noite, as festas públicas.
CALENDÁRIO ANUAL DAS FESTIVIDADES
As datas que determinam as festas aos Òrìsà seguem um calendário tradicional preestabelecido, mas não deixando de ser influenciado pelas datas festivas dos santos da Igreja.
Nas Casas mais tradicionais, há um calendário próprio que se inicia a partir das Águas de Òsàlà, em agosto, em Salvador, e em setembro, no Rio. São três domingos sucessivos, e a partir daí seguem as festas para Ògún, Òsóòsì, Olubaje, Àyaba, Ìpètè de Òsun e Sàngó. Àyaba significa a festa das rainhas, que engloba todos os Òrìsà femininos. Em outros casos, as festas são assim determinadas:
Òsóòsì — No dia de Corpus Christi e São Jorge, 23 de abril.
Sàngó — São Pedro, 29 de junho, e que se estende por 12 dias.
Òsun — Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro.
Yánsàn — Santa Bárbara, 4 de dezembro.
Omolu — São Bento, 16 de abril, São Roque, 16 de agosto, São Lázaro, 17 de dezembro.
Ògún — Santo Antônio, 13 de junho, na Bahia.
Yemoja — Nossa Senhora, 2 de fevereiro e 15 de agosto.
A data de 2 de fevereiro é conhecida como o presente à Yemoja, e revive o mito Yorubá no qual ela oferece 16 Àkàsà para Òsàlá. O mito revela que Òsàlá vai fazer uma viagem visitando várias cidades. Em todas elas, são preparadas comidas especiais para ele. Èsù, entretanto, fingindo ser Òsàlá vai na frente e come tudo. Quando Òsàlá chega nas cidades não encontra comida para ele. Èsù havia comido tudo. Acontece que Yemoja, ciente de tudo, havia guardado para ele 16 àkàsà escondidos dentro de uma talha. Por isso ela é considerada a dona da talha. E assim cantam:
Ìyá’le mi — Mãe da minha casa
Károdò — que movimenta as águas do rio
Là bùre — fazendoo correr
Károdò — dando-nos bênçãos e sorte.
CERIMÔNIAS QUE ANTECEDEM UMA FESTA DE CANDOMBLÉ:
Ela pode ser assim dividida:
1) Jogo de búzios — consultas para saber o desejo do Òrìsà.
2) Obrigações aos ancestrais.
3) Èsù — oferendas e sacrifícios.
4) Bori — dar comida à cabeça.
5) Òrìsà — sacrifícios.
6) Preparo das oferendas.
7) Ìpàdé.8) Ìyànlé — oferecimento aos Òrìsà das oferendas preparadas.
9) Siré Òrìsà — toque festivo.
10) Léhìn — posterior repasto comunitário.
11) Eru pin — carrego das obrigações feitas.
Em todas as etapas do ritual, há o acompanhamento de outras modalidades de jogo, como o do Obì e do Orógbó, a fim de se verificar se o andamento está fiel ao que foi predeterminado, ou se há necessidade de acrescer alguma coisa.
Depois dos ancestrais, Èsù é o primeiro Òrìsà a ser homenageado a fim de abrir os caminhos e conduzir as oferendas. Todo o seu ritual é feito em sua Casa, sendo o animal apresentado com algumas palavras informando a finalidade do oferecimento,, juntamente com pedidos. Inicialmente é saudado com palmas, batidas com as costas das mãos. Com a água da quartinha derrama-se um pouco d’água no chão em três lugares diferentes. Bate-se três vezes a palma da mão direita sobre o punho esquerdo, depois de tocar os dedos da mão direita cada vez nos lugares com água, chamando o Èsù que será homenageado.
A seqüência de preceitos segue as mesas regras dos demais Òrìsà. Algumas Casas não utilizam o sal no tempero, e a cantiga do dendê é modificada.
Se o sacrifício foi de um animal de quatro patas, obrigatoriamente será realizada a cerimônia do Ìpàdé, na tarde do mesmo dia em que será realizada a festa. Quando o sacrifício é de um animal de duas patas, não será necessário realizar o Ìpàdé. Neste caso, o ritual é feito no mesmo dia da festa. Coloca-se uma quartinha com água no meio do Barracão e canta-se para Èsù. Em seguida a Ìya morò despacha a quartinha sob outro cântico.
Para a festa de um Òrìsà, podemos tomar como modelo Òsóòsì, que se realiza sempre na data católica de Corpus Christi.
Na Quarta-feira à noite, colocam-se todos os assentamentos de Òsóòsí
no chão, em frente ao Pèpélé, prateleiras onde são acomodadas as vasilhas.
Também se dá comida ao Ìbo, definido como local onde estão assentados os ancestrais, representados por tiras de panos brancos e louças. Acende-se uma vela, e diante de cada um é feito o jogo do Obì, com saudações e citações de seus nomes.
Na madrugada de Quinta-feira, às 4 horas da manhã, todos se levantam e vão ao quarto de Òsóòsí. Ajoelhados, saúdam o Òrìsà utilizando os Oge, um par de chifres que se batem um no outro, falando os nomes de pessoas ilustres. E é feita a reza de Òsóòsí.
Mais tarde, é feito o sacrifício a Èsù, sendo que o bicho de pena, um galo, é passado pelo corpo de todos. Todos os rituais de sacrifícios têm a responsabilidade do Àsògún e seus auxiliares.
A seguir os sacrifícios ao Òrìsà: um porco lhe é oferecido, sendo apresentado num passeio amarrado a uma corda, com um Ogan simulando atirar flechas no animal. Como complemento, o Ìbosè são os bichos de pena, galinha d’angola, pato, etc. Os animais mortos ficam do lado de dentro, as cabeças ficam do lado de fora, por ser kizila.
Este é um momento em que o Òrìsà tem que assistir ao que é feito. Para isto se manifesta em seus filhos e é levado até o Barracão, com toques para a sua dança ritual, sendo-lhes prestada uma rápida homenagem.
Outro oferecimento a seguir é o de uma cabeça de boi juntamente com todos os miúdos do animal, que não é sacrificado no terreiro (ritual particular de algumas Casas).
A seguir, com o animal de quatro patas devidamente limpo e destrinchado, é retornado num alguidar com as partes separadas, uma a uma, com exceção da cabeça, mostrando que ninguém se cortou e estão todos inteiros. A película Aso Rere, cobre tudo, num ritual denominado de Sorò Jinjin Sorò.
A partir deste momento, as atividades se intensificarão, com o preparo das comidas secas e dos animais, para o oferecimento ao Òrìsà. As partes do animal consideradas Àse são separadas, e as demais farão parte da comida a ser servida a todos os integrantes da Casa e aos visitantes, num repasto comunitário de integração homem-divindade, pois essa é a representatividade dos ritos do sacrifício, quando todos celebram a vida através da alimentação comunitária.
A próxima atividade, já às 3 horas da tarde, é o ritual do Ìpàdé, ou Pàdé, que significa o encontro, e onde são reverenciados Èsù, os Ésà, ancestrais, os Òrìsà, Egúngún, e as Ìyámi. É uma cerimônia muito importante, por isso presidida sempre pela própria dirigente, com a presença obrigatória de todos dentro do Barracão. Ao final é dado o toque de Òsóòsí, o Agèrè, com todos tomando bênçãos uns aos outros.
Na seqüência dos trabalhos, são apresentadas as comidas votivas a Òsóòsí pela Ìyábàsè, a responsável pela cozinha e suas auxiliares, e depositadas no quarto devidamente preparado com flores e tudo muito bem arrumado. Lá elas ficarão até o dia seguinte, quando serão despachadas no carrego.
OS RITUAIS DE CANDOMBLÉ
Algumas divindades são festejadas, em grande parte, de forma conjunta, ou por se relacionarem através dos mesmos atributos, ou por possuírem um enredo que lhes dá afinidade e fundamentos que não se chocam. Eles poderiam ser assim relacionados:
Divindades Caçadoras: Òsóòsì, Inlé, Otin e Lógun Ède;
Divindades Familiares: Omolu, Nàná e Òsùmàrè; Sàngó, Baàyànni, Ìyámase.
Divindades Brancas: Òsàlúfón, Òsàgiyán, Odùdúwà;
Divindades Femininas: Associadas à festa das Àyaba;
Todas as Divindades: Ritual de Lórogún.
Outros rituais são específicos, como o Ìpàdé, o Bori e a Saída de Ìyàwó, este último sem definição no calendário religioso, por ser a iniciação um fato imprevisível.
ÌPÈTÈ
O Ìpètè é a denominação da comida oferecida a Òsun e que dá nome à festividade. Faz parte do ciclo final da festa das Àyaba, quando foram festejadas todas as divindades femininas, com exceção de Nàná(n), que come com Omolu. Ele só pode ocorrer se antes tiver sido feita, pelo terreiro, a festa das Águas de Òsàlá. Não há sacrifício e por conseguinte não há o Ìpàdé, pois esta é a sua característica, a de diminuir a rotina cansativa dos sacrifícios, dando uma seqüência mais suave nesta fase do calendário religioso. Depois do Siré de abertura, os Òrìsà manifestados vêm à frente e mais atrás as pessoas do terreiro, trazendo as panelas na cabeça com o
OS RITUAIS DE SACRIFÍCIO
O culto demanda sacrifício de sangue animal, oferta de alimentos e vários ingredientes. A carne dos animais abatidos nos sacrifícios votivos é comida pelos membros da comunidade religiosa, enquanto o sangue e certas partes dos animais, como patas e cabeça, órgãos internos e costelas, são oferecidas aos Òrìsà. Somente iniciados têm acesso a estas cerimônias, conduzidas em espaços privativos denominados quartos-de-santo. Uma vez que o aprendizado religioso sempre se dá longe dos olhos do público, a religião acaba por se recobrir de uma aura de sombras e mistérios, embora todas as danças, que são o ponto alto das celebrações, ocorram sempre no barracão, que é o espaço aberto ao público.
Os ritos de sacrifício animal são destinados aos Òrìsà e outras formas de espíritos. Olórun ou Olódùmarè, o Ser Supremo, não solicita sacrifício com derramamento de sangue nem oferenda, pois Ele está acima das contingências por ser o Senhor das Essências, sem figurações, porque Infinito não pode ser traçado. A comunicação Homem-Deus é feita por pensamento e a palavra por excelência é Àse, que significa “que assim seja”, ou “que Deus permita que isto aconteça”, da qual os Òrìsà são seus intermediários e encaminhadores dos pedidos.
Os reinos animal, vegetal e mineral está à disposição do ser humano. Eles liberam energias que são dirigidas ao destino especificado, segundo os desejos e objetivos. Este processo que os menos esclarecidos costumam chamar de feitiçaria, é denominado magia. Cada Òrìsà possui um determinado animal, vegetal, mineral e comidas, e tudo libera energia. É uma alquimia que depende de muita habilidade, como a do Asògún, que sabe exatamente como segurar uma faca, como a Ìyá gbàsè, que conhece os ingredientes do prato, e a Ìyálórìsa, que sabe o Orò determinado, que conhece as regiões do corpo humano onde estão localizados os centros de força em que atuam os Òrìsà e o que eles representam por ocasião dos oferecimentos. Convém lembrar que certas partes do corpo humano são tocadas e utilizadas por ocasião de determinados ritos: o Bori, por exemplo.
Todo ser humano possui um corpo físico, o Ara, e um corpo metafísico, denominado Enikéjì, literalmente a 2ª pessoa. A magia dos trabalhos que se realizam no corpo físico tem por objetivo penetrar o mundo metafísico, alcançar a matriz para modificar ou restabelecer o equilíbrio da cópia, através das energias mineral, vegetal e animal. Orientado pela intenção, o desejo atinge o alvo, liberando as propriedades necessárias:
Kò má ìkú — nada de morte
Kò má’run — nada de doenças
Kò má sè jó — nada de problemas
Kò má èpè — nada de maldades
À arin dede wa — entre todos nós.
O sangue é o elemento considerado indispensável, pois se a vida do animal está no sangue, por essa razão é o primeiro elemento a ser oferecido às divindades, sendo colocado em cima dos assentamentos, que representam o próprio Òrìsà. Recebendo a vida, preservam a da pessoa, estabelecendo uma troca. Os animais são selecionados pela sua natureza, pela sua tranqüilidade e o calor do seu corpo, de acordo com a necessidade do momento.
A cabeça do animal é oferecida em troca da cabeça da pessoa. Trata-se, portanto, de um ritual de troca.
“Orí eran e gbá, e máse gba orìì mi”.
Receba a cabeça do animal, deixe a minha em paz.
Após o sacrifício, a cabeça do animal é colocada, desamarrada, em cima do assentamento.
É o jogo que diz o que o Òrìsà deseja, os animais e os oferecimentos.
Para todo animal de quatro patas são feitos sacrifícios de aves para cada pata do animal; a isso se dá o nome de Ìbòsè, que significa cobrir os pés, ou seja, calçar as patas do animal. Determinado o número de animais, estabelece-se a ordem dos oferecimentos:
1º — Animal de quatro patas
2º — Calçar o animal de quatro patas
3º Oferecimentos de galinha ou galo/
4º Pato
5º Galinha d’angola
6º Pombo
7º Ìgbín (Caramujo)
Além do sangue, da cabeça e das patas, outras partes dos animais são tratadas de forma especial: Èdò, o fígado; Fúkùfúkù, pulmões; Iwe, a moela; Okán, coração; Iwe Inú, rins. São consideradas partes vitais e oferecidas às divindades num ritual denominado de Ìyanlé. As partes restantes, dependendo do tipo de sacrifício, são preparadas para serem servidas aos praticantes, numa manifestação comunitária em que a vida é celebrada em ritual de festa e confraternização.
MÚSICA E DANÇA — OS OGANS
Toque de Candomblé é o mesmo que festa, pois se refere às batidas dos atabaques, que possuem uma variedade significativa de ritmos identificados com a necessidade do momento. São mais de 15 ritmos diferentes, acompanhados de cântico ou não. Esses toques têm o poder de entrar em sintonia com o Òrìsà, pois fornecem elementos como gestos e movimentos do corpo que entram em afinidade de forma irresistível.
As celebrações de barracão, os toques, consistem numa seqüência de danças, em que, um por um, são honrados todos os Òrìsà, cada um se manifestando no corpo de seus filhos e filhas, sendo vestidos com roupas de cores específicas, usando nas mãos ferramentas e objetos particulares a cada um deles, expressando-se em gestos e passos que reproduzem simbolicamente cenas de suas biografias míticas. Essa seqüência de música e dança, sempre ao som dos tambores (chamados rum, rumpi e lé) é designada sirè, que em iorubá significa "vamos dançar". O lado público do candomblé é sempre festivo, bonito, esplendoroso, esteticamente exagerado para os padrões europeus e extrovertido.
Para a realização da festa, que será movimentada por cânticos e danças, são necessárias as presenças dos Ogans, que tocarão os instrumentos musicais, os quais, de marcarem o ritmo, são os responsáveis pela vinda dos Òrìsà com cânticos apropriados. Nos Candomblés existem os cânticos que são entoados com os Òrìsà manifestados e outros não.
Os atabaques são tocados por Ogans confirmados da Casa ou por visitantes importantes, merecedores de homenagens especiais.
Os atabaques são instrumentos sagrados que passam por rituais de iniciação e recebem obrigações como verdadeiras divindades. São devidamente paramentados com Òjà da cor do Òrìsà homenageado ou na cor branca. São em número de 3, e, de acordo com a nação seguida pelo Candomblé, tomam nomes diferentes, do maior para o de menor tamanho, cada um com som diferenciado, de acordo com o tipo de toque ou com o tipo de som que queiram dar, percutidos com as mãos ou com varetas de madeira:
Nação de Candomblé: Kétu Jeje
Atabaque maior Ìlù Hun
Atabaque médio Ìlú Òtún Humpi
Atabaque menor Ìlù òsì Le
Varetas Àtòri Agidavi
Campânula de metal Àgògo Gán
O maior dos três atabaques utilizados é o mais destacado, não só pelo seu tamanho, mas pelo que ele realiza. Ele é o solista, marcando os passos da dança com repiques e floreios. Só os mais experientes podem tocá-lo, e, na escala do aprendizado, ele é o último a ser percutido por quem deseja aprender a tocar, porque devem conhecer os momentos para os repiques que irão permitir que o Òrìsà, dançando, realize as variações nos movimentos que lembrarão as ondulações das águas de Òsun, as lutas e agilidade de Ògún e Sàngó, o ato da caça de Òsóòsì, o ninar da criança de Nàná, a extensão e beleza do arco-íris de Òsùmàrè, o baçançar das folhas ao dançar com uma perna só por Òsányín ou o pilar do inhame por Òsàgiyán. Os atributos míticos dos Òrìsà são revelados desta forma.
É ele, ainda, que “dobra o couro”, avisando da chegada de visitantes ilustres, mudando o ritmo do momento, para um bater descompassado. Os dois, o intermediário e o menor, fazem o fundo sem variações maiores. É por eles que se começa o aprendizado e o desenvolvimentos do dom natural de tocar e memorizar.
OGAN SUSPENSO E CONFIRMADO
Durante uma festa é possível que uma pessoa venha a ser escolhida para ser Ogan ou Ekedi, dois cargos de pessoas que não viram com qualquer divindade e que somente galgam um posto no Candomblé mediante a escolha direta de um Òrìsà manifestado. Se o Òrìsà for Yánsà, ele será um Ogan de Yánsà, independente do Òrìsà que possua. Yánsàn o pegará pelo braço e dará um breve passeio pelo salão, apresentando-o a todos, com os cânticos:
Ji Olóyè lóloyè — suspendemos o titular
A ta taròde — aquele que terá
A ta taròde — a riqueza do título
A ta taròde.
Uma cadeirinha será formada com os braços por dois Ogans mais velhos, que o conduzirá a uma outra cadeira, e ele será ali depositado após três tentativas obrigatórias. A partir daí será considerado um Ogan suspenso, merecedor de honrarias, até que seja iniciado e tenha o seu Òrìsà assentado. Se for Ògún, fará as obrigações juntamente com as obrigações do Òrìsà que o apontou.
Tanto uma Ekedi como um Ogan passam pelo ritual de Bólóna(n), para verificar a sua condição de ter apenas o santo assentado, ou se houver alguma reação, ser recolhido como Adósù. Em outras palavras, a intenção é contrária ao ritual feito para as pessoas que são Adósù, ou seja, provar que não se manifestam com Òrìsà em nenhuma hipótese. Como não há manifestação, os Ogans não necessitam das mesmas obrigações que uma Ìyàwó, por exemplo, não precisam cortar os cabelos e raspar a cabeça.
Sob o ponto de vista iniciático, os Ogans se tornam fiéis à Casa que os iniciou, pelo fato de não poderem mais sair dela, ou seja, não poderem ser novamente confirmados em outra Casa, no caso de insatisfação. Trata-se de uma situação contrária à dos Adósù, que têm a liberdade de mudar de Candomblé diante de alguma divergência e fazer suas obrigações com outros zeladores-de-santo, conforme seu desejo. Aos Ogans é dado apenas o direito de se afastar diante de alguma discordância ou de serem homenageados por outros Candomblés.
Seu recolhimento tem uma duração menor do que o de uma Ìyàwó, o que requer ritos menos complexos. Em sua apresentação pública, virá usando uma faixa com a definição de “Ogan de Yánsàn”. Será conduzido pelo próprio Òrìsà que o escolheu, que dirá o seu novo nome, pelo qual passará a ser conhecido. Terá sua cadeira exclusiva, será chamado de Pai e todos lhe tomarão a bênção. Passará a usar um boné branco, Fìlà ou Àketè, símbolo de sua posição, embora muitos não tenham o hábito de usá-lo. Terá um Oyé especificando sua real função. Relacionamos alguns desses títulos que definem suas reais funções:
Alágbè
Asògún
Ojú Oba,ApokanApótun
Elèmòsó
Bàbá Egbé
Sobalojú
Aràmefà
Àjímúdà
Àfikode
Sárépègbé
Asógbá
Ojú Ode
Balógun,Balè
O grupo dos tocadores de atabaque é dirigido pelo Alágbè, que se ocupa de tocar o maior de todos, comandando o ritmo e impondo uma variedade enorme de toques e efeitos como um autêntico regente. Os outros acompanham suas determinações, com o Àgògo fazendo a marcação. A ele compete homenagear o Òrìsà, quando ele se manifesta. No Candomblé se diz que o Ogan vai “dar rum ao santo”, ou seja, homenageá-lo com cantigas que ressaltam seus atributos. A expressão vem do yorubá Dáhùn, responder com cânticos pela presença do Òrìsà. É uma possível expressão dos Candomblés Jeje, em razão dos próprios Voduns cantarem seus cânticos junto aos atabaques. Quando isso acontece, os Ogans respondem com outros cânticos. Este ato de responder justificou a expressão Dáhùn.
Os cânticos possuem a parte cantada pelo Alágbè, que é o solista, e a parte cantada pelo coro composto das pessoas que dançam na roda. Para os Òrìsà se canta para chamá-los, para reverenciá-los, e canta-se também para subir, ou seja, para sua despedida.
Alguns toques feitos nos Candomblés têm seus nomes sugeridos pelo próprio ritmo e podem ser assim definidos:
Àgère — toque para Òsóòsì e Lógun. É cadenciado e exige uma certa elegância na condução dos passos;
Opanije — toque para Omolu, Nàná e Yemojá. Movimento das mãos para um lado e para o outro, com uma pequena pausa.
Ìjèsà — é tocado com as mãos diretamente no couro, um ritmo calmo e balanceado. Pega grande parte dos Òrìsà, e em especial, Òsun.
Àlúja — toque característico para Sàngó, que exige movimentos enérgicos e rápidos. É o toque que mais exige variações do atabaque maior
Ìlù — específico para Yánsàn. Um dos toques mais rápidos do Candomblé, em que todos os três atabaques trabalham com muita atenção, pela velocidade das batidas.
Ìgbìn — toque de Òsàlá, e um dos mais lentos do Candomblé, pela própria natureza do Òrìsà.
Os demais são assim denominados:
Tonibobe
Bàtá
Jìká
Adahun
Agabi
Sato
Ego
Vamunha
Bravum
Adere
O COMPORTAMENTO DOS VISITANTES
O traje para se freqüentar um Candomblé no dia de festa é informal. Vestidos simples e leves para as mulheres, devido ao calor do local, e para os homens esporte simples, mas nunca bermuda. A cor das roupas devem ser de preferência branca, evitando-se as cores preta, marrom e roxa.
Durante a cerimônia, alguns movimentos são efetuados por todos, mas o assistente eventual não tem compromisso de proceder como todos, embora em certos momentos seja necessário. Por exemplo: o “senta-levanta”, que ocorre quando a Ìyálórìsà entra no salão para iniciar a festa, quando se ergue da cadeira por qualquer motivo, quando dança, e o mais importante, quando se canta para o Òrìsà patrono da Casa ou para o próprio Òrìsà da pessoa. Em todos esses momentos, a pessoa deve se levantar, assim como quando os Òrìsà retornam paramentados, em sinal de respeito.
A CONDUTA DOS INTEGRANTES DO CANDOMBLÉ
Um terreiro tem a responsabilidade direta e incontestável da Ìyálórìsà, também conhecida como Ìyáláse ou zeladora. O respeito a ela é absoluto. Toda pessoa iniciada, não importando sua hierarquia, é denominada de adósù, ou seja, é aquela que levou o Osù, a marca que distingue uma pessoa iniciada no Candomblé kétu. É uma pequena massa cônica colocada no alto da cabeça raspada, composta de elementos diversos, utilizados na iniciação: folhas, sangue, comidas, etc. Quando a pessoa morre, há o ritual de tirada de Osù, um ato simbólico e de muito fundamento. No Candomblé Jeje, não é usado o Osù, por isso, quando morrem, não é feito exatamente este ritual. Ìyàwó é a denominação de uma pessoa iniciada. É o primeiro grau de um caminho de promoções. Perderá este título e ganhará outro a partir da obrigação de sete anos, que poderá ser feita a qualquer tempo. Mas sempre sete anos após a feitura.
Ao entrar para o Candomblé, a pessoa deve ter a consciência de que fará parte de uma nova família com regras de conduta. É a família-de-santo, Arailé Òrìsà, que se diferencia da família biológica, pois há uma interferência dos Òrìsà, que, pela sua natureza, determinam posições, cargos, alimentação, conduta, o que fazer, as chamadas proibições e kizilas.
O que um terreiro faz poderá não ser feito em outro.
Todas as determinações de conduta devem ser seguidas. Vamos enumerar algumas dessas regras, não constituindo a seqüência numerada como grau de importância:
1 — Ao chegar no terreiro, não conversar com ninguém, tomar banho de folhas, que geralmente já está preparado, tocar de roupa e ir ao quarto do Òrìsà patrono do terreiro e bater a cabeça. Em seguida, ir bater cabeça para o seu Òrìsà. Se for um Òrìsà Okùnrín, masculino, fazer o Dòbálè; se for Obìnrin, feminino, fazer o Yinká. Em seguida tomar a bênção à Ìyálórìsà, descobrindo antes a cabeça. Depois tomar a bênção aos demais mais velhos. Para não constranger as pessoas, ao chegar e não podendo conversar com ninguém, caminhar ligeiramente curvado para que saibam que você está numa tarefa especial.
2 — Durante a roda de Candomblé, ao ouvir o cântico do seu Òrìsà, descobrir a cabeça e ir tomar a bênção à Ìyálórìsà, à Mãe Pequena e à sua Mãe Criadeira. Os mais velhos na frente, podendo usar botas e sandálias de salto. Não se usa o Òjà na cintura, mas sim, à altura do peito.
3 — Iniciadas com menos de sete anos sentam em esteira nos ritos de Ìpàdé; antes da obrigação de três anos, andar descalça; Ogan não se ajoelha no Ìpàdé e, no Borí, todos devem permanecer de pé, sendo as danças individuais. Contas atravessadas em homem indicam que ele tem um Òrìsà masculino ou é Ogan.
4 — A Ekedi pode se vestir com roupas civis, ou usar saia e bata.
5 — Manter a cabeça coberta: nos ritos de Àsèsè, no Ìpàdé, servindo o Olubajé, ao dançar na roda do Candomblé, na procisão de Ìyámase e nos trabalhos internos do Candomblé. Descobrir a cabeça: ao tomar a bênção à Ìyálórìsà, na roda de Sàngó, e ao trazer a comida do Ìpètè na cabeça.
6 — Nas cerimônias públicas no Barracão, é feita uma seqüência de cânticos e danças denominada Siré. O pano-da-costa, Aso Oke, é fundamental para uma pessoa dançar na roda do Candomblé, se assim o desejar, ou se a Casa o permitir. É uma peça eminentemente feminina.
7 — As danças tomam um caráter profundo quando os Òrìsà já estão se aproximando na cabeça das pessoas da roda. Ao chegarem, ocorrendo a manifestação, algumas medidas são tomadas: descobrir a cabeça, amarrar um pano-da-costa no peito; para os homens, tirar os sapatos e meias, jóias e, às vezes, a camisa, substituída por um Òjà amarrado no peito e preso por trás. São medidas prévias como primeiras homenagens para depois serem conduzidos a uma dependência interna onde vestirão suas roupas de gala, com as cores que lhes são identificadas.
8 — As roupas dos Òrìsà são usadas de forma que respeitem a condição masculina. Por exemplo: Òrìsà feminino em homem, usa bombacha, Sòkòtò. Òjà de peito com laço atrás é para Òrìsà masculino; na frente é para Òrìsà feminino.
9 — Nos rituais de sacrifício ou comidas oferecidas aos Òrìsà, só se pode comer depois dos oferecimentos, ou depois do Òsè. Se vai receber Àse, ou seja, o sangue de um oferecimento animal, comer antes quebra a força.
10 — A intervenção das pessoas nos rituais se processa através dos cargos que possuem, e do Òrìsà que carregam, sob diferentes maneiras:
Yánsàn — é a dona da esteira, é ela quem arruma a cama do Borí, carrega o estandarte de Òsàlá nas Águas e participa, indiretamente, dos ritos dos ancestrais e Egúngún;
Yemojá e Nàná — trazem a cabra e seguram os bichos de pena nas festas de Òsàlá;
Oya e Òsun — trazem o animal nas festas de Sàngó.
Nas Casas já estruturadas pelo tempo de vivência, certos cargos são de responsabilidade de filhos de determinados Òrìsà, cujos atributos se identificam com o que se pretende. O critério para a escolha se baseia neste princípio, embora não seja regra geral adotada por todos:
Ìyá Efun — filhos de Òsàlá.
Ìyá Mórò — filhos de Omólu.
Asògún — filhos de Ògún.
Para determinados despachos — filhos de Ògún.
Trabalhos de Èsù — filhos de Ògún, Obalúwáiyé e Ode.
11 — No Candomblé, a precedência e o respeito são mais visíveis e determinantes pela idade de iniciação do que pelo status que possui.
12 — No Candomblé se aprende praticando.
13 — No Candomblé não se faz barulho e não se fala alto. Anda-se em silêncio.
14 — A obrigação de sete anos, denominada de Odúje, faz da Ìyàwó uma Ègbónmí, que é um cargo que indica precisamente isto, o tempo de feitura, independente de um Oyè que venha a ter.
15 — Quando uma pessoa se inicia no Candomblé, passa a ter a marca do seu terreiro, a marca do seu Àse, na medida em que se aprofunda e participa de suas atividades. Não é, porém, um fato determinante, isto é, não quer dizer que o que aprendeu não possa ser modificado.
RELAÇÕES DE SEXO E CASAMENTO
Considerando que todos os membros de um Candomblé sejam filhos-de-santo; isto é, sejam iniciados, eles poderão ser:
1 — Irmãos-de-Santo — são todos aqueles que foram iniciados pela mesma Ìyálórìsà;
2 — Irmãos de Àse — à todos aqueles que foram iniciados num mesmo Candomblé, mas por Ìyálórìsà diferentes. E isto ocorre quando a Ìyálórìsà falece e é substituída por outra. Os filhos da primeira serão irmãos-de-Àse dos filhos a serem iniciados pela segunda. Ou então, quando a Ìyálórìsà esteja impedida de inciar pessoas que sejam parentes próximos, como irmãos carnais, marido e mulher, pais e filhos;
3 — Irmãos-de-Esteira — são os iniciados com Òrìsà de fundamento similares, e que por força disto podem ser recolhidos juntos, excetuando os sexos diferentes;
4 — Irmãos-de-Barco — são os que fazem parte de um mesmo grupo de iniciados.
Esta questão de legitimidade, de poder ou não poder fazer, determina normas à Ìyálórìsà. Ela não pode iniciar seus pais, seus irmãos, o marido e filhos, como também não pode torná-los irmãos-de-santo, segundo o critério da maioria dos Candomblés. Poderão ser iniciados na Casa, porém, pelas mãos de uma outra pessoa. Este recurso também se aplica para mãe e filho carnais e entre homossexuais, para que não se perca o critério do respeito e da seriedade.
O INÍCIO DE UMA FESTA DE CANDOMBLÉ
A festa tem início com a entrada da Ìyálórìsà, que senta em sua cadeira juntamente com as pessoas que têm cargos na Casa e os convidados de honra. Forma-se a roda, obedecendo-se a hierarquia: os mais velhos na frente. No chão são espalhadas folhas de aroeira ou são gonçalinho, a critério da Casa, ou outra também apropriada. O toque se inicia com Ògún, quando então todos vão salvar a porta, tomar a bênção à Ìyálórìsà e salvar os atabaques, mensageiros da vinda dos Òrìsà.
A partir daí segue um conjunto de cantigas, um mínimo de três, máximo de sete, para cada Òrìsà, numa ordenação predefinida de Ògún a Òsàlá.
A seqüência de cantigas ao Òrìsà é denominada de Siré no Brasil. Tem a finalidade de homenagear as divindades e invoca-las. A chegada de cada uma delas é feita em meio a saudações e palmas.
Os toques e cânticos tomam novos ritmos, sendo cada um reverenciado com alguns cânticos e em seguida conduzidos para os aposentos internos pelas Ekedis, e devidamente vestidos com suas roupas de gala, com cores e insígnias que indicam o seu poder e domínio junto à natureza. É neste intervalo que os visitantes ilustres são devidamente recepcionados, com comidas que variam de acordo com as preferências e os tabus do Òrìsà homenageado.
A apresentação dos Òrìsà num dia de festa é o momento de gala, quando todos são recebidos de pé e trazem em suas mãos a representação de seus atributos e temperamentos. O cântico que os traz ao Barracão diz bem como será feita a homenagem individual para cada um.
Nesse momento faz-se uma seqüência de cânticos.
A partir daí todos os Òrìsà que estão em terra são saudados individualmente, com cânticos e danças que representam narrativas de seus feitos mitológicos e as glórias de seus triunfos. Alguns são seres primordiais, outros são vistos como ancestrais divinizados dos clãs africanos. Eles estão longe de se parecerem com os santos católicos que um sincretismo arcaico insiste em manter. Ao contrário, eles revelam características humanas, como emoções, vontades e tendências diversas que os aproximam bastante das pessoas que os têm como patronos.
CANDOMBLÉ — é uma estrutura de culto às forças da natureza, à um hino, à vida como Eterno Movimento, que se manifesta nas danças, nas cores dos ORIXÁS, nos elementos sacramentais. Ritual comunitário de cantos, danças e alimentos sagrados na sua forma pública, o Candomblé é sacramentado pelo Pai ou Mãe de Santo, pelos Filhos de Santo, pelos tocadores de atabaque (OGAN), que entoam os cantos sagra dos possibilitando a vinda do, com a participação da comunidade dos mais velhos às criancinhas. Todos cantam e saúdam os ORIXÁS, executam a dança sagrada, num hino à Alegria, Amor e Partilha. A palavra Candomblé possui dois significados entre os pesquisadores: Candomblé seria uma modificação fonética de "Candonbé", um tipo de atabaque usado pelos negros de Angola; ou ainda, viria de "Candonbidé", que quer dizer "ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa".
ÀKÈRÈGBÈ — pronúncia correta ÁKÊRÊBÊ ? — nome com o qual se chama a cabaça inteira.
ÌGBÁ — pronúncia correta IBÁ — cabaça cortada em forma de cuia. ÌGBÀ = assentamento de Orixá; panela onde se guardam os objetos sagrados dos deuses e se faz o sacrifício.
ÌGBÁJE — pronúncia correta IBAJÉ — cabaça cortada em forma de prato. Recipiente para a comida.
ÌGBASE — pronúncia correta IBAXÉ — Cabaça cortada acima do meio, formando uma vasilha com tampa; por isso recebe o nome de Ìgbase, ou cuia do Àse, e é utilizada para colocar os símbolos do poder após a obrigação de sete anos de uma Ìyàwó, como a tesoura, navalha, búzios, contas, folhas, etc. que permitirão à pessoa ter o seu próprio Candomblé.
ÀSE — pronúncia correta AXÉ — é a força vital e sagrada que está presente em todas as coisas que a natureza produz; grande frente de poder que é mantida, ampliada e renovada por meio dos ritos que se processam nos Candomblés. Axé significa “que assim seja”, ou “que Deus permita que isto aconteça”. É uma palavra sagrada tão importante quanto Amém, Assim Seja, Aleluia e tantas outras.
ÌYÀWÓ — pronúncia correta IAÔ — adepto do Candomblé que ainda não completou os 7 anos de iniciação. Iniciada, Iniciado.
SÀSÀRÀ — pronúncia correta XAXARÁ — cetro ritual de palha da Costa, ele expulsa a peste e o mal.
OMOLU — pronúncia correta OMÓLÚ — Omolu é uma flexão dos termos: Omo= filho; Oluwô= senhor. Omolu quer dizer "filho e senhor”.
ÓGÓ — pronúncia correta ÓGÓ — um pênis de madeira, com búzios pendurados simbolizando o sêmen. Outros dizem que o ÓGÓ é um bastão com cabaças, representando o sexo masculino.
ÈSÙ — pronúncia correta ÊXÚ — o primeiro Orixá a ser cultuado em qualquer ocasião.
ÀBÌKÚ — outros escrevem como sendo do original ABÍKÚ — pronúncia correta ABÍKÚ — é uma forma de espírito especial que nasce e morre. É claro que isto ocorre com qualquer um. No caso de Àbìkú, significa que ele traz consigo o dia e a hora em que vai retornar, sem viver uma vida plena. O que se faz é quebrar as kizilas para ele esquecer a data. Costuma-se usar um Sáworo (ou Sàworo) no tornozelo para afastar os espíritos de Àbìkú que tentam buscá-lo, lembrando-lhe a data de sua volta. Existe uma relação entre os Àbìkú e os Ibéji; um não quer ficar no mundo, o outro vem em forma dupla. Quem é Àbìkú não pode ser raspado e nem raspar ninguém. Não joga e nem coloca as mãos nos búzios. aquele que nasce para morrer. Pessoas que sobreviveram a situações perigosas no nascimento, como os nascidos com o cordão umbilical em volta do pescoço, os que nasceram com os pés, os abandonados recém-nascidos e os que ficaram órfãos ao nascer, etc. São duas as interpretações: a criança que, ao nascer a ãe morre; a criança que morre ao nascer em partos sucessivos. O ideal iorubá do renascimento é às vezes tão extremamente exagerado, que alguns espíritos nascem e em seguida morrem somente pelo prazer de rapidamente poder nascer de novo. São os chamados ABICUS (literalmente, nascido para morrer).
Segundo alguns, o Sáworo (ou Sàworo) é um trançado de palha-da-costa com guizos, usado no tornozelo, símbolo de Omolu (grifo nosso).
ÌPÀDÉ — pronúncia correta IPÁDÊ — cerimônia de Èsù.
AGBÈ — pronúncia correta ABÉ — Cabaça inteira e revestida de uma rede de malha, usada como instrumento musical usado pelos Ogans, durante os toques e cânticos.
OGAN — do original ÒGÁ — pronúncia correta OGÃ (deveria ser OGÁ, grifo nosso) — homem que não entra em transe, iniciado para tocar os atabaques, fazer sacrifícios ou cuidar dos assentamentos rituais dos Orixás; grande autoridade dentro do terreiro. O Ogan é uma pessoa escolhida diretamente pelo Òrìsà para exercer a função. Após ser iniciado é denominado Ogan “confirmado”, passando a ter direito à sua cadeira. A palavra vem do yorubá Ògá, significando mestre e senhor.
SÉRÉ — pronúncia correta XÉRÉ — forma reduzida de Sèkèrè — pronúncia correta XÉKÉRÉ — chocalho feito de cabaça alongada, que ao ser agitado com as sementes da cabaça lembra o som da chuva caindo. Instrumento por excelência de Sàngó.
SÀNGÓ — pronúncia correta XANGÔ — Orixá da justiça, do poder e do trovão. Rei de Oió. Xangô significa “aquele que se destaca pela força e revela seus segredos”.
ÀSÈSÈ — pronúncia correta AXÊXÊ — ritual fúnebre.
ÒSU — pronúncia correta ÔXÚ — é uma massa feita de diversos elementos, tem um formato cônico e é colocado no alto e centro da cabeça, exatamente onde foi feito o pequeno corte (O GBÉRÉ) no momento do feitio do santo. A partir daí, a iniciada(o) poderá ser chamada(o) ADÓSU.
ÌGBÁDÙ — pronúncia correta IBÁDÚ — cabaça cortada em forma de vasilha com tampa e é conhecida como a cabaça da existência e contém os símbolos dos quatro principais Odù: Éjì, Ogbè, Òyekú Méjì, Ìwòri Méjì e Òdí Méjì.
ODÙ — pronúncia correta — ÔDÚ — caminho, destino.
YORUBÁ — ou IORUBÁ — do original YORÙBÁ — etnia predominante na região da Nigéria.
OLORUN — pronúncia ÓLÓRUN — o Deus Supremo. O mesmo que Olódùmarè. — segundo dizem é um título conferido a Olodumaré e que quer dizer “O Rei do Céu — Sua habitação é o Céu, como majestade única e incomparável”.
OJÓ ÒSÈ — pronúncia correta ÓJÓ ÓSSÉ — dia da semana.
ÒRÌSÀ — pronúncia correta ÔRIXÁ — deuses Iorubás na África e no Novo Mundo — seriam ancestrais míticos encantados e metamorfoseados nas forças da natureza. Os deuses do Candomblé. A palavra Orixá vem do sânscrito e é composta de OR ou ORI que significa “luz” e em Iorubá “cabeça”; XA que significa “senhor, chefe, dono”. São pois, as forças criativas da natureza. No Candomblé significa, dono da cabeça. A palavra “Orixá” significa, em iorubá “Ministro de Olorum”. Segundo outros autores, Oxalá é considerado o pai de todos os Orixás; e foi ele que os denominou Orixá. Este título de “pai”, neste caso, sugere a sua relação com as outras divindades no caso de muitas delas terem sido emanadas dele. A fragmentação do de seu corpo, e posterior recolhimento de todos os seus “pedaços” espalhados pela Terra, fez surgir a palavra Òrìsà, uma contração da expressão “OHUN TI A RI SÀ”, o que foi achado e juntado, fazendo, assim, surgir as demais divindades que foram denominadas Òrìsà.
ÒRÚNMÌLÀ — pronúncia correta ÓRUNMILÁ — deus criador do oráculo de Ifá.
AWO — pronúncia correta AUÓ ? — segredo, mistério sagrado.
IFÁ — deus de todos os oráculos. Segundo dizem alguns, é uma qualidade de Oxalá, considerado o “Espírito Santo”.
JÀKÚTA — pronúncia correta JÁKUTÁ ? — é a denominação de um antigo Òrìsà, anterior a Sàngó, cujo nome significa “o atirador de pedras”, numa alusão aos meteoritos que caem do espaço atingindo pessoas, casas e comunidades, como forma de punição divina por erros cometidos. Por isso é cognominado o Justiceiro de Olódùmarè.
OLÓDÙMARÈ — pronúncia correta OLODUMARÊ — o Deus Supremo.
ÒSÀLÁ — pronúncia correta OXALÁ — v. Oxalufã (do original Òsàlùfón = qualidade de Oxalá, o mais velho que carrega um cajado Òpá Sóró para ajudá-lo a caminhar).
IFÉ — pronúncia correta IFÉ — a primeira cidade da Nigéria, berço da civilização iorubá e do resto do mundo. Terra de Ogum. Cidade de Obatalá. Alguns dizem que é Cidade de Ogum; outros, dizem que é a cidade de Obatalá. Dizem que a Cidade de Ogum é Èkìti.
NÀNÁ — pronúncia correta NANÃ (vogal precedida de N) — Entre os jeje, Nanã significa “Mãe”. Orixá mais antigo do Candomblé que domina a vida, a morte e o renascimento. Senhora do portal da vida e da morte.
ÒSÙMÀRÈ — pronúncia correta OXUMARÊ — Orixá do arco-íris e dos ciclos. Oxumaré significa “aquele que se desloca com a chuva e retém o fogo os seus punhos”.
YÁNSÀN — pronúncia correta IANSÃ — Orixá das tempestades. Rainha dos raios, ciclones, furacões, tufões e vendavais. Orixá do fogo.
ÒSÓÒSÍ — pronúncia correta OXÓSSI — Oxóssi vem de Oxo: caçador; Ossi: noturno). Orixá da caça e da alimentação, o rei de Kêtu.
ÒGÚN — Gum: guerra — pronúncia correta ÔGUM — Orixá guerreiro da tecnologia e da metalurgia. Também nome de um rio que cruza Abeokutá, no Novo Mundo e que segundo a lenda, é o rio da Deusa Yemanjá.
YEMOJÁ — ou YEMANJÁ ou IEMANJÁ — pronúncia correta YEMANJÁ (deveria ser YEMONJÁ — vogal precedida de M grifo nosso) — Orixá do mar. O nome Iemanjá, ou seja, Yemojá deriva de Yèyé omo ejá que vem de iya: "mãe"; omo: "filho"; eja: "peixe" e que quer dizer "Mãe cujos filhos são peixes". Na África Iemanjá é a Rainha dos Rios; daí é o Orixá que em terra yorubá é patrona de dois rios: o rio Yemonja e o rio Ògún — não confundir com o Orixá Ògún, Deus do ferro. Daí Yemonja estar associada à expressão Odò Iyá, ou seja, "Mãe dos Rios".
ÒSUN — pronúncia correta OXUM — deusa das águas doces e cristalinas, do amor e da fertilidade das mulheres.
ÀMÀLÀ — pronúncia correta AMALÁ — é a comida mais elaborada do Candomblé. É a comida predileta de Xangô e representa a dignidade e o poder de Xangô, e a própria organização do reino de Oió.
BORI — pronúncia correta BÓRÍ ou BÔRÍ ? — A palavra vem de bo + ori: adorar a cabeça; cerimônia através da qual a pessoa passa a ser consagrada aos Orixás. Oferenda à cabeça. Ritual no qual é cultuado o ori (cabeça), o princípio da individualidade, considerado por muitos sacerdotes como a grande iniciação. Bori significa “alimentar o Orí”, é uma cerimônia onde nós homenageamos (alimentamos) um dos mais importantes Orixás. O Bori é feito em muitas situações, tais como: antes de qualquer grande oferenda ao nosso Orixá (incluindo iniciação), quando nos sentimos enfraquecidos — sem poder de concentração, confusos, quando os búzios nos dizem para que o façamos, etc.
JEJE — etnia predominante no ex-Daomé; o mesmo que ewé=fon.
OLUBAJÉ — do original ÓLÙGBAJÉ — pronúncia correta ÔLUBAJÉ — banquete dedicado a Obaluaiê. Festa da família de Omolu, onde Olu="senhor" e Baje= "comer junto". Portanto, Ólùgbajé quer dizer "comer junto". Esta festa consiste em se oferecer várias comidas não só a este Orixá, mas a vários Orixás que se farão presentes.
AYABÁ — do original ÀYABÁ — pronúncia correta IABÁ ou AIABÁ ? — designação genérica dos Orixás femininos. Também conhecidas como “As Rainhas do Candomblé”. ÀYABÁ é um título conferido a Iemanjá e quer dizer “Rainha”.
ÌPÈTÈ — pronúncia correta IPÉTÉ — denominação da comida oferecida a Oxum e que dá nome à festividade. Faz parte do ciclo final da festa das Àyaba. Festa de Oxum.
ÀKÀSÀ — pronúncia correta ACAÇÁ — o mesmo que Ekó; massa de farinha de milho branco enrolada em folha de bananeira.
ÌPÀDÉ — pronúncia correta IPÁDÊ — cerimônia de Èsù.
ÌYÀNLÉ — pronúncia correta IANLÊ ? — oferecimento aos Òrìsà das oferendas preparadas.
SIRÉ ÒRÌSÀ — pronúncia correta XIRÊ ÔRIXÁ — toque festivo. Festa; o momento do Candomblé em que os filhos-de-santo dançam em homenagem aos Orixás. SIRÉ — se , fazer; eré = brincadeira: literalmente, os cânticos alegres dos Òrìsà.
LÉHÌN — pronúncia correta LÉRRIN — Ritual do Candomblé onde as partes dos animais que são cozinhadas são postas aos pés do Òrìsà, para que no dia seguinte sejam divididas entre os membros do Candomblé. Sentados no chão, sobre esteiras, e em silêncio, absorvem a energia do Òrìsà, que passa para todos. LÉHÌN significa “o que vem depois”. Posterior repasto comunitário.
ERU PIN — pronúncia correta ÉRÚ PIN — carrego das obrigações feitas. ERU = carrego.
OBÌ — pronúncia correta ÔBÍ — noz de cola; fruto africano tão importante para o Candomblé quanto a hóstia para a Igreja Católica.
ORÓGBÓ — pronúncia correta ÔRÔBÔ — fruto africano consagrado a Xangô.
A ausência do sal é alegada para não batizar Èsù e ele se tornar mais poderoso do que é.
ÌYA MORÒ — pronúncia correta IÁ MÔRÔ ou MÔNRRÔ (vogal precedida por M) ? — Cargo no Camdomblé, daquela que é responsável pela cuia do Ìpàdé.
PÈPÉLÉ — pronúncia correta PÉPÉLÉ ? — prateleiras onde são acomodadas as vasilhas.......
ÌBO — pronúncia correta IBÓ — adoração. Também significa o local onde estão assentados os ancestrais, representados por tiras de panos brancos e louças.
OGE — pronúncia correta ÔGUÊ ? — um par de chifres que se batem um no outro, falando os nomes de pessoas ilustres. Ou, em outros casos, u par de chifres que se batem um no outro para invocar Oxóssi,; pois, o Oge é um símbolo de Oxóssi.
ASÒGUN — pronúncia correta AXÔGUN — título conferido ao Ogan confirmado que tem a função de sacrificar os animais nos rituais de sacrifício, literalmente, aquele a quem foi outorgado o Àse de Ògún.
ÌBOSÈ — pronúncia correta IBÔSSÉ ? — bichos de pena. Ou será ÌBÒSÈ— pronúncia correta IBÔSSÉ ?). ÌBÒSÈ significa cobrir os pés, ou seja, calçar as patas do animal. São sacrifícios feitos de aves para cobrir cada pata do animal de quatro patas.
KIZILA — coisa proibida. Proibição, regra, preceito; o mesmo que quizila. Tudo aquilo que provoca uma reação contrária ao axé, dá-se o nome de kizila ou èwò, ou seja, são as energias contrárias a energia positiva do Orixá. Estas energias negativas podem estar em alimentos, cores, situações, animais e até mesmo na própria natureza.
ASO RERE — pronúncia correta AXÓ RÊRÊ ? — película tirada do animal de quatro patas para cobrir tudo, ou seja, todas as partes do animal, devidamente limpo e destrinchado, e que retorna num alguidar com as partes separadas, uma a uma, com exceção da cabeça, mostrando que ninguém se cortou e estão todos inteiros. Essa película cobre tudo, num ritual denominado de Sorò Jinjin Sorò. ASO significa “roupa”.
SORÒ JINJIN SORÒ — pronúncia correta XÔRÔ JINJIN XORÔ ? — ritual onde uma cabeça de boi juntamente com todos os miúdos do animal, que não é sacrificado no terreiro (ritual particular de algumas Casas), devidamente limpo e destrinchado, retorna num alguidar com as partes separadas, uma a uma, com exceção da cabeça, mostrando que ninguém se cortou e estão todos inteiros Tudo isso é coberto por uma película chamada Aso Rere, num ritual denominado de Sorò Jinjin Sorò.
PADÊ — do original PADÉ — comida de Exu, significa reunião; encontro. O ÌPÀDÉ — pronúncia correta IPÁDÊ — cerimônia de Èsù.
ÉSÀ — pronúncia correta ÊSSÁ — culto aos ancestrais. Os ancestrais.
EGÚNGÚN — pronúncia correta ~EGÚNGÚN — ancestral que volta à vida embaixo de uma grande máscara sob a qual, dizem, só há o espírito do falecido. Ancestrais masculinos.
ÌYÁMI — v. Iyá-Mi Oxorongá — do original Ìyá-mi Òsòròngà — pronúncia correta Iá-Min Oxorongá? — (ancestrais femininos cultuados coletivamente; é a representação do poder feminino expresso na possibilidade de gerar filhos). As temíveis feiticeiras. As Grandes Mães. As Iyá-Mi são a representação das mulheres ancestrais. Todas as Grandes Mães que passaram pela terra integram o corpo das Ìyá-Mi.
AGÈRÈ — pronúncia correta AGUÉRÉ ? — toque para Oxóssi; ou seja, ritmo dedicado ao Orixá Oxóssi.
IYÁ BASÉ — do original ÌYÁBÀSÈ OU ÌYÁ GBÀSÈ OU ÌYÁ AGBÀSÈ — pronúncia correta IABASSÊ — deriva da expressão Iyá Agbá Sé, que significa “a senhora respeitável que cozinha”. Título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é “a responsável pela cozinha, de SÈ = cozinhar”.
ÌYÁMASE — pronúncia correta IAMASSÉ — mãe de Xangô, no aspecto divinizado. Nos relatos tradicionais, a mãe de Xangô é conhecida pelo nome de Torosi ou Torosi Yagbodo, filha do rei Tápà. Qualidade de Iemanjá que é a mãe de Xangô.
ÒSÀGIYÁN — pronúncia correta OXAGUIÃ — Orixá funfun (do branco) guerreiro; rei da cidade de Ejigbó. Qualidade de Oxalá. Jovem, guerreiro. Oxaguiã é o nascer do Sol. É o dono do pilão e do inhame.
SIRÉ — se , fazer; eré = brincadeira: literalmente, os cânticos alegres dos Òrìsà.
OLÓRUN — pronúncia ÓLÓRUN — o Deus Supremo. O mesmo que OLÓDÙMARÈ.
OLÓDÙMARÈ — pronúncia correta ÔLÔDUMARÊ — o Deus Supremo. O mesmo que OLÓRUN.
ÀSÒGÚN — pronúncia correta AXÓGUN — título conferido ao Ogan confirmado que tem a função de sacrificar os animais”, literalmente, aquele a quem foi outorgado o Axé de Ogum. Geralmente, é filho de Ogum.
ÌYÁ GBÀSÈ — OU ÌYÁBÀSÈ OU ÌYÁ AGBÀSÈ— pronúncia correta IABASSÊ — deriva da expressão Iyá Agbá Sé, que significa “a senhora respeitável que cozinha”.
ÌYÁLÓRÌSÀ — pronúncia correta IÁLÔRIXÁ — sacerdotisa do Candomblé; mãe (no culto de) Orixá. Dirigente Feminina.
ORÒ — pronúncia correta ÔRÔ — consagração, sacrifício, ritual.
ARA — pronúncia correta ARÁ ? — corpo; ou seja, corpo físico. ARA ÈNIA(N) (pronúncia correta ARÁ ÊNIAN ?) = forma física do homem.
ENIKÉJÌ — pronúncia correta ÉNÍKÊJÍ ou ÉNÍNKÊJÍ (vogal “I” precedida de “N” ?) — Corpo metafísico. Literalmente a 2ª pessoa.
O pombo é o animal com o sangue mais quente, e os animais de quatro patas, com o sangue mais frio. O pato representa a água, a galinha d’angola, o fogo, o galo, a terra, e o pombo, o ar.
ÌBÒSÈ — pronúncia correta IBÔSSÉ ?). ÌBÒSÈ significa cobrir os pés, ou seja, calçar as patas do animal. São sacrifícios feitos de aves para cobrir cada pata do animal de quatro patas. Ou será ÌBOSÈ — pronúncia correta IBÔSSÉ ? — bichos de pena.
ÌGBÍN — pronúncia correta IBÍN ? — Caramujo.
ÈDÒ — pronúncia correta ÉDÓ — o fígado.
FÚKÙFÚKÙ — pronúncia correta FÚKÚFÚKÚ — os pulmões do animal.
IWE — pronúncia correta IUÊ ? — a moela do animal.
OKÁN — pronúncia correta ÓKÁN ? — o coração do animal.
IWE INÚ — pronúncia correta IUÊ INÚ ? — os rins do animal.
ÌYANLÉ — pronúncia correta IANLÊ ? — ritual de oferecimento às divindades das partes consideradas vitais do animal sacrificado, como o fígado, o s pulmões, a moela e o coração.
SIRÈ — ou SIRÉ — pronúncia correta XIRÊ — toque festivo. Festa; o momento do Candomblé em que os filhos-de-santo dançam em homenagem aos Orixás.
IORUBÁ — ou YORUBÁ — do original YORÙBÁ — etnia predominante na região da Nigéria.
Geralmente, quando a Ìyálórìsà entra para obrigações, são feitas oferendas para os atabaques. Da mesma forma que a cuia do Ìpàdé representa a cabeça de todos os participantes, e a cabaça em que se tocam os ritmos do Àsèsè representa a cabeça do morto, há uma relação entre o Orí da Ìyálórìsà e os atabaques.
ÒJÀ — pronúncia correta OJÁ — ???
Humpi e Le — são, respectivamente, as formas reduzidas de Humpevi e Omele.
Gán significa ferro.
ÒSÁNYÌN — pronúncia correta OSSAIN — Orixá das folhas. O deus das ervas, dono das matas, da medicina, da cura, da convalescença.
EKEDI — pronúncia correta ÉKÉDI — auxiliar.
BÓLÓNAN — do original BÓLÓNA — pronúncia correta BÓLÓNAN — é a primeira manifestação de um Orixá numa pessoa, e que ocorre geralmente de forma bruta e sem qualquer previsão. Pode ser durante uma festa ao se cantar para um determinado Orixá; a pessoa é vítima de tremores e sobressaltos, caindo no chão inconsciente. BOLAR vem de EMBOLAR, e é uma forma alterada do Yorubá BÓLÓNA(N), BÓ + LÓNA (N), no caminho.
O OSÙ é o axé com o qual se firma o Orixá no alto da cabeça. É a marca que distingue o iniciado. Na África, para determinados Orixás, ele é simplesmente um tufo de cabelos deixado no alto da cabeça raspada. Aqui, compõe-se de elementos diversos que podem ser alterados de acordo com o Orixá, como aridan, pichulin, préa e pós diversos. É moldado com as águas das folhas da Ìyàwó em formato cônico, constituindo-se em um fragmento do Axé coletivo da Casa. Ou seja, o OSÙ é uma massa feita de diversos elementos, tem um formato cônico e é colocado no alto e centro da cabeça, exatamente onde foi feito o pequeno corte (O GBÉRÉ no momento do feitio do santo. A partir daí, a iniciada poderá ser chamada ADÓSU. O Adósù é o equivalente à Ìyàwó, por ela usar o Osù e ser raspada. Há casos, porém, na iniciação de um Ogan, de ele usar o Osù, o que amplia a relação, ao nosso ver. Ele é usado na feitura e nas obrigações de três e sete anos e na morte, quando simbolicamente ele é retirado do corpo morto, através de um ritual muito reservado. Quando a morte se dá por um acidente difícil de se usar o corpo, os preceitos são feitos numa cabaça, que representará a cabeça do falecido.
FILÁ — do original FÌLÀ — capuz que cobre o corpo de Omolu para esconder suas doenças da pele; ou seja, cobertura feita de Ìko, a palha-da-costa que cobre o rosto de Omolu. Também chama-se FÌLÀ o boné branco usado pelos Ogans confirmados, símbolo de sua posição. Também chamado de Àketè. Essa cobertura (ou capuz) também é chamado de AZE, nos Candomblés Jeje).
OYÈ — pronúncia correta ÔYÊ — título dado à pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos. Esse título qualificará suas funções no Candomblé. Ele pode ser uma função restrita a um Orixá, ou pertinente aos atos da sociedade, de um modo geral.
ALÁGBÈ — pronúncia correta ALÁBÊ — título conferido ao Ogan confirmado que tem a função de tocador de atabaques. O ALÁGBÈ é também o solista do grupo. A parte cantada é feita por ele. ALÁGBÈ vem de ALÁ = dono, AGBÈ = cabaça.
OJÚ — pronúncia correta ÔJÚ — olhar.
OJÚ OBA — pronúncia correta ÔJÚ OBÁ — título conferido ao Ogan confirmado e que tem a função de ??? — OJÚ = olhar.
APOKAN — outros dizem que a escrita correta é APOKAN — pronúncia correta APÓKAN ou APÔKAN ? — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é um “posto no quarto de Omolu”. Também, um título conferido ao Ogan confirmado e com as mesmas funções.
APÓTUN — pronúncia correta APÓTUN — título conferido ao Ogan confirmado e que tem a função de ???
ELÉMÒSÓ — pronúncia correta ELÉMÓXÓ — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é um “posto no quarto de Oxaguiã”. Também, um título conferido ao Ogan confirmado e com as mesmas funções.
BÀBÁ EGBÉ — pronúncia correta BÁBÁ EBÉ — título conferido ao Ogan confirmado e que tem as funções de ???
SOBALÓJU — pronúncia correta SÓBÁLÔJÚ — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é um “posto no quarto de Xangô”. Também, um título conferido ao Ogan confirmado e com as mesmas funções.
ARÀMEFÀ — pronúncia correta ARÁMÉFÁ — título conferido ao Ogan confirmado que tem as funções de ???
ÀJÍMÚDÀ — pronúncia correta AJÍMÚDÁ — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é um “posto no quarto de Omolu”. Também, um título conferido ao Ogan confirmado e com as mesmas funções.
ÀFIKODE — outros dizem que o original é AFIKODE — pronúncia correta AFÍKÓDÉ — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é um “posto no quarto de Oxóssi”. Também, um título conferido ao Ogan confirmado e com as mesmas funções.
SÁRÉPÈGBÉ — outros dizem que a escrita original é SÁREPÉGBÉ — pronúncia correta SÁRÊPÉBÉ ou SÁRÊPÉBÉ ? — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé e que tem a função de levar os convites a outros Candomblés, de SÁRE = correr, PÈ = convidar, ÉGBÉ = sociedade. Também, um título conferido ao Ogan confirmado e com as mesmas funções.
ASÓGBÁ — pronúncia correta ASÓBÁ — título conferido ao Ogan confirmado e que tem as funções de ???
OJÚ ODE — pronúncia correta ÔJÚ ODÉ — título conferido ao Ogan confirmado e que tem as funções de ??? — OJÚ = olhar.
BALÓGUN — pronúncia correta BÁLÔGUN — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é um “posto no quarto de Ogum”. Também, um título conferido ao Ogan confirmado e com as mesmas funções.
BALÈ — pronúncia correta BÁLÉ — Seria o mesmo que ÌGBÀLÈ ? (grifo nosso) = título conferido ao Ogan confirmado que significa um “posto no quarto de Iansã”.
DÁHÙN — pronúncia correta DARRUM — significa “homenagear o Santo, o Orixá”. É o ato em que os Ogans respondem com cânticos aos cânticos dos Orixás.
VODUN — divindade dos jeje; o mesmo que os Orixás entre os nagôs.
ÀGÈRÈ — toque para Òsóòsì e Lógun. É cadenciado e exige uma certa elegância na condução dos passos.
LÓGUN — ou LÓGUN ÈDE ou LÓGUNÈDE — pronúncia correta LOGUM EDÉ — Orixá das águas doces e da floresta; filho de Oxum e Oxóssi.
OPANIJE — pronúncia correta ÔPANIJÉ — toque para Omolu ou ritmo de sua dança e também o nome de sua dança. Segundo alguns, Opanijé significa “ele mata qualquer um e come”. É o toque para Omolu, Nàná e Yemojá. No atabaque é: Movimento das mãos para um lado e para o outro, com uma pequena pausa.
IJEXÁ — do original ÌJÈSÀ — cidade de Oxum. Ritmo de sua dança; toque de Candomblé: é tocado com as mãos diretamente no couro, um ritmo calmo e balanceado. Ijexá não é uma nação política. Ijexá é o nome dado às pessoas que nascem ou vivem na região de Ilexá. ILEXÁ: cidade de Logum Edé.
ÀLÚJA — pronúncia correta ALUJÁ — ritmo da dança de Xangô. Toque característico para Xangô que exige movimentos enérgicos e rápidos. É o toque que mais exige variações do atabaque maior.
ÌLÙ — pronúncia correta ILÚ — ritmo da dança de Iansã. É um toque específico para Iansã. É um dos toques mais rápidos do Candomblé, em que todos os três atabaques trabalham com muita atenção, pela velocidade das batidas.
ÌGBÌN — pronúncia correta IBIN — ritmo da dança de Oxalá; toque de Oxalá, e um dos mais lentos do Candomblé, pela própria natureza do Orixá. Também IGBIN OU ÌGBÍN: caracol comestível oferecido em sacrifício a Oxalá.
ÌYÁLÁSE — pronúncia correta IALAXÉ — o mesmo que Ìyálórìsà. Zeladora do Àse. Título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é a de “zeladora do Axé ou Ialorixá”.
OSÙ — pronúncia correta ÔXÚ ou OXO — massa feita de diversos elementos, tem um formato cônico e é colocado no alto e centro da cabeça, exatamente onde foi feito o pequeno corte, no momento da feitura do santo. Ou seja, cone preparado com obi mascado e outros ingredientes e fixado no coro cabeludo sobre incisões rituais.
ARAILÉ ÒRÌSÀ — pronúncia correta ARAILÊ ÔRIXÁ — significa a “Família-de-Santo”.
ÒRÌSÀ OKÙNRÍN — pronúncia correta ÔRIXÁ ÓKÚRÍN ? — Orixás masculinos.
DÒBÁLÈ — pronúncia correta DÔBÁLÉ — bater a cabeça para o Orixá. Quem faz o Dòbálè é aquele que possui um Orixás masculino na cabeça. O Dòbálè é deitar no chão e apenas bater a cabeça.
ÒRÌSÀ OBÌNRIN — pronúncia correta ÔRIXÁ ÔBÍNRIN ? — Orixás femininos.
YINKÁ — pronúncia correta INKÁ ? — bater a cabeça para o Orixá. Quem faz o Yinká é aquele que possui Orixá feminino na cabeça. O Yinká é deitar no chão, bater a cabeça, virar de um lado e do outro.
ÒJÀ — pronúncia correta ÓJÁ — ????
OLUBAJÉ — do original ÓLÙGBAJÉ — pronúncia correta ÔLUBAJÉ — banquete dedicado a Obaluaiê. Festa da família de Omolu, onde Olu="senhor" e Baje= "comer junto". Portanto, Ólùgbajé quer dizer "comer junto". Esta festa consiste em se oferecer várias comidas não só a este Orixá, mas a vários Orixás que se farão presentes.
ASO OKE — pronúncia correta AXÔ ÓKÊ ? — pano-da-costa.
SÒKÒTÒ — pronúncia correta XÔKÔTÔ — calçolão.
ÒSÈ — pronúncia correta ÓSSÉ — ????
ÌYÁ EFUN — pronúncia correta IYÁ EFUN — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é a “mãe de branco, a responsável pela pintura”.
ÌYÁ MÓRÒ — pronúncia correta IÁ MÔRÔ — título recebido pela pessoa que já completou a sua obrigação de 7 anos e que especifica uma função dentro do Candomblé que é a “responsável pela cuia do Ìpàdé, de MÚ = pegar, ORÒ = obrigação. Geralmente, é filha de Omolu.
OBALÚWÁIYÉ — ou OBÀLÚWÀIYÉ — pronúncia correta ÓBALUAIÊ — Orixá das doenças epidêmicas e de suas curas. Obaluaiê é uma flexão dos termos Obá (rei) - Oluwô (senhor) - Ayiê (terra), quer dizer "rei, senhor da terra”.
ODE — pronúncia correta ODÉ — o caçador.
ODÚJE — pronúncia correta ÓDUJÊ ? — nome dado à obrigação de sete anos, que faz da Ìyàwó uma Ègbónmí, que é um cargo que indica precisamente isto, o tempo de feitura, independente de um Oyè que venha a ter.
ÈGBÓNMÍ — pronúncia correta ÊBÔNMÍ ? — iniciada com mais de 7 anos no Candomblé.
OYÈ — pronúncia correta ÔYÉ — ???
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domingo, 27 de setembro de 2009
sábado, 19 de setembro de 2009
Sarava meu Mestre
Sou guia, sou corrente, egrégora e proteção. Sou chapéu, sou terno, gravata e anel. Sou sertão, sertanejo, carioca, paulista, alagoano e Brasileiro. Sou Mestre, Malandro, Baiano, Catimbozeiro, Exu e Povo de Rua. Sou faca, facão e navalha. Sou armada, cabeçada e rasteira. Sou Lua cheia, sou noite clara, sou céu aberto.Sou o suspiro dos oprimidos, sou a fé dos abandonados. Sou o pano que cobre o mendigo, sou o mulato que sobe o morro e o Doutor que desce a favela.Sou Umbanda, Catimbó e Candomblé. Sou porta aberta e jogo fechado. Sou Angola e sou Regional.Sou cachimbo, sou piteira, cigarro de palha e fumo de corda. Sou charuto, sou tabaco, sou fumo de ponta, sou brasa nos corações dos esquecidos.Sou jogo de rua, sou baralho, sou dado e dominó. Sou cachetinha, sou palitinho, sou aposta rápida. Sou truco, sou buraco e carteado.Sou proteção ao desamparado, sou o corte da demanda e a cura da doença.Sou a porta do terreiro, sou gira aberta e gira cantada.Sou ladainha, sou hino, sou ponto, sou samba e sou bamba.Sou reza forte, sou benzimento, sou passe e transporte.Sou gingado, sou bailado, sou lenço, sou cravo vermelho e sou rosas brancas.Sou roda, sou jogo, sou fogo. Sou descarrego, sou pólvora, sou cachaça e sou Jurema.Sou lágrima, sou sorriso, sou alegria e esperança.Sou amigo, parceiro e companheiro.Sou Magia, sou Feitiço, sou Kimbanda e sou demanda.Sou irmão, sou filho, sou pai, amante e marido. Sou Maria Navalha, Sou Zé Pretinho, sou Tijuco Preto e sou Camisa Preta.Sou sobrevivência, sou flexibilidade, sou jeito, oportunidade e sabedoria.Sou escola, sou estudo sou pesquisa e poesia.Sou o desconhecido, sou o homem de história duvidosa, mas sou a história de muitos homens.Sou a vida a ser vivida, sou palma a ser batida, sou o verdadeiro jogo da vida:Eu Sou Zé Pelintra!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
LENDAS DOS ORIXÁS
O QUE SÃO ORIXÁS?
Muita gente acredita que os orixás são seres inferiores, perversos e de pouca luz. Ou, então, chegam a defini-los como criaturas demoníacas, com grande poder de destruição, usados somente para o mal. Mas, então, o que realmente são os orixás?
Para nós, os orixás são seres divinos criados por Olorun, nosso Deus único, que o auxiliaram na criação do universo e de todos os seus componentes. A partir daí, eles ganharam a função de intermediários entre o criador e a criatura. É através deles que podemos tentar chegar um pouco mais perto de Deus, se isso não for muita pretensão para nós, meros mortais.
Segundo os yorubás, os orixás são os donos da nossa cabeça, ou "ori", e nossos protetores individuais. Eles estão sempre tentando nos transmitir seus conhecimentos, que, muitas vezes, passam despercebidos pela nossa razão, mas não pelos nossos sentidos. Infelizmente, não damos a devida importância a esse fato, achando que são "coisas da nossa imaginação". Segundo acreditamos, houve uma grande ruptura entre os seres humanos e os orixás, que antes viviam lado a lado, cada um podendo visitar o mundo um do outro; ou seja, a Terra (aiye) e o céu (orun), estavam ligados entre si, não existindo barreiras. Algumas lendas do Candomblé contam que tudo corria muito bem, até um ser humano desrespeitar a ordem estabelecida por Olorun. Seu erro foi adentrar em um local proibido, maculando-o com a sujeira da Terra. Isso não foi perdoado, e a separação tornou-se inevitável. Assim, Oxalá soprou o seu hálito divino sobre a Terra, criando o ar atmosférico, que seria daí em diante, a barreira entre esses dois mundos. Desde então, os seres humanos vivem tentando alcançar o céu e seus seres encantados, sem obter resultado.
Nós, através do Candomblé, conseguimos restabelecer essa ligação com o orun, e temos o poder de presenciar claramente a manifestação da centelha divina em nosso interior, que é a experiência mais maravilhosa que alguém pode experimentar. A esse conjunto de mecanismos criados pelos seres humanos para tentar chegar mais perto do criador e reatar, assim, a comunicação interrompida no passado, é a melhor definição para a palavra religião.
Há varias formas de um mesmo orixá, isto é, existem vários tipos diferentes provenientes de uma mesma origem divina. A esse fenômeno damos o nome de qualidades. Tomemos o exemplo do orixá Oxun, que reina nas águas doces. Ele irá subdividir-se em várias formas ou qualidades, como: Pondá, Opará, Kare, Topé, etc. Todas essas qualidades têm a mesma essência, mas diferem entre si em muitas coisas, inclusive no que diz respeito a seus fundamentos e rituais. Esse tema é muito complexo, gerando dúvidas até mesmo entre os babalorixás.
Por isso, para podermos detectar o orixá de uma pessoa, assim como sua forma ou qualidade, é preciso consultar o oráculo de Ifá, ou jogo de búzios. Não existe outro meio mais seguro e eficaz.
Através dos búzios, um bom sacerdote será capaz de identificar, o orixá ao qual a pessoa pertence, e também verificar se há, realmente, a necessidade de se fazer a iniciação. Caso isso seja inevitável, a pessoa em questão deverá passar por vários preceitos de confirmação até o dia da feitura. É fundamental que não haja erros de espécie alguma, pois é com a vida de um ser humano que estamos lidando.
Quando o babalorixá identifica o orixá de alguém, terá, necessariamente de levantar todos os detalhes que estão ligados a ele, como a família ao qual pertence, as oferendas de que gosta o tipo de comida que mais lhe agrada, seus lugares de ebós, rezas, cantigas, etc. É, também, muito importante saber sobre o elemento da natureza que ele habita e domina, bem como a função que desempenha dentro do universo.
Os orixás podem ser evocados através de rezas (aduras), cantigas especiais (orikis), ou pelo seu nome dentro do plantel dos orixás (morunko). Cada um deles tem suas cores predominantes, que derivam das três cores básicas do universo, que, segundo os yorubas, são o vermelho, o preto e o branco. As roupas rituais de cada orixá, além de todos os adereços e ferramentas que lhe são peculiares, também exibirão essas cores. As comidas também são indispensáveis nas oferendas, variando muito de orixá para orixá.
Existem infinitas lendas a respeito dos orixás, que foram transmitidas de geração em geração, seguindo a tradição oral. Nelas encontramos casos de casamentos entre orixás como, por exemplo, o de Xangô com Iansã. Na realidade, o que essas lendas querem mostrar, através de uma linguagem simples e inteligível, é que esses casamentos representam uniões entre dois ou mais elementos da natureza. Não podemos atribuir aos orixás características e sentimentos humanos.
LENDA DE EXÚ
Exu sempre foi o mais alegre e comunicativo de todos os orixás. Olorun, quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de comunicador e elemento de ligação entre tudo o que existe. Por isso, nas festas que se realizavam no orun (céu), ele tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a todos.
Sempre foi assim, até que um dia os orixás acharam que os sons dos tambores e dos cânticos estavam muito altos, e que não ficava bem tanta agitação.
Então, eles pediram a Exu, que parasse com aquela atividade barulhenta, para que a paz voltasse a reinar.
Assim foi feito, e Exu nunca mais tocou seus tambores, respeitando a vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os orixás começaram a sentir falta da alegria que a música trazia. As cerimônias ficavam muito mais bonitas ao som dos tambores.
Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Exu que voltasse a animar as festas, pois elas estavam muito sem vida.
Exu negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido quando sua animação fora censurada, mas prometeu que daria essa função para a primeira pessoa que encontrasse.
Logo apareceu um homem, de nome Ogan. Exu confiou-lhe a missão de tocar tambores e entoar cânticos para animar todas as festividades dos orixás. E, daquele dia em diante, os homens que exercessem esse cargo seriam respeitados como verdadeiros pais e denominados Ogans.
LENDA DE OGUN
Ogum vivia em sua aldeia, quando foi requisitado para uma guerra, que não tinha data para acabar. Antes de partir, ele exigiu que seus habitantes dedicassem um dia em sua homenagem, fazendo o sacrifício de jejuar e fazer silêncio absoluto, além de outras oferendas.
Partiu, em sua longa jornada, para os campos de batalha, onde permaneceu sete anos. No regresso à sua aldeia, caminhou durante muitos dias, sentindo muito cansaço. A fome e a sede também o atormentavam. Na primeira casa que encontrou pediu água e comida, mas ninguém o atendeu, permanecendo calados e de olhos fixos no chão.
Resolveu, então, fazer outra tentativa na próxima casa, mas a cena foi à mesma, o que despertou sua ira. Ele esbravejou com os moradores, exigindo que falassem com ele, mas ninguém o fez.
Não se conformava com tamanha falta de respeito, depois de ter lutado tanto!
Ogum esperava uma recepção calorosa em sua própria aldeia, mas, ao contrário, só encontrou silêncio.
À medida que avançava pelo interior da cidade, a mesma coisa se repetia casa após casa. Ogum nem imaginava o que estava acontecendo. Perguntava e não recebia resposta.
Sua ira já estava incontrolável, quando chegou ao centro do povoado, onde haviam muitas pessoas. Estranhou o fato de ninguém estar conversando. Perguntou a eles onde estavam suas famílias, mas não obteve resposta. Era uma afronta!
Foi assim que, evocando todos os seus poderes, Ogum dizimou sua própria aldeia.
Caçadores que passavam pela cidade, entre eles seu filho, o reconheceram e tentaram aproximar-se. Vendo que sua cólera era imensa, resolveram evocar Exu para acalmá-lo.
A ira desse orixá finalmente foi aplacada. Seu filho, indignado ao ver tanta destruição, indagou o motivo que levou seu pai a cometer tal atrocidade. Ogum respondeu que aquelas pessoas lhe faltaram com respeito quando não o reconheceram. Precisavam de um castigo.
Foi, então, que seu filho fez-lhe lembrar da exigência que fizera antes de partir para a guerra.
Ogum, tomado pelo remorso, devido à sua crueldade com pessoas que só estavam obedecendo a ordens, abriu o chão com sua espada enterrando-se de pé.
LENDA DE ODÉ
Na cidade de Ifé, realizavam-se festividades e rituais por ocasião das colheitas. Os sacerdotes da aldeia, fugindo aos seus costumes, não realizavam as oferendas obrigatórias para três das maiores bruxas conhecidas: as Iya-mi Oxorongás. Esse ato imperdoável precisava de uma boa punição. Foi assim que elas enviaram um enorme pássaro para assombrar aquela aldeia.
A ave ficou pousada no telhado do palácio, de onde podia avistar toda a cidade.
Um clima de medo e mau agouro espalhou-se entre os moradores, que não sabiam o que fazer para acabar com aquele terrível monstro.
Oferendas foram realizadas para as Oxorongás, mas sem resultado. Era tarde demais para isso.
Foi então que alguns caçadores se apresentaram para matar o pássaro das bruxas, mas foram todos derrotados. O último caçador possuía apenas uma flecha, e era a última esperança de livrar a aldeia da morte. Esse caçador era Odé.
Sua mãe, que estava longe daquele lugar, teve um mau presságio com relação a ele. Consultando um babalawô, teve a confirmação do que já sabia: seu filho corria grande perigo.
Foram necessárias muitas oferendas para que a missão de Odé fosse executada com perfeição e, graças a isso, Odé pôde matar o pássaro com sua única flecha, livrando sua aldeia da aniquilação. Desde então, vem sendo venerado por esse povo.
LENDA DE OSSAIN
Ossain era o único orixá que sabia reconhecer e despertar os poderes mágicos das plantas e usá-los para curar as enfermidades, ou nos rituais litúrgicos. Ele sabia como ninguém, fazer misturas mágicas com os vegetais, raízes e folhas.
Os outros orixás também tinham o desejo de possuir suas próprias folhas, bem como o conhecimento necessário para receber o axé proveniente delas, mas Ossain não revelava seus segredos e não deixava ninguém apanhar folhas em suas florestas.
Oyá (Yassan) não aceitava essa situação, pois sua aldeia estava sendo assolada por doenças, e nada podia ser feito. Foi, então, que ela pediu a Ossain que lhe desse algumas folhas e seus respectivos encantamentos, mas este se negou a fazê-lo. Oyá ficou muito contrariada, não se conformando com uma atitude tão insensível. Sua fúria incontrolável fez levantar o vento. E o vento foi tão forte, que as folhas se desprenderam das árvores, voando para todos os cantos da floresta. Ossain gritava: "Minhas folhas, minhas folhas". A cabaça com os segredos ficou exposta por algum tempo, possibilitando aos orixás a oportunidade de absorver uma pequena parte desse conhecimento. Assim, os orixás cataram suas folhas, que seriam utilizadas em seus rituais sagrados; porém, não podiam dispensar a ajuda de Ossain, pois ele sempre será o grande sábio da floresta.
Outra lenda nos conta que Ossain trabalhava na roça de Orunmilá, que é um orixá fun-fun (da cor branca) e detentor do conhecimento do oráculo divinatório. Ossain tinha a tarefa de cultivar os campos, mas recusava-se a limpar o terreno para fazer a semeadura. Ele não conseguia podar as plantas, pois achava utilidade em todas elas. Essas folhas podiam curar todo tipo de doença existente.
Orunmilá, vendo que o serviço não saía, foi ver o que estava acontecendo.
Ossain explicou seus motivos, fazendo com que o grande orixá fun-fun percebesse estar diante de um ser encantado e de grande conhecimento. Ao invés de castigá-lo, deu-lhe uma posição de destaque dentro do oráculo de Ifá. Dessa forma, Orunmilá teria, perto de si, alguém para lhe revelar os segredos das folhas.
LENDA DE XANGÔ
Xangô, quando viveu aqui na Terra, era um grande Obá (rei), muito temido e respeitado. Gostava de exibir sua bela figura, pois era um homem muito vaidoso. Conquistou, ao longo de sua vida, muitas esposas, que disputavam um lugar em seu coração.
Além disso, adorava mostrar seus poderes de feiticeiro, sempre experimentando sua força.
Em certa ocasião, Xangô estava no alto de uma montanha, testando seus poderes. Em altos brados, evocava os raios, desafiando essas forças poderosas. Sua voz era o próprio trovão, provocando um barulho ensurdecedor. Ninguém conseguia entender o que Xangô pretendia com essa atitude, ficando ali por muito tempo, impaciente por não obter resposta. De repente, o céu se iluminou e os raios começaram a aparecer. As pessoas ficaram impressionadas com a beleza daquele fenômeno, mas, ao mesmo tempo, estavam apavoradas, pois nunca tinham visto nada parecido.
Xangô, orgulhoso de seu extremo poder, ficou extasiado com o acontecimento. Não parava de proferir palavras de ordem, querendo que o espetáculo continuasse. Era realmente algo impressionante!
Foi, então, que, do alto de sua vaidade, viu a situação fugir ao seu controle. Tentou voltar atrás, implorando aos céus que os raios, que cortavam a Terra como poderosas lanças, desaparecessem. Mas era impossível - a natureza havia sido desafiada, desencadeando forças incontroláveis!
Xangô correu para sua aldeia, assustado com a destruição que provocara.
Quando chegou perto do palácio, viu o erro que cometera. A destruição era total e, para piorar a situação, todos os seus descendentes haviam morrido. Ao ver que o rei estava muito perturbado, seu próprio povo tentou consolá-lo com a promessa de reconstruir a cidade, fazendo tudo voltar ao que era antes. Xangô, sem dar ouvidos a ninguém, foi embora da cidade.
Ele não suportou tanta dor e injustiça, retirando-se para um lugar afastado, para acabar com sua vida. O rei enforcou-se numa gameleira.
Oyá, quando soube da morte de seu marido, chorou copiosamente, formando o rio Niger. Ela, que tinha conhecimento do reino dos eguns, foi até lá para trazer seu companheiro da morte, que veio envolto em panos brancos e com o rosto coberto por uma máscara de madeira, pois não podia ser reconhecido por Ikú, o Senhor da Morte. Xangô ressurge dos mortos, tornando-se um ser encantado. E foi assim que surgiu uma nova forma, ou qualidade, desse orixá, a qual chamamos Airá. Essa variação da essência de Xangô adotou, além do vermelho, a cor branca.
Outra lenda nos dá conta que Xangô, com sua irresistível aparência, atraía muitas mulheres. Era muito vistoso, com seus cabelos trançados e os enfeites de cobre em seu corpo. Possuía muitas esposas, como Obá e Oxun.
Oxun era a mais bela esposa de Xangô, muito mais vaidosa do que ele, dispensando grande parte de seu tempo para enfeitar-se e, assim, poder agradar seu amado.
Xangô apreciava muito sua companhia e o esforço que fazia para fazê-lo feliz.
Obá não tinha o mesmo tratamento, por isso, sentia-se rejeitada. Ela era muito possessiva em seus relacionamentos e não suportava mais essa situação.
Oxun havia percebido que Obá a invejava e queria roubar-lhe o companheiro. Muito faceira e com ares de superioridade, começou a contar vantagens para a rival, que fingia não se importar. Dizia que Xangô adorava um certo quitute preparado com um ingrediente muito especial: um pedaço de orelha.
Obá acreditou nela, pois, naquele momento, Oxun estava com um torço amarrado na cabeça. Embora parecesse estranho, devia ser tudo verdade, pois Xangô estava enfeitiçado por Oxun.
Juntando muita coragem e determinação, Obá cortou fora sua orelha para preparar o tal prato.
Xangô chegou bem na hora e viu o sangue que escorria da cabeça de Obá. Preocupado, quis saber o que havia acontecido com ela. Quando soube do acontecido, ficou enfurecido com Obá, por pensar em oferecer-lhe uma comida tão esquisita!
Percebendo a mentira de Oxun, saiu furiosa à sua procura para ajustarem contas.
Xangô separou as duas rivais, que se transformaram em rios. Obá foi embora desse reinado e nunca mais voltou.
LENDA DE OXUN
Conta a lenda que Oxalá, numa de suas caminhadas pelo mundo, iria passar pela aldeia de Oxun, onde pretendia parar e descansar.
Exú, mensageiro dos orixás, correu para avisar Oxun que o grande orixá fun-fun estava a caminho de sua cidade. Era preciso organizar uma grande recepção, pois a visita era muito importante para todos. Ela, então, apressou-se com os preparativos da festa, ordenando a limpeza de todas as casas e lugares públicos da aldeia, bem como que os enfeites utilizados fossem da cor branca. Oxun cuidou pessoalmente da ornamentação e limpeza de seu palácio, pois tudo tinha que estar perfeito, à altura de Oxalá.
Com tantos afazeres importantes, em tão curto espaço de tempo, Oxun não se lembrou de convidar as Iya-mi para a grande festa.
As feiticeiras não perdoaram essa desfeita. Sentindo-se muito desprestigiadas, resolveram desmoralizar Oxun perante os convidados.
No dia da chegada de Oxalá à cidade, Oxorongá entrou disfarçada no palácio para colocar, no assento do trono da Oxun, um preparado mágico, que não fora notado por ninguém.
Toda a cidade estava impecavelmente limpa e ornamentada. O palácio de Oxun, que fora caprichosamente preparado, tinha seus móveis e utensílios cobertos por tecidos de uma alvura imaculada. Branca também seria a cor das roupas utilizadas na cerimônia.
Oxalá finalmente chegou, sendo respeitosamente reverenciado numa grande demonstração de fé e admiração ao grande mensageiro da paz.
Oxun, sentada em seu trono, esperava com impaciência a entrada de Oxalá em seu palácio, quando iria oferecer-lhe seu próprio assento. Mas, ao tentar levantar-se, percebeu que estava presa em sua cadeira e, por mais força que fizesse, não conseguia soltar-se. O esforço que empreendeu foi tão grande, que, mesmo ferida, conseguiu ficar em pé, mas uma poça de sangue havia manchado suas roupas e também sua cadeira.
Quando Oxalá viu aquele sangue vermelho no trono em que se sentaria, ficou tão contrariado, que saiu imediatamente do recinto, sentindo-se muito ofendido.
Oxun, envergonhada com o acontecido, não conseguia entender porque havia ficado presa em sua própria cadeira, uma vez que ela mesma tinha cuidado de todos os preparativos.
Escondendo-se de todos, foi consultar o oráculo de Ifá para obter um conselho. O jogo, então, lhe revelou que Oxorongá havia colocado feitiço em seu assento, por não ter sido convidada.
Exú, a pedido de Oxun, foi em busca do grande pai, para relatar-lhe o ocorrido.
Oxalá retornou ao palácio, onde a grande mãe das águas estava sentada de cabeça baixa, muito constrangida. Quando ela o viu, começou a abanar seu abebe, transformando o sangue de suas roupas em penas vermelhas, que, ao voar, caíram sobre a cabeça de todos os que ali estavam inclusive a de Oxalá. Em reconhecimento ao esforço que ela empreendeu para homenageá-lo, ele aceitou aquela pena vermelha (ekodide), prostrando-se à sua frente, em sinal de agradecimento.
A partir de então, essa pena foi introduzida nos rituais de feitura do Candomblé.
LENDA DE LOGUN
No início dos tempos, cada orixá dominava um elemento da natureza, não permitindo que nada, nem ninguém, o invadisse. Guardavam sua sabedoria como a um tesouro.
É nesse contexto que vivia a mãe das água doces, Oxun, e o grande caçador Odé. Esses dois orixás constantemente discutiam sobre os limites de seus respectivos reinados, que eram muito próximos.
Odé ficava extremamente irritado quando o volume das águas aumentavam e transbordavam de seus recipientes naturais, fazendo alagar toda a floresta. Oxun argumentava, junto a ele, que sua água era necessária à irrigação e fertilização da terra, missão que recebera de Olorun. Odé não lhe dava ouvidos, dizendo que sua caça iria desaparecer com a inundação.
Olorun resolveu intervir nessa guerra, separando bruscamente esses reinados, para tentar apaziguá-los.
A floresta de Odé logo começou a sentir os efeitos da ausência das águas. A vegetação, que era exuberante, começou a secar, pois a terra não era mais fértil. Os animais não conseguiam encontrar comida e faltava água para beber. A mata estava morrendo e as caças tornavam-se cada vez mais raras. Odé não se desesperou, achando que poderia encontrar alimento em outro lugar.
Oxun, por sua vez, sentia-se muito só, sem a companhia das plantas e dos animais da floresta, mas também não se abalava, pois ainda podia contar com a companhia de seus filhos peixes para confortá-la.
Odé andou pelas matas e florestas da Terra, mas não conseguia encontrar caça em lugar algum. Em todos os lugares encontrava o mesmo cenário desolador. A floresta estava morrendo e ele não podia fazer nada.
Desesperado, foi até Olorun pedir ajuda para salvar seu reinado, que estava definhando. O maior sábio de todos explicou-lhe que a falta d’água estava matando a floresta, mas não poderia ajudá-lo, pois o que fez foi necessário para acabar com a guerra. A única salvação era a reconciliação.
Odé, então, colocou seu orgulho de lado e foi procurar Oxun, propondo a ela uma trégua. Como era de costume, ela não aceitou a proposta na primeira tentativa. Oxun queria que Odé se desculpasse, reconhecendo suas qualidades. Ele, então, compreendeu que seus reinos não poderiam sobreviver separados, unindo-se novamente, com a benção de Olorun.
Dessa união nasceu um novo orixá, um orixá príncipe, Logun-Edé, que iria consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais. Logun sempre ficou entre os dois, fixando-se nas margens das águas, onde havia uma vegetação abundante. Sua intervenção era importante para evitar as cheias, bem como a estiagem prolongada. Ele procurava manter o equilíbrio da natureza, agindo sempre da melhor maneira para estabelecer a paz e a fertilidade.
Conta uma outra lenda que as terras e as águas estavam no mesmo nível, não havendo limites definidos.
Logun, que transitava livremente por esses dois domínios, sempre tropeçava quando passava de um reinado para o outro. Esses acidentes deixavam Logun muito irritado.
Um dia, após ter ficado seis meses vivendo na água, tentou fazer a transição para o reinado de seu pai, mas não conseguiu, pois a terra estava muito escorregadia. Voltou, então, para o fundo do rio, onde começou a cavar freneticamente, com a intenção de suavizar a passagem da água para a terra.
Com essa escavação, machucou suas mãos, pés e cabeça, mas conseguiu fazer uma passagem, que tornou mais fácil sua transição. Logun criou, assim, as margens dos rios e córregos, onde passou a dominar. Por esse motivo, suas oferendas são bem aceitas nesse local.
LENDA DE OYÁ - YANSAN
Segundo a lenda, Oyá vivia feliz com Ogun, pois os dois tinham muitas coisas em comum, como o gosto pela guerra e o desejo de desbravar novos lugares. Gostavam da companhia um do outro, sentindo-se em harmonia. Com ele, que é conhecedor de todos os caminhos, Oyá aprendeu a andar pela Terra.
Gostava muito de vê-lo trabalhar, em seu oficio de ferreiro, tentando aprender como ele confeccionava suas armas e ferramentas. Oyá pedia insistentemente que lhe fizesse uma arma para guerrear.
Um dia, Ogun a surpreendeu, oferecendo-lhe uma espada curva, que era ideal para seu uso. Isso a agradou muito, tanto que, mais tarde, todo seu exército estava usando esse mesmo tipo de arma.
Mas Ogun não a levava em suas batalhas, deixando-a sozinha e entediada. Sem falar no tempo que gastava em seus afazeres de ferreiro. Oyá adorava a liberdade, mas, ao mesmo tempo, não dispensava uma boa companhia. Começou a sentir-se rejeitada por ele.
Foi nesse momento que Xangô, o grande rei, foi procurar Ogun, pois precisava de armas para seu exército. Ele era muito atraente e cuidadoso com sua aparência. Era impossível não notar sua presença.
Ogun, aceitando o pedido, começou a produzir armas para Xangô, que tinha muita urgência. Ficaria na aldeia o tempo necessário para o término do serviço.
Xangô também notou a presença de Oyá, sentindo uma grande atração por ela. Com seu jeito de ser, aproximou-se dela para trocar conhecimentos a respeito de suas habilidades. Descobriram, nessas conversas, que possuíam muitas afinidades, inclusive que não gostavam de viver isolados, assim como Ogun.
Oyá estava muito interessada em Xangô e em tudo o que estava aprendendo com ele, mas não queria magoar Ogun, a quem respeitava muito.
Xangô propôs-lhe uma união eterna, sem monotonia, sem solidão, viajando sempre juntos por toda a Terra. Seria uma união perfeita.
Quando Ogun terminou seu trabalho, os dois já haviam partido. Ele ficou enfurecido com a traição de ambos, mesmo sabendo que sua companheira não podia ficar cativa para sempre.
Partiu atrás deles para vingar sua desonra!
Oyá estava vindo ao seu encontro, para explicar-lhe que não poderia mais ficar com ele, pois Xangô a completava, mas que iria respeitá-lo sempre como grande orixá da guerra.
Ogun estava tão enfurecido, que não ouviu o que ela dizia, e foi com grande fúria que investiu contra ela, erguendo sua espada. Oyá, em defesa própria, também o atacou. Ela foi golpeada em nove partes do seu corpo, e Ogun em sete, formando curas. Esses números ficaram muito ligados a esses orixás, assim como as curas, que foram introduzidas nos rituais africanos.
LENDA DE YEMOJÁ
Yemojá, grande orixá das águas, era filha de Olokun, o senhor dos oceanos. Era possuidora de um grande instinto maternal, que fez dela mãe de dez filhos. Embora casada, não tinha grande apego por seu marido. Às vezes, pensava em deixá-lo, mas ele era um homem muito importante e poderoso, e não permitiria tal desonra. Yemojá também pensava no bem-estar de seus filhos, não podendo deixá-los desamparados.
Seu marido usava o poder com tirania, inclusive com sua família, tornando a vida dela insuportável. Ela não agüentava mais se submeter aos caprichos de um homem que ela desprezava.
Ela procurou seu pai para aconselhar-se sobre a atitude que deveria tomar. No fundo, ela já estava decidida a fugir, mas precisava de seu apoio. Olokun não a recriminou, pois ela era uma soberana e, como tal, não poderia aceitar o jugo de ninguém. Ele, então, deu à sua filha uma cabaça com encantamentos, para que ela usasse quando estivesse em perigo.
Yemojá colocou seu plano em prática, fugindo com todos os seus filhos.
Quando ela já estava bem longe de sua aldeia, viu que estava sendo perseguida pelo exército de seu marido. Pensou em enfrentá-los, mas eles eram muitos e seria uma luta desleal. Yemojá odeia os confrontos, pela destruição que causam, já que é um orixá propagador de vida.
Quando se sentiu acuada, resolveu abrir a cabaça e pedir socorro ao seu pai. Do seu interior escoou um líquido escuro, que, ao tocar o chão, imediatamente formou um rio, que corria em direção ao oceano.
Foi nessas águas que Yemojá e seu povo encontraram um caminho para a liberdade.
LENDA DE OBALUAYE – OMULU
Nanan, esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz!
Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria melhor para todos.
Yemonjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho.
Com seu grande instinto maternal, Yemojá dispensou a ele todo o carinho e os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar as chagas.
Obaluayê cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso, provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia imaginar o que se escondia sob aquelas palhas.
Oyá, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Obaluayê, sem lhe dar a menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida, resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar as palhas que o protegiam.
Quando a poeira assentou, Oyá pode ver um ser de uma beleza tão radiante, que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como orixá, conseguia erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério deveria continuar escondido.
Uma outra lenda nos mostra que esse poderoso orixá, em suas andanças pelo mundo, pode presenciar o desenrolar de muitas guerras. Os povos que Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as guerras não tinham mais fim. Obaluayê não entendia o motivo destas guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos.
As lutas traziam muita dor e destruição, e ninguém mais sabia dar o devido valor à vida humana. Os homens só pensavam em seus interesses materiais.
Obaluayê, indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é o maior tesouro que alguém pode ter.
O poderoso orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão, no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente. Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença.
De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram, inclusive os líderes dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras.
As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à beira da morte.
Um babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Obaluayê havia mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com coisas materiais. Desta vida nada se leva, a não ser o conhecimento e a experiência que acumulamos.
Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme explicou o babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e restabelecer sua dignidade. Mas, infelizmente, nem todos agiram assim.
Talvez, por isso, existam tantos povos africanos vivendo do mesmo jeito há milhares de anos, tentando não se desligar da natureza.
LENDAS DE OXUMARE
Oxumare, filho de Nana e Orixalá, recebeu de Olorun uma missão muito especial e importante para dar continuidade ao processo de criação e renovação da natureza. Sua tarefa consistia em carregar, dentro de suas cabaças, toda água da Terra de volta para o céu. Era uma tarefa árdua e interminável, pois, nem bem ele enchia as nuvens, a água já começava a escorrer, molhando tudo novamente.
Ele não tinha tempo a perder, mas, numa dessas viagens, parou para olhar a Terra e viu um imenso lugar, onde tudo era extraído da lama. Estava faltando alguma coisa para dar mais alegria ao lugar.
O próprio Oxumare já tinha colocado em movimento todos os seres criados, como Olorun havia ordenado, mas ainda não bastava, tudo parecia muito igual e sem vibração.
Ele resolveu, então, pedir a Deus que o ajudasse a encontrar uma maneira de trazer mais felicidade para a Terra, e Olorun concedeu a ele a realização desse desejo.
Quando estava carregando água, sem querer, deixou cair algumas gotas pelo caminho. De repente, formou-se um arco colorido, de uma beleza incrível.
Aquele arco mostrava as cores do universo, e, através dele e de suas infinitas combinações, Oxumare poderia colorir toda a Terra com diversos matizes, tornando-a mais alegre e vibrante.
A partir de então, formou-se uma aliança entre Deus (Olorun) e os seres criados, que sempre poderia ser vista quando as águas do céu encontrassem a luz do sol.
O arco-íris tornou-se, também, símbolo desse Orixá, que gosta de movimento e harmonia em todas as coisas.
LENDA DE NANA
Olorun enviou Nana e Oxalá para viverem na Terra e criarem a humanidade. Os dois foram dotados de grandes poderes para desempenharem essa tarefa, mas somente Nana tinha o domínio do reinado dos eguns, e guardava esses segredos, bem como o da geração da vida, em sua cabaça.
Oxalá não se conformava com esta situação, queria poder compartilhar desses segredos. Tentava agradar sua companheira com oferendas para convencê-la a revelar seu conhecimento.
Nana, sentindo-se feliz com as atitudes de Oxalá, decide mostrar-lhe egun, mas apenas ela era reconhecida nesse reinado.
Certa vez, enquanto Nana trabalhava com a lama, Oxalá, disfarçando-se com as roupas dela, foi visitar egun, sem lhe pedir autorização.
Quando Nana, sentiu a falta de Oxalá e de sua própria vestimenta, teve certeza de que ele havia invadido o seu reinado, atraiçoando-a gravemente. Enfurecida com a descoberta, resolveu fechar a passagem do mundo proibido, deixando Oxalá preso.
Enquanto isso, Oxalá caminhava no reinado de Nana, tentando descobrir seus mistérios, mas apenas ela conseguia comunicar-se com os eguns.
Egun, sempre envolto em seus panos coloridos, não tinha rosto, nem voz. Oxalá, usando um pedaço de carvão, criou um rosto para ele, como já havia feito com os seres humanos, e, com seu sopro divino, abriu-lhe a fala. Assim, ele conseguiu desvendar os segredos que tanto queria, mas, quando se deu conta, viu que não conseguia achar a saída.
Nana não sabia o que fazer, por isso fechou a passagem para mantê-lo preso até encontrar uma forma de castigá-lo. Contou a Olorun sobre a traição de Oxalá, que não aprovou a atitude de ambos. Nana errou ao revelar a Oxalá os segredos que o próprio Olorun lhe confiara. Para castigá-la, tomou o seu reinado e o entregou a Oxalá, pois ele desempenhara melhor a tarefa de zelar pelo eguns. Oxalá também foi castigado, pois invadiu o domínio de um outro orixá. Daquele dia em diante, Oxalá seria obrigado a usar as roupas brancas de Nana, cobrindo o seu rosto com um chorão, que somente as iyabás usam.
LENDA DE OXOLUFON - OXALÁ (A CRIAÇÃO DA TERRA)
Olorun, Deus supremo, criou um ser, a partir do ar (que havia no início dos tempos) e das primeiras águas. Esse ser encantado, que era todo branco e muito poderoso, foi chamado Oxalá. Logo em seguida, criou um outro orixá que possuía o mesmo poder do primeiro, dando-lhe o nome de Nanan. Os dois nasceram da vontade de Olorun de criar o universo.
Oxalá passou a representar a essência masculina de todos os seres, tornando-se o lado direito de Olorun. Nanan, por sua vez, teria a essência feminina, e representaria o lado esquerdo. Outros orixás também foram criados, formando-se um verdadeiro exército a serviço de Olorun, cada um com uma função determinada para executar os planos divinos.
Exú foi o terceiro elemento criado, para ser o elo de ligação entre todos os orixás, e deles com Olorun. Tornou-se costume prestar-lhe homenagens antes de qualquer outro, pois é ele quem leva as mensagens e carrega os ebós.
Olorun confiou à Oxalá a missão de criar a Terra, investindo-o de toda a sabedoria e poderes necessários para o sucesso dessa importante tarefa. Deu a ele uma cabaça contendo todo axé que seria utilizado.
Oxalá, orgulhoso por ter recebido tamanha honraria, achou desnecessário fazer as oferendas a Exú.
Exú, vendo que Oxalá partira sem lhe fazer as oferendas, previu que a missão não seria cumprida, pois, mesmo com a cabaça e toda a força do mundo, sem a sua ajuda não conseguiria chegar ao local indicado por Olorun.
A caminhada era longa e difícil, e Oxalá começou a sentir sede, mas, devido à importância de sua missão, não podia se dar ao luxo de parar para beber água. Não aceitou nada do que lhe foi oferecido, nem mesmo quando passou perto de um rio interrompeu a sua jornada. Mais à frente, encontrou uma aldeia, onde lhe ofereceram leite de cabra para saciar sua sede, que também foi recusado.
Todos os caminhos pareciam iguais e, depois de andar por muito tempo, sentiu-se perdido. De repente, ele avistou uma palmeira muito frondosa, logo à sua frente, Oxalá, já delirando de tanta sede, atingiu o tronco da palmeira com seu cajado, sorvendo todo o líquido que saía de suas entranhas (era vinho de palma). Embriagado pela bebida, desmaiou ali mesmo, ficando desacordado por muito tempo.
Exú avisou Nanan que Oxalá não havia feito as oferendas propiciatórias, por isso não terminaria sua tarefa. Ela, agindo por contra própria, resolveu consultar um babalawô para realizar devidamente as oferendas. O sacerdote enumerou uma série de coisas que ela deveria oferecer, entre elas um camaleão, uma pomba, uma galinha com cinco dedos e uma corrente com nove elos. Exú aceitou tudo, mas só ficou com a corrente, devolvendo o restante à Nanan, pois ela iria precisar mais tarde. Outros sacrifícios foram realizados, até que Olorun a chamou para procurar Oxalá, que havia esquecido o saco da criação com o qual criaria a Terra. Nanan, após terminar suas oferendas, foi atrás de Oxalá, encontrando-o desacordado próximo ao local onde deveria chegar.
Ao saber que Oxalá havia falhado em sua missão, Olorun ordenou que a própria Nanan prosseguisse naquela tarefa com a ajuda de todos os orixás. E assim foi feito. Nanan pegou o saco da criação e o entregou à pomba, para que voasse em círculo. A galinha com cinco dedos foi solta, para espalhar aquela imensa quantidade de terra, e, finalmente, o camaleão arrastou-se vagarosamente, para compactá-la e torná-la firme.
Quando Oxalá acordou, viu que a Terra já havia sido criada, e não o fora por ele. Desesperado, correu até Olorun, que o advertiu duramente por não ter reverenciado Exú antes de partir, julgando-se superior a ele. Oxalá, arrependido, implorou perdão. Olorun, sempre magnânimo, deu-lhe uma nova e importantíssima tarefa, que seria a de criar todos os seres que habitariam a Terra. Desta vez ele não poderia falhar!.
Usando a mesma lama que criou a Terra, Oxalá modelou todos os seres, e, insuflando-lhes seu hálito sagrado, deu-lhes a vida.
Desta forma, Nanan e Oxalá desempenharam tarefas igualmente importantes, juntamente com a valiosa ajuda de todos os orixás, que possibilitaram o surgimento deste novo e maravilhoso mundo em que vivemos...
Muita gente acredita que os orixás são seres inferiores, perversos e de pouca luz. Ou, então, chegam a defini-los como criaturas demoníacas, com grande poder de destruição, usados somente para o mal. Mas, então, o que realmente são os orixás?
Para nós, os orixás são seres divinos criados por Olorun, nosso Deus único, que o auxiliaram na criação do universo e de todos os seus componentes. A partir daí, eles ganharam a função de intermediários entre o criador e a criatura. É através deles que podemos tentar chegar um pouco mais perto de Deus, se isso não for muita pretensão para nós, meros mortais.
Segundo os yorubás, os orixás são os donos da nossa cabeça, ou "ori", e nossos protetores individuais. Eles estão sempre tentando nos transmitir seus conhecimentos, que, muitas vezes, passam despercebidos pela nossa razão, mas não pelos nossos sentidos. Infelizmente, não damos a devida importância a esse fato, achando que são "coisas da nossa imaginação". Segundo acreditamos, houve uma grande ruptura entre os seres humanos e os orixás, que antes viviam lado a lado, cada um podendo visitar o mundo um do outro; ou seja, a Terra (aiye) e o céu (orun), estavam ligados entre si, não existindo barreiras. Algumas lendas do Candomblé contam que tudo corria muito bem, até um ser humano desrespeitar a ordem estabelecida por Olorun. Seu erro foi adentrar em um local proibido, maculando-o com a sujeira da Terra. Isso não foi perdoado, e a separação tornou-se inevitável. Assim, Oxalá soprou o seu hálito divino sobre a Terra, criando o ar atmosférico, que seria daí em diante, a barreira entre esses dois mundos. Desde então, os seres humanos vivem tentando alcançar o céu e seus seres encantados, sem obter resultado.
Nós, através do Candomblé, conseguimos restabelecer essa ligação com o orun, e temos o poder de presenciar claramente a manifestação da centelha divina em nosso interior, que é a experiência mais maravilhosa que alguém pode experimentar. A esse conjunto de mecanismos criados pelos seres humanos para tentar chegar mais perto do criador e reatar, assim, a comunicação interrompida no passado, é a melhor definição para a palavra religião.
Há varias formas de um mesmo orixá, isto é, existem vários tipos diferentes provenientes de uma mesma origem divina. A esse fenômeno damos o nome de qualidades. Tomemos o exemplo do orixá Oxun, que reina nas águas doces. Ele irá subdividir-se em várias formas ou qualidades, como: Pondá, Opará, Kare, Topé, etc. Todas essas qualidades têm a mesma essência, mas diferem entre si em muitas coisas, inclusive no que diz respeito a seus fundamentos e rituais. Esse tema é muito complexo, gerando dúvidas até mesmo entre os babalorixás.
Por isso, para podermos detectar o orixá de uma pessoa, assim como sua forma ou qualidade, é preciso consultar o oráculo de Ifá, ou jogo de búzios. Não existe outro meio mais seguro e eficaz.
Através dos búzios, um bom sacerdote será capaz de identificar, o orixá ao qual a pessoa pertence, e também verificar se há, realmente, a necessidade de se fazer a iniciação. Caso isso seja inevitável, a pessoa em questão deverá passar por vários preceitos de confirmação até o dia da feitura. É fundamental que não haja erros de espécie alguma, pois é com a vida de um ser humano que estamos lidando.
Quando o babalorixá identifica o orixá de alguém, terá, necessariamente de levantar todos os detalhes que estão ligados a ele, como a família ao qual pertence, as oferendas de que gosta o tipo de comida que mais lhe agrada, seus lugares de ebós, rezas, cantigas, etc. É, também, muito importante saber sobre o elemento da natureza que ele habita e domina, bem como a função que desempenha dentro do universo.
Os orixás podem ser evocados através de rezas (aduras), cantigas especiais (orikis), ou pelo seu nome dentro do plantel dos orixás (morunko). Cada um deles tem suas cores predominantes, que derivam das três cores básicas do universo, que, segundo os yorubas, são o vermelho, o preto e o branco. As roupas rituais de cada orixá, além de todos os adereços e ferramentas que lhe são peculiares, também exibirão essas cores. As comidas também são indispensáveis nas oferendas, variando muito de orixá para orixá.
Existem infinitas lendas a respeito dos orixás, que foram transmitidas de geração em geração, seguindo a tradição oral. Nelas encontramos casos de casamentos entre orixás como, por exemplo, o de Xangô com Iansã. Na realidade, o que essas lendas querem mostrar, através de uma linguagem simples e inteligível, é que esses casamentos representam uniões entre dois ou mais elementos da natureza. Não podemos atribuir aos orixás características e sentimentos humanos.
LENDA DE EXÚ
Exu sempre foi o mais alegre e comunicativo de todos os orixás. Olorun, quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de comunicador e elemento de ligação entre tudo o que existe. Por isso, nas festas que se realizavam no orun (céu), ele tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a todos.
Sempre foi assim, até que um dia os orixás acharam que os sons dos tambores e dos cânticos estavam muito altos, e que não ficava bem tanta agitação.
Então, eles pediram a Exu, que parasse com aquela atividade barulhenta, para que a paz voltasse a reinar.
Assim foi feito, e Exu nunca mais tocou seus tambores, respeitando a vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os orixás começaram a sentir falta da alegria que a música trazia. As cerimônias ficavam muito mais bonitas ao som dos tambores.
Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Exu que voltasse a animar as festas, pois elas estavam muito sem vida.
Exu negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido quando sua animação fora censurada, mas prometeu que daria essa função para a primeira pessoa que encontrasse.
Logo apareceu um homem, de nome Ogan. Exu confiou-lhe a missão de tocar tambores e entoar cânticos para animar todas as festividades dos orixás. E, daquele dia em diante, os homens que exercessem esse cargo seriam respeitados como verdadeiros pais e denominados Ogans.
LENDA DE OGUN
Ogum vivia em sua aldeia, quando foi requisitado para uma guerra, que não tinha data para acabar. Antes de partir, ele exigiu que seus habitantes dedicassem um dia em sua homenagem, fazendo o sacrifício de jejuar e fazer silêncio absoluto, além de outras oferendas.
Partiu, em sua longa jornada, para os campos de batalha, onde permaneceu sete anos. No regresso à sua aldeia, caminhou durante muitos dias, sentindo muito cansaço. A fome e a sede também o atormentavam. Na primeira casa que encontrou pediu água e comida, mas ninguém o atendeu, permanecendo calados e de olhos fixos no chão.
Resolveu, então, fazer outra tentativa na próxima casa, mas a cena foi à mesma, o que despertou sua ira. Ele esbravejou com os moradores, exigindo que falassem com ele, mas ninguém o fez.
Não se conformava com tamanha falta de respeito, depois de ter lutado tanto!
Ogum esperava uma recepção calorosa em sua própria aldeia, mas, ao contrário, só encontrou silêncio.
À medida que avançava pelo interior da cidade, a mesma coisa se repetia casa após casa. Ogum nem imaginava o que estava acontecendo. Perguntava e não recebia resposta.
Sua ira já estava incontrolável, quando chegou ao centro do povoado, onde haviam muitas pessoas. Estranhou o fato de ninguém estar conversando. Perguntou a eles onde estavam suas famílias, mas não obteve resposta. Era uma afronta!
Foi assim que, evocando todos os seus poderes, Ogum dizimou sua própria aldeia.
Caçadores que passavam pela cidade, entre eles seu filho, o reconheceram e tentaram aproximar-se. Vendo que sua cólera era imensa, resolveram evocar Exu para acalmá-lo.
A ira desse orixá finalmente foi aplacada. Seu filho, indignado ao ver tanta destruição, indagou o motivo que levou seu pai a cometer tal atrocidade. Ogum respondeu que aquelas pessoas lhe faltaram com respeito quando não o reconheceram. Precisavam de um castigo.
Foi, então, que seu filho fez-lhe lembrar da exigência que fizera antes de partir para a guerra.
Ogum, tomado pelo remorso, devido à sua crueldade com pessoas que só estavam obedecendo a ordens, abriu o chão com sua espada enterrando-se de pé.
LENDA DE ODÉ
Na cidade de Ifé, realizavam-se festividades e rituais por ocasião das colheitas. Os sacerdotes da aldeia, fugindo aos seus costumes, não realizavam as oferendas obrigatórias para três das maiores bruxas conhecidas: as Iya-mi Oxorongás. Esse ato imperdoável precisava de uma boa punição. Foi assim que elas enviaram um enorme pássaro para assombrar aquela aldeia.
A ave ficou pousada no telhado do palácio, de onde podia avistar toda a cidade.
Um clima de medo e mau agouro espalhou-se entre os moradores, que não sabiam o que fazer para acabar com aquele terrível monstro.
Oferendas foram realizadas para as Oxorongás, mas sem resultado. Era tarde demais para isso.
Foi então que alguns caçadores se apresentaram para matar o pássaro das bruxas, mas foram todos derrotados. O último caçador possuía apenas uma flecha, e era a última esperança de livrar a aldeia da morte. Esse caçador era Odé.
Sua mãe, que estava longe daquele lugar, teve um mau presságio com relação a ele. Consultando um babalawô, teve a confirmação do que já sabia: seu filho corria grande perigo.
Foram necessárias muitas oferendas para que a missão de Odé fosse executada com perfeição e, graças a isso, Odé pôde matar o pássaro com sua única flecha, livrando sua aldeia da aniquilação. Desde então, vem sendo venerado por esse povo.
LENDA DE OSSAIN
Ossain era o único orixá que sabia reconhecer e despertar os poderes mágicos das plantas e usá-los para curar as enfermidades, ou nos rituais litúrgicos. Ele sabia como ninguém, fazer misturas mágicas com os vegetais, raízes e folhas.
Os outros orixás também tinham o desejo de possuir suas próprias folhas, bem como o conhecimento necessário para receber o axé proveniente delas, mas Ossain não revelava seus segredos e não deixava ninguém apanhar folhas em suas florestas.
Oyá (Yassan) não aceitava essa situação, pois sua aldeia estava sendo assolada por doenças, e nada podia ser feito. Foi, então, que ela pediu a Ossain que lhe desse algumas folhas e seus respectivos encantamentos, mas este se negou a fazê-lo. Oyá ficou muito contrariada, não se conformando com uma atitude tão insensível. Sua fúria incontrolável fez levantar o vento. E o vento foi tão forte, que as folhas se desprenderam das árvores, voando para todos os cantos da floresta. Ossain gritava: "Minhas folhas, minhas folhas". A cabaça com os segredos ficou exposta por algum tempo, possibilitando aos orixás a oportunidade de absorver uma pequena parte desse conhecimento. Assim, os orixás cataram suas folhas, que seriam utilizadas em seus rituais sagrados; porém, não podiam dispensar a ajuda de Ossain, pois ele sempre será o grande sábio da floresta.
Outra lenda nos conta que Ossain trabalhava na roça de Orunmilá, que é um orixá fun-fun (da cor branca) e detentor do conhecimento do oráculo divinatório. Ossain tinha a tarefa de cultivar os campos, mas recusava-se a limpar o terreno para fazer a semeadura. Ele não conseguia podar as plantas, pois achava utilidade em todas elas. Essas folhas podiam curar todo tipo de doença existente.
Orunmilá, vendo que o serviço não saía, foi ver o que estava acontecendo.
Ossain explicou seus motivos, fazendo com que o grande orixá fun-fun percebesse estar diante de um ser encantado e de grande conhecimento. Ao invés de castigá-lo, deu-lhe uma posição de destaque dentro do oráculo de Ifá. Dessa forma, Orunmilá teria, perto de si, alguém para lhe revelar os segredos das folhas.
LENDA DE XANGÔ
Xangô, quando viveu aqui na Terra, era um grande Obá (rei), muito temido e respeitado. Gostava de exibir sua bela figura, pois era um homem muito vaidoso. Conquistou, ao longo de sua vida, muitas esposas, que disputavam um lugar em seu coração.
Além disso, adorava mostrar seus poderes de feiticeiro, sempre experimentando sua força.
Em certa ocasião, Xangô estava no alto de uma montanha, testando seus poderes. Em altos brados, evocava os raios, desafiando essas forças poderosas. Sua voz era o próprio trovão, provocando um barulho ensurdecedor. Ninguém conseguia entender o que Xangô pretendia com essa atitude, ficando ali por muito tempo, impaciente por não obter resposta. De repente, o céu se iluminou e os raios começaram a aparecer. As pessoas ficaram impressionadas com a beleza daquele fenômeno, mas, ao mesmo tempo, estavam apavoradas, pois nunca tinham visto nada parecido.
Xangô, orgulhoso de seu extremo poder, ficou extasiado com o acontecimento. Não parava de proferir palavras de ordem, querendo que o espetáculo continuasse. Era realmente algo impressionante!
Foi, então, que, do alto de sua vaidade, viu a situação fugir ao seu controle. Tentou voltar atrás, implorando aos céus que os raios, que cortavam a Terra como poderosas lanças, desaparecessem. Mas era impossível - a natureza havia sido desafiada, desencadeando forças incontroláveis!
Xangô correu para sua aldeia, assustado com a destruição que provocara.
Quando chegou perto do palácio, viu o erro que cometera. A destruição era total e, para piorar a situação, todos os seus descendentes haviam morrido. Ao ver que o rei estava muito perturbado, seu próprio povo tentou consolá-lo com a promessa de reconstruir a cidade, fazendo tudo voltar ao que era antes. Xangô, sem dar ouvidos a ninguém, foi embora da cidade.
Ele não suportou tanta dor e injustiça, retirando-se para um lugar afastado, para acabar com sua vida. O rei enforcou-se numa gameleira.
Oyá, quando soube da morte de seu marido, chorou copiosamente, formando o rio Niger. Ela, que tinha conhecimento do reino dos eguns, foi até lá para trazer seu companheiro da morte, que veio envolto em panos brancos e com o rosto coberto por uma máscara de madeira, pois não podia ser reconhecido por Ikú, o Senhor da Morte. Xangô ressurge dos mortos, tornando-se um ser encantado. E foi assim que surgiu uma nova forma, ou qualidade, desse orixá, a qual chamamos Airá. Essa variação da essência de Xangô adotou, além do vermelho, a cor branca.
Outra lenda nos dá conta que Xangô, com sua irresistível aparência, atraía muitas mulheres. Era muito vistoso, com seus cabelos trançados e os enfeites de cobre em seu corpo. Possuía muitas esposas, como Obá e Oxun.
Oxun era a mais bela esposa de Xangô, muito mais vaidosa do que ele, dispensando grande parte de seu tempo para enfeitar-se e, assim, poder agradar seu amado.
Xangô apreciava muito sua companhia e o esforço que fazia para fazê-lo feliz.
Obá não tinha o mesmo tratamento, por isso, sentia-se rejeitada. Ela era muito possessiva em seus relacionamentos e não suportava mais essa situação.
Oxun havia percebido que Obá a invejava e queria roubar-lhe o companheiro. Muito faceira e com ares de superioridade, começou a contar vantagens para a rival, que fingia não se importar. Dizia que Xangô adorava um certo quitute preparado com um ingrediente muito especial: um pedaço de orelha.
Obá acreditou nela, pois, naquele momento, Oxun estava com um torço amarrado na cabeça. Embora parecesse estranho, devia ser tudo verdade, pois Xangô estava enfeitiçado por Oxun.
Juntando muita coragem e determinação, Obá cortou fora sua orelha para preparar o tal prato.
Xangô chegou bem na hora e viu o sangue que escorria da cabeça de Obá. Preocupado, quis saber o que havia acontecido com ela. Quando soube do acontecido, ficou enfurecido com Obá, por pensar em oferecer-lhe uma comida tão esquisita!
Percebendo a mentira de Oxun, saiu furiosa à sua procura para ajustarem contas.
Xangô separou as duas rivais, que se transformaram em rios. Obá foi embora desse reinado e nunca mais voltou.
LENDA DE OXUN
Conta a lenda que Oxalá, numa de suas caminhadas pelo mundo, iria passar pela aldeia de Oxun, onde pretendia parar e descansar.
Exú, mensageiro dos orixás, correu para avisar Oxun que o grande orixá fun-fun estava a caminho de sua cidade. Era preciso organizar uma grande recepção, pois a visita era muito importante para todos. Ela, então, apressou-se com os preparativos da festa, ordenando a limpeza de todas as casas e lugares públicos da aldeia, bem como que os enfeites utilizados fossem da cor branca. Oxun cuidou pessoalmente da ornamentação e limpeza de seu palácio, pois tudo tinha que estar perfeito, à altura de Oxalá.
Com tantos afazeres importantes, em tão curto espaço de tempo, Oxun não se lembrou de convidar as Iya-mi para a grande festa.
As feiticeiras não perdoaram essa desfeita. Sentindo-se muito desprestigiadas, resolveram desmoralizar Oxun perante os convidados.
No dia da chegada de Oxalá à cidade, Oxorongá entrou disfarçada no palácio para colocar, no assento do trono da Oxun, um preparado mágico, que não fora notado por ninguém.
Toda a cidade estava impecavelmente limpa e ornamentada. O palácio de Oxun, que fora caprichosamente preparado, tinha seus móveis e utensílios cobertos por tecidos de uma alvura imaculada. Branca também seria a cor das roupas utilizadas na cerimônia.
Oxalá finalmente chegou, sendo respeitosamente reverenciado numa grande demonstração de fé e admiração ao grande mensageiro da paz.
Oxun, sentada em seu trono, esperava com impaciência a entrada de Oxalá em seu palácio, quando iria oferecer-lhe seu próprio assento. Mas, ao tentar levantar-se, percebeu que estava presa em sua cadeira e, por mais força que fizesse, não conseguia soltar-se. O esforço que empreendeu foi tão grande, que, mesmo ferida, conseguiu ficar em pé, mas uma poça de sangue havia manchado suas roupas e também sua cadeira.
Quando Oxalá viu aquele sangue vermelho no trono em que se sentaria, ficou tão contrariado, que saiu imediatamente do recinto, sentindo-se muito ofendido.
Oxun, envergonhada com o acontecido, não conseguia entender porque havia ficado presa em sua própria cadeira, uma vez que ela mesma tinha cuidado de todos os preparativos.
Escondendo-se de todos, foi consultar o oráculo de Ifá para obter um conselho. O jogo, então, lhe revelou que Oxorongá havia colocado feitiço em seu assento, por não ter sido convidada.
Exú, a pedido de Oxun, foi em busca do grande pai, para relatar-lhe o ocorrido.
Oxalá retornou ao palácio, onde a grande mãe das águas estava sentada de cabeça baixa, muito constrangida. Quando ela o viu, começou a abanar seu abebe, transformando o sangue de suas roupas em penas vermelhas, que, ao voar, caíram sobre a cabeça de todos os que ali estavam inclusive a de Oxalá. Em reconhecimento ao esforço que ela empreendeu para homenageá-lo, ele aceitou aquela pena vermelha (ekodide), prostrando-se à sua frente, em sinal de agradecimento.
A partir de então, essa pena foi introduzida nos rituais de feitura do Candomblé.
LENDA DE LOGUN
No início dos tempos, cada orixá dominava um elemento da natureza, não permitindo que nada, nem ninguém, o invadisse. Guardavam sua sabedoria como a um tesouro.
É nesse contexto que vivia a mãe das água doces, Oxun, e o grande caçador Odé. Esses dois orixás constantemente discutiam sobre os limites de seus respectivos reinados, que eram muito próximos.
Odé ficava extremamente irritado quando o volume das águas aumentavam e transbordavam de seus recipientes naturais, fazendo alagar toda a floresta. Oxun argumentava, junto a ele, que sua água era necessária à irrigação e fertilização da terra, missão que recebera de Olorun. Odé não lhe dava ouvidos, dizendo que sua caça iria desaparecer com a inundação.
Olorun resolveu intervir nessa guerra, separando bruscamente esses reinados, para tentar apaziguá-los.
A floresta de Odé logo começou a sentir os efeitos da ausência das águas. A vegetação, que era exuberante, começou a secar, pois a terra não era mais fértil. Os animais não conseguiam encontrar comida e faltava água para beber. A mata estava morrendo e as caças tornavam-se cada vez mais raras. Odé não se desesperou, achando que poderia encontrar alimento em outro lugar.
Oxun, por sua vez, sentia-se muito só, sem a companhia das plantas e dos animais da floresta, mas também não se abalava, pois ainda podia contar com a companhia de seus filhos peixes para confortá-la.
Odé andou pelas matas e florestas da Terra, mas não conseguia encontrar caça em lugar algum. Em todos os lugares encontrava o mesmo cenário desolador. A floresta estava morrendo e ele não podia fazer nada.
Desesperado, foi até Olorun pedir ajuda para salvar seu reinado, que estava definhando. O maior sábio de todos explicou-lhe que a falta d’água estava matando a floresta, mas não poderia ajudá-lo, pois o que fez foi necessário para acabar com a guerra. A única salvação era a reconciliação.
Odé, então, colocou seu orgulho de lado e foi procurar Oxun, propondo a ela uma trégua. Como era de costume, ela não aceitou a proposta na primeira tentativa. Oxun queria que Odé se desculpasse, reconhecendo suas qualidades. Ele, então, compreendeu que seus reinos não poderiam sobreviver separados, unindo-se novamente, com a benção de Olorun.
Dessa união nasceu um novo orixá, um orixá príncipe, Logun-Edé, que iria consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais. Logun sempre ficou entre os dois, fixando-se nas margens das águas, onde havia uma vegetação abundante. Sua intervenção era importante para evitar as cheias, bem como a estiagem prolongada. Ele procurava manter o equilíbrio da natureza, agindo sempre da melhor maneira para estabelecer a paz e a fertilidade.
Conta uma outra lenda que as terras e as águas estavam no mesmo nível, não havendo limites definidos.
Logun, que transitava livremente por esses dois domínios, sempre tropeçava quando passava de um reinado para o outro. Esses acidentes deixavam Logun muito irritado.
Um dia, após ter ficado seis meses vivendo na água, tentou fazer a transição para o reinado de seu pai, mas não conseguiu, pois a terra estava muito escorregadia. Voltou, então, para o fundo do rio, onde começou a cavar freneticamente, com a intenção de suavizar a passagem da água para a terra.
Com essa escavação, machucou suas mãos, pés e cabeça, mas conseguiu fazer uma passagem, que tornou mais fácil sua transição. Logun criou, assim, as margens dos rios e córregos, onde passou a dominar. Por esse motivo, suas oferendas são bem aceitas nesse local.
LENDA DE OYÁ - YANSAN
Segundo a lenda, Oyá vivia feliz com Ogun, pois os dois tinham muitas coisas em comum, como o gosto pela guerra e o desejo de desbravar novos lugares. Gostavam da companhia um do outro, sentindo-se em harmonia. Com ele, que é conhecedor de todos os caminhos, Oyá aprendeu a andar pela Terra.
Gostava muito de vê-lo trabalhar, em seu oficio de ferreiro, tentando aprender como ele confeccionava suas armas e ferramentas. Oyá pedia insistentemente que lhe fizesse uma arma para guerrear.
Um dia, Ogun a surpreendeu, oferecendo-lhe uma espada curva, que era ideal para seu uso. Isso a agradou muito, tanto que, mais tarde, todo seu exército estava usando esse mesmo tipo de arma.
Mas Ogun não a levava em suas batalhas, deixando-a sozinha e entediada. Sem falar no tempo que gastava em seus afazeres de ferreiro. Oyá adorava a liberdade, mas, ao mesmo tempo, não dispensava uma boa companhia. Começou a sentir-se rejeitada por ele.
Foi nesse momento que Xangô, o grande rei, foi procurar Ogun, pois precisava de armas para seu exército. Ele era muito atraente e cuidadoso com sua aparência. Era impossível não notar sua presença.
Ogun, aceitando o pedido, começou a produzir armas para Xangô, que tinha muita urgência. Ficaria na aldeia o tempo necessário para o término do serviço.
Xangô também notou a presença de Oyá, sentindo uma grande atração por ela. Com seu jeito de ser, aproximou-se dela para trocar conhecimentos a respeito de suas habilidades. Descobriram, nessas conversas, que possuíam muitas afinidades, inclusive que não gostavam de viver isolados, assim como Ogun.
Oyá estava muito interessada em Xangô e em tudo o que estava aprendendo com ele, mas não queria magoar Ogun, a quem respeitava muito.
Xangô propôs-lhe uma união eterna, sem monotonia, sem solidão, viajando sempre juntos por toda a Terra. Seria uma união perfeita.
Quando Ogun terminou seu trabalho, os dois já haviam partido. Ele ficou enfurecido com a traição de ambos, mesmo sabendo que sua companheira não podia ficar cativa para sempre.
Partiu atrás deles para vingar sua desonra!
Oyá estava vindo ao seu encontro, para explicar-lhe que não poderia mais ficar com ele, pois Xangô a completava, mas que iria respeitá-lo sempre como grande orixá da guerra.
Ogun estava tão enfurecido, que não ouviu o que ela dizia, e foi com grande fúria que investiu contra ela, erguendo sua espada. Oyá, em defesa própria, também o atacou. Ela foi golpeada em nove partes do seu corpo, e Ogun em sete, formando curas. Esses números ficaram muito ligados a esses orixás, assim como as curas, que foram introduzidas nos rituais africanos.
LENDA DE YEMOJÁ
Yemojá, grande orixá das águas, era filha de Olokun, o senhor dos oceanos. Era possuidora de um grande instinto maternal, que fez dela mãe de dez filhos. Embora casada, não tinha grande apego por seu marido. Às vezes, pensava em deixá-lo, mas ele era um homem muito importante e poderoso, e não permitiria tal desonra. Yemojá também pensava no bem-estar de seus filhos, não podendo deixá-los desamparados.
Seu marido usava o poder com tirania, inclusive com sua família, tornando a vida dela insuportável. Ela não agüentava mais se submeter aos caprichos de um homem que ela desprezava.
Ela procurou seu pai para aconselhar-se sobre a atitude que deveria tomar. No fundo, ela já estava decidida a fugir, mas precisava de seu apoio. Olokun não a recriminou, pois ela era uma soberana e, como tal, não poderia aceitar o jugo de ninguém. Ele, então, deu à sua filha uma cabaça com encantamentos, para que ela usasse quando estivesse em perigo.
Yemojá colocou seu plano em prática, fugindo com todos os seus filhos.
Quando ela já estava bem longe de sua aldeia, viu que estava sendo perseguida pelo exército de seu marido. Pensou em enfrentá-los, mas eles eram muitos e seria uma luta desleal. Yemojá odeia os confrontos, pela destruição que causam, já que é um orixá propagador de vida.
Quando se sentiu acuada, resolveu abrir a cabaça e pedir socorro ao seu pai. Do seu interior escoou um líquido escuro, que, ao tocar o chão, imediatamente formou um rio, que corria em direção ao oceano.
Foi nessas águas que Yemojá e seu povo encontraram um caminho para a liberdade.
LENDA DE OBALUAYE – OMULU
Nanan, esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz!
Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria melhor para todos.
Yemonjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho.
Com seu grande instinto maternal, Yemojá dispensou a ele todo o carinho e os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar as chagas.
Obaluayê cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso, provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia imaginar o que se escondia sob aquelas palhas.
Oyá, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Obaluayê, sem lhe dar a menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida, resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar as palhas que o protegiam.
Quando a poeira assentou, Oyá pode ver um ser de uma beleza tão radiante, que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como orixá, conseguia erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério deveria continuar escondido.
Uma outra lenda nos mostra que esse poderoso orixá, em suas andanças pelo mundo, pode presenciar o desenrolar de muitas guerras. Os povos que Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as guerras não tinham mais fim. Obaluayê não entendia o motivo destas guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos.
As lutas traziam muita dor e destruição, e ninguém mais sabia dar o devido valor à vida humana. Os homens só pensavam em seus interesses materiais.
Obaluayê, indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é o maior tesouro que alguém pode ter.
O poderoso orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão, no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente. Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença.
De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram, inclusive os líderes dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras.
As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à beira da morte.
Um babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Obaluayê havia mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com coisas materiais. Desta vida nada se leva, a não ser o conhecimento e a experiência que acumulamos.
Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme explicou o babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e restabelecer sua dignidade. Mas, infelizmente, nem todos agiram assim.
Talvez, por isso, existam tantos povos africanos vivendo do mesmo jeito há milhares de anos, tentando não se desligar da natureza.
LENDAS DE OXUMARE
Oxumare, filho de Nana e Orixalá, recebeu de Olorun uma missão muito especial e importante para dar continuidade ao processo de criação e renovação da natureza. Sua tarefa consistia em carregar, dentro de suas cabaças, toda água da Terra de volta para o céu. Era uma tarefa árdua e interminável, pois, nem bem ele enchia as nuvens, a água já começava a escorrer, molhando tudo novamente.
Ele não tinha tempo a perder, mas, numa dessas viagens, parou para olhar a Terra e viu um imenso lugar, onde tudo era extraído da lama. Estava faltando alguma coisa para dar mais alegria ao lugar.
O próprio Oxumare já tinha colocado em movimento todos os seres criados, como Olorun havia ordenado, mas ainda não bastava, tudo parecia muito igual e sem vibração.
Ele resolveu, então, pedir a Deus que o ajudasse a encontrar uma maneira de trazer mais felicidade para a Terra, e Olorun concedeu a ele a realização desse desejo.
Quando estava carregando água, sem querer, deixou cair algumas gotas pelo caminho. De repente, formou-se um arco colorido, de uma beleza incrível.
Aquele arco mostrava as cores do universo, e, através dele e de suas infinitas combinações, Oxumare poderia colorir toda a Terra com diversos matizes, tornando-a mais alegre e vibrante.
A partir de então, formou-se uma aliança entre Deus (Olorun) e os seres criados, que sempre poderia ser vista quando as águas do céu encontrassem a luz do sol.
O arco-íris tornou-se, também, símbolo desse Orixá, que gosta de movimento e harmonia em todas as coisas.
LENDA DE NANA
Olorun enviou Nana e Oxalá para viverem na Terra e criarem a humanidade. Os dois foram dotados de grandes poderes para desempenharem essa tarefa, mas somente Nana tinha o domínio do reinado dos eguns, e guardava esses segredos, bem como o da geração da vida, em sua cabaça.
Oxalá não se conformava com esta situação, queria poder compartilhar desses segredos. Tentava agradar sua companheira com oferendas para convencê-la a revelar seu conhecimento.
Nana, sentindo-se feliz com as atitudes de Oxalá, decide mostrar-lhe egun, mas apenas ela era reconhecida nesse reinado.
Certa vez, enquanto Nana trabalhava com a lama, Oxalá, disfarçando-se com as roupas dela, foi visitar egun, sem lhe pedir autorização.
Quando Nana, sentiu a falta de Oxalá e de sua própria vestimenta, teve certeza de que ele havia invadido o seu reinado, atraiçoando-a gravemente. Enfurecida com a descoberta, resolveu fechar a passagem do mundo proibido, deixando Oxalá preso.
Enquanto isso, Oxalá caminhava no reinado de Nana, tentando descobrir seus mistérios, mas apenas ela conseguia comunicar-se com os eguns.
Egun, sempre envolto em seus panos coloridos, não tinha rosto, nem voz. Oxalá, usando um pedaço de carvão, criou um rosto para ele, como já havia feito com os seres humanos, e, com seu sopro divino, abriu-lhe a fala. Assim, ele conseguiu desvendar os segredos que tanto queria, mas, quando se deu conta, viu que não conseguia achar a saída.
Nana não sabia o que fazer, por isso fechou a passagem para mantê-lo preso até encontrar uma forma de castigá-lo. Contou a Olorun sobre a traição de Oxalá, que não aprovou a atitude de ambos. Nana errou ao revelar a Oxalá os segredos que o próprio Olorun lhe confiara. Para castigá-la, tomou o seu reinado e o entregou a Oxalá, pois ele desempenhara melhor a tarefa de zelar pelo eguns. Oxalá também foi castigado, pois invadiu o domínio de um outro orixá. Daquele dia em diante, Oxalá seria obrigado a usar as roupas brancas de Nana, cobrindo o seu rosto com um chorão, que somente as iyabás usam.
LENDA DE OXOLUFON - OXALÁ (A CRIAÇÃO DA TERRA)
Olorun, Deus supremo, criou um ser, a partir do ar (que havia no início dos tempos) e das primeiras águas. Esse ser encantado, que era todo branco e muito poderoso, foi chamado Oxalá. Logo em seguida, criou um outro orixá que possuía o mesmo poder do primeiro, dando-lhe o nome de Nanan. Os dois nasceram da vontade de Olorun de criar o universo.
Oxalá passou a representar a essência masculina de todos os seres, tornando-se o lado direito de Olorun. Nanan, por sua vez, teria a essência feminina, e representaria o lado esquerdo. Outros orixás também foram criados, formando-se um verdadeiro exército a serviço de Olorun, cada um com uma função determinada para executar os planos divinos.
Exú foi o terceiro elemento criado, para ser o elo de ligação entre todos os orixás, e deles com Olorun. Tornou-se costume prestar-lhe homenagens antes de qualquer outro, pois é ele quem leva as mensagens e carrega os ebós.
Olorun confiou à Oxalá a missão de criar a Terra, investindo-o de toda a sabedoria e poderes necessários para o sucesso dessa importante tarefa. Deu a ele uma cabaça contendo todo axé que seria utilizado.
Oxalá, orgulhoso por ter recebido tamanha honraria, achou desnecessário fazer as oferendas a Exú.
Exú, vendo que Oxalá partira sem lhe fazer as oferendas, previu que a missão não seria cumprida, pois, mesmo com a cabaça e toda a força do mundo, sem a sua ajuda não conseguiria chegar ao local indicado por Olorun.
A caminhada era longa e difícil, e Oxalá começou a sentir sede, mas, devido à importância de sua missão, não podia se dar ao luxo de parar para beber água. Não aceitou nada do que lhe foi oferecido, nem mesmo quando passou perto de um rio interrompeu a sua jornada. Mais à frente, encontrou uma aldeia, onde lhe ofereceram leite de cabra para saciar sua sede, que também foi recusado.
Todos os caminhos pareciam iguais e, depois de andar por muito tempo, sentiu-se perdido. De repente, ele avistou uma palmeira muito frondosa, logo à sua frente, Oxalá, já delirando de tanta sede, atingiu o tronco da palmeira com seu cajado, sorvendo todo o líquido que saía de suas entranhas (era vinho de palma). Embriagado pela bebida, desmaiou ali mesmo, ficando desacordado por muito tempo.
Exú avisou Nanan que Oxalá não havia feito as oferendas propiciatórias, por isso não terminaria sua tarefa. Ela, agindo por contra própria, resolveu consultar um babalawô para realizar devidamente as oferendas. O sacerdote enumerou uma série de coisas que ela deveria oferecer, entre elas um camaleão, uma pomba, uma galinha com cinco dedos e uma corrente com nove elos. Exú aceitou tudo, mas só ficou com a corrente, devolvendo o restante à Nanan, pois ela iria precisar mais tarde. Outros sacrifícios foram realizados, até que Olorun a chamou para procurar Oxalá, que havia esquecido o saco da criação com o qual criaria a Terra. Nanan, após terminar suas oferendas, foi atrás de Oxalá, encontrando-o desacordado próximo ao local onde deveria chegar.
Ao saber que Oxalá havia falhado em sua missão, Olorun ordenou que a própria Nanan prosseguisse naquela tarefa com a ajuda de todos os orixás. E assim foi feito. Nanan pegou o saco da criação e o entregou à pomba, para que voasse em círculo. A galinha com cinco dedos foi solta, para espalhar aquela imensa quantidade de terra, e, finalmente, o camaleão arrastou-se vagarosamente, para compactá-la e torná-la firme.
Quando Oxalá acordou, viu que a Terra já havia sido criada, e não o fora por ele. Desesperado, correu até Olorun, que o advertiu duramente por não ter reverenciado Exú antes de partir, julgando-se superior a ele. Oxalá, arrependido, implorou perdão. Olorun, sempre magnânimo, deu-lhe uma nova e importantíssima tarefa, que seria a de criar todos os seres que habitariam a Terra. Desta vez ele não poderia falhar!.
Usando a mesma lama que criou a Terra, Oxalá modelou todos os seres, e, insuflando-lhes seu hálito sagrado, deu-lhes a vida.
Desta forma, Nanan e Oxalá desempenharam tarefas igualmente importantes, juntamente com a valiosa ajuda de todos os orixás, que possibilitaram o surgimento deste novo e maravilhoso mundo em que vivemos...
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