sábado, 19 de setembro de 2009

Sarava meu Mestre

Sou guia, sou corrente, egrégora e proteção. Sou chapéu, sou terno, gravata e anel. Sou sertão, sertanejo, carioca, paulista, alagoano e Brasileiro. Sou Mestre, Malandro, Baiano, Catimbozeiro, Exu e Povo de Rua. Sou faca, facão e navalha. Sou armada, cabeçada e rasteira. Sou Lua cheia, sou noite clara, sou céu aberto.Sou o suspiro dos oprimidos, sou a fé dos abandonados. Sou o pano que cobre o mendigo, sou o mulato que sobe o morro e o Doutor que desce a favela.Sou Umbanda, Catimbó e Candomblé. Sou porta aberta e jogo fechado. Sou Angola e sou Regional.Sou cachimbo, sou piteira, cigarro de palha e fumo de corda. Sou charuto, sou tabaco, sou fumo de ponta, sou brasa nos corações dos esquecidos.Sou jogo de rua, sou baralho, sou dado e dominó. Sou cachetinha, sou palitinho, sou aposta rápida. Sou truco, sou buraco e carteado.Sou proteção ao desamparado, sou o corte da demanda e a cura da doença.Sou a porta do terreiro, sou gira aberta e gira cantada.Sou ladainha, sou hino, sou ponto, sou samba e sou bamba.Sou reza forte, sou benzimento, sou passe e transporte.Sou gingado, sou bailado, sou lenço, sou cravo vermelho e sou rosas brancas.Sou roda, sou jogo, sou fogo. Sou descarrego, sou pólvora, sou cachaça e sou Jurema.Sou lágrima, sou sorriso, sou alegria e esperança.Sou amigo, parceiro e companheiro.Sou Magia, sou Feitiço, sou Kimbanda e sou demanda.Sou irmão, sou filho, sou pai, amante e marido. Sou Maria Navalha, Sou Zé Pretinho, sou Tijuco Preto e sou Camisa Preta.Sou sobrevivência, sou flexibilidade, sou jeito, oportunidade e sabedoria.Sou escola, sou estudo sou pesquisa e poesia.Sou o desconhecido, sou o homem de história duvidosa, mas sou a história de muitos homens.Sou a vida a ser vivida, sou palma a ser batida, sou o verdadeiro jogo da vida:Eu Sou Zé Pelintra!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

LENDAS DOS ORIXÁS

O QUE SÃO ORIXÁS?
Muita gente acredita que os orixás são seres inferiores, perversos e de pouca luz. Ou, então, chegam a defini-los como criaturas demoníacas, com grande poder de destruição, usados somente para o mal. Mas, então, o que realmente são os orixás?
Para nós, os orixás são seres divinos criados por Olorun, nosso Deus único, que o auxiliaram na criação do universo e de todos os seus componentes. A partir daí, eles ganharam a função de intermediários entre o criador e a criatura. É através deles que podemos tentar chegar um pouco mais perto de Deus, se isso não for muita pretensão para nós, meros mortais.
Segundo os yorubás, os orixás são os donos da nossa cabeça, ou "ori", e nossos protetores individuais. Eles estão sempre tentando nos transmitir seus conhecimentos, que, muitas vezes, passam despercebidos pela nossa razão, mas não pelos nossos sentidos. Infelizmente, não damos a devida importância a esse fato, achando que são "coisas da nossa imaginação". Segundo acreditamos, houve uma grande ruptura entre os seres humanos e os orixás, que antes viviam lado a lado, cada um podendo visitar o mundo um do outro; ou seja, a Terra (aiye) e o céu (orun), estavam ligados entre si, não existindo barreiras. Algumas lendas do Candomblé contam que tudo corria muito bem, até um ser humano desrespeitar a ordem estabelecida por Olorun. Seu erro foi adentrar em um local proibido, maculando-o com a sujeira da Terra. Isso não foi perdoado, e a separação tornou-se inevitável. Assim, Oxalá soprou o seu hálito divino sobre a Terra, criando o ar atmosférico, que seria daí em diante, a barreira entre esses dois mundos. Desde então, os seres humanos vivem tentando alcançar o céu e seus seres encantados, sem obter resultado.
Nós, através do Candomblé, conseguimos restabelecer essa ligação com o orun, e temos o poder de presenciar claramente a manifestação da centelha divina em nosso interior, que é a experiência mais maravilhosa que alguém pode experimentar. A esse conjunto de mecanismos criados pelos seres humanos para tentar chegar mais perto do criador e reatar, assim, a comunicação interrompida no passado, é a melhor definição para a palavra religião.
Há varias formas de um mesmo orixá, isto é, existem vários tipos diferentes provenientes de uma mesma origem divina. A esse fenômeno damos o nome de qualidades. Tomemos o exemplo do orixá Oxun, que reina nas águas doces. Ele irá subdividir-se em várias formas ou qualidades, como: Pondá, Opará, Kare, Topé, etc. Todas essas qualidades têm a mesma essência, mas diferem entre si em muitas coisas, inclusive no que diz respeito a seus fundamentos e rituais. Esse tema é muito complexo, gerando dúvidas até mesmo entre os babalorixás.
Por isso, para podermos detectar o orixá de uma pessoa, assim como sua forma ou qualidade, é preciso consultar o oráculo de Ifá, ou jogo de búzios. Não existe outro meio mais seguro e eficaz.
Através dos búzios, um bom sacerdote será capaz de identificar, o orixá ao qual a pessoa pertence, e também verificar se há, realmente, a necessidade de se fazer a iniciação. Caso isso seja inevitável, a pessoa em questão deverá passar por vários preceitos de confirmação até o dia da feitura. É fundamental que não haja erros de espécie alguma, pois é com a vida de um ser humano que estamos lidando.
Quando o babalorixá identifica o orixá de alguém, terá, necessariamente de levantar todos os detalhes que estão ligados a ele, como a família ao qual pertence, as oferendas de que gosta o tipo de comida que mais lhe agrada, seus lugares de ebós, rezas, cantigas, etc. É, também, muito importante saber sobre o elemento da natureza que ele habita e domina, bem como a função que desempenha dentro do universo.
Os orixás podem ser evocados através de rezas (aduras), cantigas especiais (orikis), ou pelo seu nome dentro do plantel dos orixás (morunko). Cada um deles tem suas cores predominantes, que derivam das três cores básicas do universo, que, segundo os yorubas, são o vermelho, o preto e o branco. As roupas rituais de cada orixá, além de todos os adereços e ferramentas que lhe são peculiares, também exibirão essas cores. As comidas também são indispensáveis nas oferendas, variando muito de orixá para orixá.
Existem infinitas lendas a respeito dos orixás, que foram transmitidas de geração em geração, seguindo a tradição oral. Nelas encontramos casos de casamentos entre orixás como, por exemplo, o de Xangô com Iansã. Na realidade, o que essas lendas querem mostrar, através de uma linguagem simples e inteligível, é que esses casamentos representam uniões entre dois ou mais elementos da natureza. Não podemos atribuir aos orixás características e sentimentos humanos.

LENDA DE EXÚ
Exu sempre foi o mais alegre e comunicativo de todos os orixás. Olorun, quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de comunicador e elemento de ligação entre tudo o que existe. Por isso, nas festas que se realizavam no orun (céu), ele tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a todos.
Sempre foi assim, até que um dia os orixás acharam que os sons dos tambores e dos cânticos estavam muito altos, e que não ficava bem tanta agitação.
Então, eles pediram a Exu, que parasse com aquela atividade barulhenta, para que a paz voltasse a reinar.
Assim foi feito, e Exu nunca mais tocou seus tambores, respeitando a vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os orixás começaram a sentir falta da alegria que a música trazia. As cerimônias ficavam muito mais bonitas ao som dos tambores.
Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Exu que voltasse a animar as festas, pois elas estavam muito sem vida.
Exu negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido quando sua animação fora censurada, mas prometeu que daria essa função para a primeira pessoa que encontrasse.
Logo apareceu um homem, de nome Ogan. Exu confiou-lhe a missão de tocar tambores e entoar cânticos para animar todas as festividades dos orixás. E, daquele dia em diante, os homens que exercessem esse cargo seriam respeitados como verdadeiros pais e denominados Ogans.


LENDA DE OGUN
Ogum vivia em sua aldeia, quando foi requisitado para uma guerra, que não tinha data para acabar. Antes de partir, ele exigiu que seus habitantes dedicassem um dia em sua homenagem, fazendo o sacrifício de jejuar e fazer silêncio absoluto, além de outras oferendas.
Partiu, em sua longa jornada, para os campos de batalha, onde permaneceu sete anos. No regresso à sua aldeia, caminhou durante muitos dias, sentindo muito cansaço. A fome e a sede também o atormentavam. Na primeira casa que encontrou pediu água e comida, mas ninguém o atendeu, permanecendo calados e de olhos fixos no chão.
Resolveu, então, fazer outra tentativa na próxima casa, mas a cena foi à mesma, o que despertou sua ira. Ele esbravejou com os moradores, exigindo que falassem com ele, mas ninguém o fez.
Não se conformava com tamanha falta de respeito, depois de ter lutado tanto!
Ogum esperava uma recepção calorosa em sua própria aldeia, mas, ao contrário, só encontrou silêncio.
À medida que avançava pelo interior da cidade, a mesma coisa se repetia casa após casa. Ogum nem imaginava o que estava acontecendo. Perguntava e não recebia resposta.
Sua ira já estava incontrolável, quando chegou ao centro do povoado, onde haviam muitas pessoas. Estranhou o fato de ninguém estar conversando. Perguntou a eles onde estavam suas famílias, mas não obteve resposta. Era uma afronta!
Foi assim que, evocando todos os seus poderes, Ogum dizimou sua própria aldeia.
Caçadores que passavam pela cidade, entre eles seu filho, o reconheceram e tentaram aproximar-se. Vendo que sua cólera era imensa, resolveram evocar Exu para acalmá-lo.
A ira desse orixá finalmente foi aplacada. Seu filho, indignado ao ver tanta destruição, indagou o motivo que levou seu pai a cometer tal atrocidade. Ogum respondeu que aquelas pessoas lhe faltaram com respeito quando não o reconheceram. Precisavam de um castigo.
Foi, então, que seu filho fez-lhe lembrar da exigência que fizera antes de partir para a guerra.
Ogum, tomado pelo remorso, devido à sua crueldade com pessoas que só estavam obedecendo a ordens, abriu o chão com sua espada enterrando-se de pé.

LENDA DE ODÉ
Na cidade de Ifé, realizavam-se festividades e rituais por ocasião das colheitas. Os sacerdotes da aldeia, fugindo aos seus costumes, não realizavam as oferendas obrigatórias para três das maiores bruxas conhecidas: as Iya-mi Oxorongás. Esse ato imperdoável precisava de uma boa punição. Foi assim que elas enviaram um enorme pássaro para assombrar aquela aldeia.
A ave ficou pousada no telhado do palácio, de onde podia avistar toda a cidade.
Um clima de medo e mau agouro espalhou-se entre os moradores, que não sabiam o que fazer para acabar com aquele terrível monstro.
Oferendas foram realizadas para as Oxorongás, mas sem resultado. Era tarde demais para isso.
Foi então que alguns caçadores se apresentaram para matar o pássaro das bruxas, mas foram todos derrotados. O último caçador possuía apenas uma flecha, e era a última esperança de livrar a aldeia da morte. Esse caçador era Odé.
Sua mãe, que estava longe daquele lugar, teve um mau presságio com relação a ele. Consultando um babalawô, teve a confirmação do que já sabia: seu filho corria grande perigo.
Foram necessárias muitas oferendas para que a missão de Odé fosse executada com perfeição e, graças a isso, Odé pôde matar o pássaro com sua única flecha, livrando sua aldeia da aniquilação. Desde então, vem sendo venerado por esse povo.


LENDA DE OSSAIN
Ossain era o único orixá que sabia reconhecer e despertar os poderes mágicos das plantas e usá-los para curar as enfermidades, ou nos rituais litúrgicos. Ele sabia como ninguém, fazer misturas mágicas com os vegetais, raízes e folhas.
Os outros orixás também tinham o desejo de possuir suas próprias folhas, bem como o conhecimento necessário para receber o axé proveniente delas, mas Ossain não revelava seus segredos e não deixava ninguém apanhar folhas em suas florestas.
Oyá (Yassan) não aceitava essa situação, pois sua aldeia estava sendo assolada por doenças, e nada podia ser feito. Foi, então, que ela pediu a Ossain que lhe desse algumas folhas e seus respectivos encantamentos, mas este se negou a fazê-lo. Oyá ficou muito contrariada, não se conformando com uma atitude tão insensível. Sua fúria incontrolável fez levantar o vento. E o vento foi tão forte, que as folhas se desprenderam das árvores, voando para todos os cantos da floresta. Ossain gritava: "Minhas folhas, minhas folhas". A cabaça com os segredos ficou exposta por algum tempo, possibilitando aos orixás a oportunidade de absorver uma pequena parte desse conhecimento. Assim, os orixás cataram suas folhas, que seriam utilizadas em seus rituais sagrados; porém, não podiam dispensar a ajuda de Ossain, pois ele sempre será o grande sábio da floresta.
Outra lenda nos conta que Ossain trabalhava na roça de Orunmilá, que é um orixá fun-fun (da cor branca) e detentor do conhecimento do oráculo divinatório. Ossain tinha a tarefa de cultivar os campos, mas recusava-se a limpar o terreno para fazer a semeadura. Ele não conseguia podar as plantas, pois achava utilidade em todas elas. Essas folhas podiam curar todo tipo de doença existente.
Orunmilá, vendo que o serviço não saía, foi ver o que estava acontecendo.
Ossain explicou seus motivos, fazendo com que o grande orixá fun-fun percebesse estar diante de um ser encantado e de grande conhecimento. Ao invés de castigá-lo, deu-lhe uma posição de destaque dentro do oráculo de Ifá. Dessa forma, Orunmilá teria, perto de si, alguém para lhe revelar os segredos das folhas.


LENDA DE XANGÔ
Xangô, quando viveu aqui na Terra, era um grande Obá (rei), muito temido e respeitado. Gostava de exibir sua bela figura, pois era um homem muito vaidoso. Conquistou, ao longo de sua vida, muitas esposas, que disputavam um lugar em seu coração.
Além disso, adorava mostrar seus poderes de feiticeiro, sempre experimentando sua força.
Em certa ocasião, Xangô estava no alto de uma montanha, testando seus poderes. Em altos brados, evocava os raios, desafiando essas forças poderosas. Sua voz era o próprio trovão, provocando um barulho ensurdecedor. Ninguém conseguia entender o que Xangô pretendia com essa atitude, ficando ali por muito tempo, impaciente por não obter resposta. De repente, o céu se iluminou e os raios começaram a aparecer. As pessoas ficaram impressionadas com a beleza daquele fenômeno, mas, ao mesmo tempo, estavam apavoradas, pois nunca tinham visto nada parecido.
Xangô, orgulhoso de seu extremo poder, ficou extasiado com o acontecimento. Não parava de proferir palavras de ordem, querendo que o espetáculo continuasse. Era realmente algo impressionante!
Foi, então, que, do alto de sua vaidade, viu a situação fugir ao seu controle. Tentou voltar atrás, implorando aos céus que os raios, que cortavam a Terra como poderosas lanças, desaparecessem. Mas era impossível - a natureza havia sido desafiada, desencadeando forças incontroláveis!
Xangô correu para sua aldeia, assustado com a destruição que provocara.
Quando chegou perto do palácio, viu o erro que cometera. A destruição era total e, para piorar a situação, todos os seus descendentes haviam morrido. Ao ver que o rei estava muito perturbado, seu próprio povo tentou consolá-lo com a promessa de reconstruir a cidade, fazendo tudo voltar ao que era antes. Xangô, sem dar ouvidos a ninguém, foi embora da cidade.
Ele não suportou tanta dor e injustiça, retirando-se para um lugar afastado, para acabar com sua vida. O rei enforcou-se numa gameleira.
Oyá, quando soube da morte de seu marido, chorou copiosamente, formando o rio Niger. Ela, que tinha conhecimento do reino dos eguns, foi até lá para trazer seu companheiro da morte, que veio envolto em panos brancos e com o rosto coberto por uma máscara de madeira, pois não podia ser reconhecido por Ikú, o Senhor da Morte. Xangô ressurge dos mortos, tornando-se um ser encantado. E foi assim que surgiu uma nova forma, ou qualidade, desse orixá, a qual chamamos Airá. Essa variação da essência de Xangô adotou, além do vermelho, a cor branca.
Outra lenda nos dá conta que Xangô, com sua irresistível aparência, atraía muitas mulheres. Era muito vistoso, com seus cabelos trançados e os enfeites de cobre em seu corpo. Possuía muitas esposas, como Obá e Oxun.
Oxun era a mais bela esposa de Xangô, muito mais vaidosa do que ele, dispensando grande parte de seu tempo para enfeitar-se e, assim, poder agradar seu amado.
Xangô apreciava muito sua companhia e o esforço que fazia para fazê-lo feliz.
Obá não tinha o mesmo tratamento, por isso, sentia-se rejeitada. Ela era muito possessiva em seus relacionamentos e não suportava mais essa situação.
Oxun havia percebido que Obá a invejava e queria roubar-lhe o companheiro. Muito faceira e com ares de superioridade, começou a contar vantagens para a rival, que fingia não se importar. Dizia que Xangô adorava um certo quitute preparado com um ingrediente muito especial: um pedaço de orelha.
Obá acreditou nela, pois, naquele momento, Oxun estava com um torço amarrado na cabeça. Embora parecesse estranho, devia ser tudo verdade, pois Xangô estava enfeitiçado por Oxun.
Juntando muita coragem e determinação, Obá cortou fora sua orelha para preparar o tal prato.
Xangô chegou bem na hora e viu o sangue que escorria da cabeça de Obá. Preocupado, quis saber o que havia acontecido com ela. Quando soube do acontecido, ficou enfurecido com Obá, por pensar em oferecer-lhe uma comida tão esquisita!
Percebendo a mentira de Oxun, saiu furiosa à sua procura para ajustarem contas.
Xangô separou as duas rivais, que se transformaram em rios. Obá foi embora desse reinado e nunca mais voltou.

LENDA DE OXUN
Conta a lenda que Oxalá, numa de suas caminhadas pelo mundo, iria passar pela aldeia de Oxun, onde pretendia parar e descansar.
Exú, mensageiro dos orixás, correu para avisar Oxun que o grande orixá fun-fun estava a caminho de sua cidade. Era preciso organizar uma grande recepção, pois a visita era muito importante para todos. Ela, então, apressou-se com os preparativos da festa, ordenando a limpeza de todas as casas e lugares públicos da aldeia, bem como que os enfeites utilizados fossem da cor branca. Oxun cuidou pessoalmente da ornamentação e limpeza de seu palácio, pois tudo tinha que estar perfeito, à altura de Oxalá.
Com tantos afazeres importantes, em tão curto espaço de tempo, Oxun não se lembrou de convidar as Iya-mi para a grande festa.
As feiticeiras não perdoaram essa desfeita. Sentindo-se muito desprestigiadas, resolveram desmoralizar Oxun perante os convidados.
No dia da chegada de Oxalá à cidade, Oxorongá entrou disfarçada no palácio para colocar, no assento do trono da Oxun, um preparado mágico, que não fora notado por ninguém.
Toda a cidade estava impecavelmente limpa e ornamentada. O palácio de Oxun, que fora caprichosamente preparado, tinha seus móveis e utensílios cobertos por tecidos de uma alvura imaculada. Branca também seria a cor das roupas utilizadas na cerimônia.
Oxalá finalmente chegou, sendo respeitosamente reverenciado numa grande demonstração de fé e admiração ao grande mensageiro da paz.
Oxun, sentada em seu trono, esperava com impaciência a entrada de Oxalá em seu palácio, quando iria oferecer-lhe seu próprio assento. Mas, ao tentar levantar-se, percebeu que estava presa em sua cadeira e, por mais força que fizesse, não conseguia soltar-se. O esforço que empreendeu foi tão grande, que, mesmo ferida, conseguiu ficar em pé, mas uma poça de sangue havia manchado suas roupas e também sua cadeira.
Quando Oxalá viu aquele sangue vermelho no trono em que se sentaria, ficou tão contrariado, que saiu imediatamente do recinto, sentindo-se muito ofendido.
Oxun, envergonhada com o acontecido, não conseguia entender porque havia ficado presa em sua própria cadeira, uma vez que ela mesma tinha cuidado de todos os preparativos.
Escondendo-se de todos, foi consultar o oráculo de Ifá para obter um conselho. O jogo, então, lhe revelou que Oxorongá havia colocado feitiço em seu assento, por não ter sido convidada.
Exú, a pedido de Oxun, foi em busca do grande pai, para relatar-lhe o ocorrido.
Oxalá retornou ao palácio, onde a grande mãe das águas estava sentada de cabeça baixa, muito constrangida. Quando ela o viu, começou a abanar seu abebe, transformando o sangue de suas roupas em penas vermelhas, que, ao voar, caíram sobre a cabeça de todos os que ali estavam inclusive a de Oxalá. Em reconhecimento ao esforço que ela empreendeu para homenageá-lo, ele aceitou aquela pena vermelha (ekodide), prostrando-se à sua frente, em sinal de agradecimento.
A partir de então, essa pena foi introduzida nos rituais de feitura do Candomblé.

LENDA DE LOGUN
No início dos tempos, cada orixá dominava um elemento da natureza, não permitindo que nada, nem ninguém, o invadisse. Guardavam sua sabedoria como a um tesouro.
É nesse contexto que vivia a mãe das água doces, Oxun, e o grande caçador Odé. Esses dois orixás constantemente discutiam sobre os limites de seus respectivos reinados, que eram muito próximos.
Odé ficava extremamente irritado quando o volume das águas aumentavam e transbordavam de seus recipientes naturais, fazendo alagar toda a floresta. Oxun argumentava, junto a ele, que sua água era necessária à irrigação e fertilização da terra, missão que recebera de Olorun. Odé não lhe dava ouvidos, dizendo que sua caça iria desaparecer com a inundação.
Olorun resolveu intervir nessa guerra, separando bruscamente esses reinados, para tentar apaziguá-los.
A floresta de Odé logo começou a sentir os efeitos da ausência das águas. A vegetação, que era exuberante, começou a secar, pois a terra não era mais fértil. Os animais não conseguiam encontrar comida e faltava água para beber. A mata estava morrendo e as caças tornavam-se cada vez mais raras. Odé não se desesperou, achando que poderia encontrar alimento em outro lugar.
Oxun, por sua vez, sentia-se muito só, sem a companhia das plantas e dos animais da floresta, mas também não se abalava, pois ainda podia contar com a companhia de seus filhos peixes para confortá-la.
Odé andou pelas matas e florestas da Terra, mas não conseguia encontrar caça em lugar algum. Em todos os lugares encontrava o mesmo cenário desolador. A floresta estava morrendo e ele não podia fazer nada.
Desesperado, foi até Olorun pedir ajuda para salvar seu reinado, que estava definhando. O maior sábio de todos explicou-lhe que a falta d’água estava matando a floresta, mas não poderia ajudá-lo, pois o que fez foi necessário para acabar com a guerra. A única salvação era a reconciliação.
Odé, então, colocou seu orgulho de lado e foi procurar Oxun, propondo a ela uma trégua. Como era de costume, ela não aceitou a proposta na primeira tentativa. Oxun queria que Odé se desculpasse, reconhecendo suas qualidades. Ele, então, compreendeu que seus reinos não poderiam sobreviver separados, unindo-se novamente, com a benção de Olorun.
Dessa união nasceu um novo orixá, um orixá príncipe, Logun-Edé, que iria consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais. Logun sempre ficou entre os dois, fixando-se nas margens das águas, onde havia uma vegetação abundante. Sua intervenção era importante para evitar as cheias, bem como a estiagem prolongada. Ele procurava manter o equilíbrio da natureza, agindo sempre da melhor maneira para estabelecer a paz e a fertilidade.
Conta uma outra lenda que as terras e as águas estavam no mesmo nível, não havendo limites definidos.
Logun, que transitava livremente por esses dois domínios, sempre tropeçava quando passava de um reinado para o outro. Esses acidentes deixavam Logun muito irritado.
Um dia, após ter ficado seis meses vivendo na água, tentou fazer a transição para o reinado de seu pai, mas não conseguiu, pois a terra estava muito escorregadia. Voltou, então, para o fundo do rio, onde começou a cavar freneticamente, com a intenção de suavizar a passagem da água para a terra.
Com essa escavação, machucou suas mãos, pés e cabeça, mas conseguiu fazer uma passagem, que tornou mais fácil sua transição. Logun criou, assim, as margens dos rios e córregos, onde passou a dominar. Por esse motivo, suas oferendas são bem aceitas nesse local.

LENDA DE OYÁ - YANSAN
Segundo a lenda, Oyá vivia feliz com Ogun, pois os dois tinham muitas coisas em comum, como o gosto pela guerra e o desejo de desbravar novos lugares. Gostavam da companhia um do outro, sentindo-se em harmonia. Com ele, que é conhecedor de todos os caminhos, Oyá aprendeu a andar pela Terra.
Gostava muito de vê-lo trabalhar, em seu oficio de ferreiro, tentando aprender como ele confeccionava suas armas e ferramentas. Oyá pedia insistentemente que lhe fizesse uma arma para guerrear.
Um dia, Ogun a surpreendeu, oferecendo-lhe uma espada curva, que era ideal para seu uso. Isso a agradou muito, tanto que, mais tarde, todo seu exército estava usando esse mesmo tipo de arma.
Mas Ogun não a levava em suas batalhas, deixando-a sozinha e entediada. Sem falar no tempo que gastava em seus afazeres de ferreiro. Oyá adorava a liberdade, mas, ao mesmo tempo, não dispensava uma boa companhia. Começou a sentir-se rejeitada por ele.
Foi nesse momento que Xangô, o grande rei, foi procurar Ogun, pois precisava de armas para seu exército. Ele era muito atraente e cuidadoso com sua aparência. Era impossível não notar sua presença.
Ogun, aceitando o pedido, começou a produzir armas para Xangô, que tinha muita urgência. Ficaria na aldeia o tempo necessário para o término do serviço.
Xangô também notou a presença de Oyá, sentindo uma grande atração por ela. Com seu jeito de ser, aproximou-se dela para trocar conhecimentos a respeito de suas habilidades. Descobriram, nessas conversas, que possuíam muitas afinidades, inclusive que não gostavam de viver isolados, assim como Ogun.
Oyá estava muito interessada em Xangô e em tudo o que estava aprendendo com ele, mas não queria magoar Ogun, a quem respeitava muito.
Xangô propôs-lhe uma união eterna, sem monotonia, sem solidão, viajando sempre juntos por toda a Terra. Seria uma união perfeita.
Quando Ogun terminou seu trabalho, os dois já haviam partido. Ele ficou enfurecido com a traição de ambos, mesmo sabendo que sua companheira não podia ficar cativa para sempre.
Partiu atrás deles para vingar sua desonra!
Oyá estava vindo ao seu encontro, para explicar-lhe que não poderia mais ficar com ele, pois Xangô a completava, mas que iria respeitá-lo sempre como grande orixá da guerra.
Ogun estava tão enfurecido, que não ouviu o que ela dizia, e foi com grande fúria que investiu contra ela, erguendo sua espada. Oyá, em defesa própria, também o atacou. Ela foi golpeada em nove partes do seu corpo, e Ogun em sete, formando curas. Esses números ficaram muito ligados a esses orixás, assim como as curas, que foram introduzidas nos rituais africanos.

LENDA DE YEMOJÁ
Yemojá, grande orixá das águas, era filha de Olokun, o senhor dos oceanos. Era possuidora de um grande instinto maternal, que fez dela mãe de dez filhos. Embora casada, não tinha grande apego por seu marido. Às vezes, pensava em deixá-lo, mas ele era um homem muito importante e poderoso, e não permitiria tal desonra. Yemojá também pensava no bem-estar de seus filhos, não podendo deixá-los desamparados.
Seu marido usava o poder com tirania, inclusive com sua família, tornando a vida dela insuportável. Ela não agüentava mais se submeter aos caprichos de um homem que ela desprezava.
Ela procurou seu pai para aconselhar-se sobre a atitude que deveria tomar. No fundo, ela já estava decidida a fugir, mas precisava de seu apoio. Olokun não a recriminou, pois ela era uma soberana e, como tal, não poderia aceitar o jugo de ninguém. Ele, então, deu à sua filha uma cabaça com encantamentos, para que ela usasse quando estivesse em perigo.
Yemojá colocou seu plano em prática, fugindo com todos os seus filhos.
Quando ela já estava bem longe de sua aldeia, viu que estava sendo perseguida pelo exército de seu marido. Pensou em enfrentá-los, mas eles eram muitos e seria uma luta desleal. Yemojá odeia os confrontos, pela destruição que causam, já que é um orixá propagador de vida.
Quando se sentiu acuada, resolveu abrir a cabaça e pedir socorro ao seu pai. Do seu interior escoou um líquido escuro, que, ao tocar o chão, imediatamente formou um rio, que corria em direção ao oceano.
Foi nessas águas que Yemojá e seu povo encontraram um caminho para a liberdade.

LENDA DE OBALUAYE – OMULU
Nanan, esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz!
Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria melhor para todos.
Yemonjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho.
Com seu grande instinto maternal, Yemojá dispensou a ele todo o carinho e os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar as chagas.
Obaluayê cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso, provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia imaginar o que se escondia sob aquelas palhas.
Oyá, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Obaluayê, sem lhe dar a menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida, resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar as palhas que o protegiam.
Quando a poeira assentou, Oyá pode ver um ser de uma beleza tão radiante, que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como orixá, conseguia erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério deveria continuar escondido.
Uma outra lenda nos mostra que esse poderoso orixá, em suas andanças pelo mundo, pode presenciar o desenrolar de muitas guerras. Os povos que Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as guerras não tinham mais fim. Obaluayê não entendia o motivo destas guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos.
As lutas traziam muita dor e destruição, e ninguém mais sabia dar o devido valor à vida humana. Os homens só pensavam em seus interesses materiais.
Obaluayê, indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é o maior tesouro que alguém pode ter.
O poderoso orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão, no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente. Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença.
De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram, inclusive os líderes dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras.
As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à beira da morte.
Um babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Obaluayê havia mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com coisas materiais. Desta vida nada se leva, a não ser o conhecimento e a experiência que acumulamos.
Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme explicou o babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e restabelecer sua dignidade. Mas, infelizmente, nem todos agiram assim.
Talvez, por isso, existam tantos povos africanos vivendo do mesmo jeito há milhares de anos, tentando não se desligar da natureza.

LENDAS DE OXUMARE
Oxumare, filho de Nana e Orixalá, recebeu de Olorun uma missão muito especial e importante para dar continuidade ao processo de criação e renovação da natureza. Sua tarefa consistia em carregar, dentro de suas cabaças, toda água da Terra de volta para o céu. Era uma tarefa árdua e interminável, pois, nem bem ele enchia as nuvens, a água já começava a escorrer, molhando tudo novamente.
Ele não tinha tempo a perder, mas, numa dessas viagens, parou para olhar a Terra e viu um imenso lugar, onde tudo era extraído da lama. Estava faltando alguma coisa para dar mais alegria ao lugar.
O próprio Oxumare já tinha colocado em movimento todos os seres criados, como Olorun havia ordenado, mas ainda não bastava, tudo parecia muito igual e sem vibração.
Ele resolveu, então, pedir a Deus que o ajudasse a encontrar uma maneira de trazer mais felicidade para a Terra, e Olorun concedeu a ele a realização desse desejo.
Quando estava carregando água, sem querer, deixou cair algumas gotas pelo caminho. De repente, formou-se um arco colorido, de uma beleza incrível.
Aquele arco mostrava as cores do universo, e, através dele e de suas infinitas combinações, Oxumare poderia colorir toda a Terra com diversos matizes, tornando-a mais alegre e vibrante.
A partir de então, formou-se uma aliança entre Deus (Olorun) e os seres criados, que sempre poderia ser vista quando as águas do céu encontrassem a luz do sol.
O arco-íris tornou-se, também, símbolo desse Orixá, que gosta de movimento e harmonia em todas as coisas.



LENDA DE NANA
Olorun enviou Nana e Oxalá para viverem na Terra e criarem a humanidade. Os dois foram dotados de grandes poderes para desempenharem essa tarefa, mas somente Nana tinha o domínio do reinado dos eguns, e guardava esses segredos, bem como o da geração da vida, em sua cabaça.
Oxalá não se conformava com esta situação, queria poder compartilhar desses segredos. Tentava agradar sua companheira com oferendas para convencê-la a revelar seu conhecimento.
Nana, sentindo-se feliz com as atitudes de Oxalá, decide mostrar-lhe egun, mas apenas ela era reconhecida nesse reinado.
Certa vez, enquanto Nana trabalhava com a lama, Oxalá, disfarçando-se com as roupas dela, foi visitar egun, sem lhe pedir autorização.
Quando Nana, sentiu a falta de Oxalá e de sua própria vestimenta, teve certeza de que ele havia invadido o seu reinado, atraiçoando-a gravemente. Enfurecida com a descoberta, resolveu fechar a passagem do mundo proibido, deixando Oxalá preso.
Enquanto isso, Oxalá caminhava no reinado de Nana, tentando descobrir seus mistérios, mas apenas ela conseguia comunicar-se com os eguns.
Egun, sempre envolto em seus panos coloridos, não tinha rosto, nem voz. Oxalá, usando um pedaço de carvão, criou um rosto para ele, como já havia feito com os seres humanos, e, com seu sopro divino, abriu-lhe a fala. Assim, ele conseguiu desvendar os segredos que tanto queria, mas, quando se deu conta, viu que não conseguia achar a saída.
Nana não sabia o que fazer, por isso fechou a passagem para mantê-lo preso até encontrar uma forma de castigá-lo. Contou a Olorun sobre a traição de Oxalá, que não aprovou a atitude de ambos. Nana errou ao revelar a Oxalá os segredos que o próprio Olorun lhe confiara. Para castigá-la, tomou o seu reinado e o entregou a Oxalá, pois ele desempenhara melhor a tarefa de zelar pelo eguns. Oxalá também foi castigado, pois invadiu o domínio de um outro orixá. Daquele dia em diante, Oxalá seria obrigado a usar as roupas brancas de Nana, cobrindo o seu rosto com um chorão, que somente as iyabás usam.

LENDA DE OXOLUFON - OXALÁ (A CRIAÇÃO DA TERRA)
Olorun, Deus supremo, criou um ser, a partir do ar (que havia no início dos tempos) e das primeiras águas. Esse ser encantado, que era todo branco e muito poderoso, foi chamado Oxalá. Logo em seguida, criou um outro orixá que possuía o mesmo poder do primeiro, dando-lhe o nome de Nanan. Os dois nasceram da vontade de Olorun de criar o universo.
Oxalá passou a representar a essência masculina de todos os seres, tornando-se o lado direito de Olorun. Nanan, por sua vez, teria a essência feminina, e representaria o lado esquerdo. Outros orixás também foram criados, formando-se um verdadeiro exército a serviço de Olorun, cada um com uma função determinada para executar os planos divinos.
Exú foi o terceiro elemento criado, para ser o elo de ligação entre todos os orixás, e deles com Olorun. Tornou-se costume prestar-lhe homenagens antes de qualquer outro, pois é ele quem leva as mensagens e carrega os ebós.
Olorun confiou à Oxalá a missão de criar a Terra, investindo-o de toda a sabedoria e poderes necessários para o sucesso dessa importante tarefa. Deu a ele uma cabaça contendo todo axé que seria utilizado.
Oxalá, orgulhoso por ter recebido tamanha honraria, achou desnecessário fazer as oferendas a Exú.
Exú, vendo que Oxalá partira sem lhe fazer as oferendas, previu que a missão não seria cumprida, pois, mesmo com a cabaça e toda a força do mundo, sem a sua ajuda não conseguiria chegar ao local indicado por Olorun.
A caminhada era longa e difícil, e Oxalá começou a sentir sede, mas, devido à importância de sua missão, não podia se dar ao luxo de parar para beber água. Não aceitou nada do que lhe foi oferecido, nem mesmo quando passou perto de um rio interrompeu a sua jornada. Mais à frente, encontrou uma aldeia, onde lhe ofereceram leite de cabra para saciar sua sede, que também foi recusado.
Todos os caminhos pareciam iguais e, depois de andar por muito tempo, sentiu-se perdido. De repente, ele avistou uma palmeira muito frondosa, logo à sua frente, Oxalá, já delirando de tanta sede, atingiu o tronco da palmeira com seu cajado, sorvendo todo o líquido que saía de suas entranhas (era vinho de palma). Embriagado pela bebida, desmaiou ali mesmo, ficando desacordado por muito tempo.
Exú avisou Nanan que Oxalá não havia feito as oferendas propiciatórias, por isso não terminaria sua tarefa. Ela, agindo por contra própria, resolveu consultar um babalawô para realizar devidamente as oferendas. O sacerdote enumerou uma série de coisas que ela deveria oferecer, entre elas um camaleão, uma pomba, uma galinha com cinco dedos e uma corrente com nove elos. Exú aceitou tudo, mas só ficou com a corrente, devolvendo o restante à Nanan, pois ela iria precisar mais tarde. Outros sacrifícios foram realizados, até que Olorun a chamou para procurar Oxalá, que havia esquecido o saco da criação com o qual criaria a Terra. Nanan, após terminar suas oferendas, foi atrás de Oxalá, encontrando-o desacordado próximo ao local onde deveria chegar.
Ao saber que Oxalá havia falhado em sua missão, Olorun ordenou que a própria Nanan prosseguisse naquela tarefa com a ajuda de todos os orixás. E assim foi feito. Nanan pegou o saco da criação e o entregou à pomba, para que voasse em círculo. A galinha com cinco dedos foi solta, para espalhar aquela imensa quantidade de terra, e, finalmente, o camaleão arrastou-se vagarosamente, para compactá-la e torná-la firme.
Quando Oxalá acordou, viu que a Terra já havia sido criada, e não o fora por ele. Desesperado, correu até Olorun, que o advertiu duramente por não ter reverenciado Exú antes de partir, julgando-se superior a ele. Oxalá, arrependido, implorou perdão. Olorun, sempre magnânimo, deu-lhe uma nova e importantíssima tarefa, que seria a de criar todos os seres que habitariam a Terra. Desta vez ele não poderia falhar!.
Usando a mesma lama que criou a Terra, Oxalá modelou todos os seres, e, insuflando-lhes seu hálito sagrado, deu-lhes a vida.
Desta forma, Nanan e Oxalá desempenharam tarefas igualmente importantes, juntamente com a valiosa ajuda de todos os orixás, que possibilitaram o surgimento deste novo e maravilhoso mundo em que vivemos...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A COZINHA, OS ORIXÁS E OS TRUQUES: ENTRE A INVENÇÃO E A RECRIAÇÃO ONDE O TEMPO NÃO PÁRA...

Vilson Caetano de Sousa Júnior
PUC-SP


Trabalho apresentado no seminário temático ST03 "Os afro-brasileiros".
VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina
São Paulo, 22 a 25 de setembro de 1998





A comida e o comer ocupam um lugar fundamental na vida dos terreiros de Candomblé. Isso aparece explicado de várias formas, através de uma visão muito ampla, onde ela é entendida como força vital, energia, princípio criativo e doador de algo. Na comida, encontra-se a energia máxima de uma oferta, mas, acima de tudo, ela é a força que fortifica os ancestrais, então, é um meio, um veículo através do qual, grupos humanos e civilizações, se sustentaram durante milênios fazendo contrato com o Sagrado.
No terreiro, a chamada comida de Orixá obedece a prescrições complexas construídas ao longo do tempo e redefinidas a cada momento, de acordo com a função que deva desempenhar ou à “realidade” que deseje instaurar ou dialogar. Tudo isso é expresso nas múltiplas formas, maneiras e diferentes modos de preparar, fazer ou de “tratar” os ingredientes.
Comida é sacrifício, ebó no seu sentido mais amplo, mola propulsora que conduz e leva o Axé. Daí sua íntima relação com Exu, aquele que come tudo, encarregado de sua distribuição no mundo. O sacrifício é, asssim, indispensável para viver, pois nada se sustenta sem esta troca de força, de energia, sem essa reposição, num universo onde tudo é dinâmico e nada acontece por acaso. Onde até uma folha que se desprende da árvore tem um por que preciso.
Através da comida oferecida aos Orixás, se estabelecem relações entre o devoto, a comunidade e o Orixá. É sobretudo nas festas que isso mais se expressa. Festas que se desenrolam ocultamente aos olhos dos de fora, que podem levar meses e festas que são feitas para os de fora, realizadas no barracão, tornadas públicas, onde, em algumas delas, são exibidas a maior quantidade possível de comidas servidas aos Orixás da casa, e eles próprios servem a sua comida, distribuindo, assim, aos presentes a sua força máxima.
Por traz de cada prato ofertado há uma visão de mundo, um porque, que faz com que o comer instaure um sistema de prestações e de contraprestações que englobam a totalidade da vida. Comida é sempre um contra presente.
A comida de Orixá difere, assim, das comidas servidas no dia a dia do terreiro, bem como daquelas passadas no corpo das pessoas, usadas para “descarregar”, limpar, livrar de algum contra-axé.
Em linhas gerais, comida é tudo que se come. Desde à pimenta e o obi que se masca para conversar com o Orixá, ao naco de carne oferecido a este mesmo Orixá, partilhado pela pessoas. Nesse processo de diferenciação, em que os ingredientes, na sua grande maioria, são os mesmos, muda-se a forma de ritualizar, a elaboração, o cuidado, “o tratamento”, a maneira de lidar com o mesmo ingrediente, o sentido impresso e invocado através das palavras de encantamento, cantigas e rezas.
Assim, falar sobre esta comida, suas relações, circunscrevê-la dentro de um espaço, momento, consiste num dos nossos principais desafios. Enfrentá-lo, é o que tentamos fazer sob o título: A Cozinha, os Orixás e os truques: entre a invenção e recriação onde o tempo não pára...


“Candomblé mesmo é cozinha...”

Dentro do universo do Candomblé, a cozinha merece uma atenção especial, por ser um dos espaços onde se passa e se constitui o sagrado. Tudo nela remete a esta dimensão. Assim, “A cozinha de santo” aparece sempre como algo distinto, separado da cozinha do dia a dia. Separada na sua grande maioria, não por limites externos, mas internos que são representados por mudanças de atitude, ações, formas de uso, etc.
Em muitos terreiros de Candomblé, o local onde são preparadas as comidas dos Orixás é o mesmo onde são feitas as comidas do dia a dia. Esta separação, todavia é realizada de forma bastante visível e determinada. Muitas vezes se reserva para as comidas de santo um fogão especial que pode ser de lenha ou industrial, enquanto a outra permanece num fogão menor. Comum é se trocar de horários. É muito difícil se mexer com as panelas dos Orixás ao lado de outras panelas, bem como misturar os utensílios destas duas cozinhas.
“ Cozinha do santo” é, assim, mais que um lugar determinado que, em terreiros de estrutura maior, os mais antigos, se tem para preparar somente os pratos dos Orixás e, sim, um espaço criado e redefinido a cada momento, no terreiro, através da separação dos objetos, utensílios e mudanças de comportamento. Tudo participa do sagrado: o espaço em si , as panelas, travessas, pratos, bacias, cestos, peneiras, colheres de pau, ralos, o pilão, as frigideiras, formas de assar e sobretudo as pessoas que nele transitam.
A cozinha é cheia de interdições como: não conversar mais que o necessário, não falar alto, gritar, cantar ou dançar músicas que não sejam do santo; não entrar pessoas que não sejam iniciadas-dependendo do que se estiver fazendo, somente um número muito restrito-não admitir que mulheres menstruadas permaneçam nela, etc. Neste espaço sacralizado, tudo vai ganhando significado: a bacia que cai, o garfo, a faca, a colher, o óleo que faz fumaçar o fogo, etc. Na cozinha se aprende além do “ponto” certo de determinado prato, que não se dá as costas para o fogo, não se joga sal no chão, não se mexe comida de Orixá com colher que não seja de pau, que a comida mexida por duas pessoas desanda, que não se joga água no fogo e que muitas pessoas por terem o sangue ruim fazem a comida desandar. Ou que a presença de pessoas de um determinado Orixá faz com que uma certa comida não dê certo, como por exemplo: em cozinha onde se tem gente de Xangô o milho de pipoca queima antes de estourar. Pela cozinha, entram as pessoas de maior prestígio na Religião e é nela própria que, em certas ocasiões, muito antes mesmo de se chegar no peji do Orixá, que este é consultado a fim de se saber se a comida foi bem preparada ou não.
Embora marcada por vários limites, a cozinha é mesmo escola mestra, local onde se aprende as lições mais antigas, através do exercício longo e paciente da observação. Local onde permanecem por maior período de tempo os iniciados, seja varrendo, lavando, limpando, guardando, acendendo ou mantendo o fogo, cozinhando, com olhos e ouvidos atentos a tudo que se passa nela. Daí entende-se o dizer corrente: Candomblé mesmo é cozinha!!!” Talvez por ser ela mais que um local de transformação e sim de passagem e transmissão de conhecimento, por onde transita algo essencial que ultrapassa os limites das oposições por situar-se no mais intimo e profundo ser do homem: o comer.


Jé: o verbo comer

Muito mais que relacionada a um sistema nutricional, a comida se articula e se compreende a partir de um universo maior onde a oralidade constitui um dos meios mais expressivos de passar seus preceitos, a observação um método indispensável para sua manutenção e o comer um dos verbos, que embora muitos conjuguem, reserva-se a poucos, restringindo-se àqueles que conhecendo o “tratamento” entendem o papel e significado desta comida como Axé, força vital e sacrifício indispensável para a conservação da vida.
A comida de Orixá articula-se num universo que estabelece diferenças e “oposições”. As primeiras dizem respeito ao que se come, ao que não se come e ao não comer; ou ainda, ao como se come e com quem . As oposições são formuladas, quanto à origem, em comidas secas e comidas de ejé. As comidas secas são também chamadas de comidas frias. São todas aquelas não provindas do sacrifício animal, ou as que são à base de grãos, raízes, folhas e frutas. Por sua vez, uma outra oposição relacionada ao quente e ao frio surge tomando como referência o azeite-de-dendê e a pimenta ao lado de outros ingredientes.
Outra maneira de formular as “oposições”, diz respeito à passagem mítica da vida de cada Orixá. Assim, há os que comem com pressa, aos que recebem comidas sem forma, amassadas e aqueles que gostam de comidas mais detalhadas. Isso explica a diversidade de iguarias numa cozinha em que há os que comem cru, mal passado, torrado, frito, cozido e amassado.
Dentro desse universo, o azeite-de-dendê ao lado da folha de banana cumprem uma função fundamental. Dendê é força, origem. Seu óleo está associado ao esplendor de algumas civilizações ou, ainda, à criação. A bananeira, por sua vez, liga-se ao crescimento e à transformação. Ela é a cama, sobre a qual, tudo que repousa, se deita sobre ela . E tudo que se enrola é envolto nas suas folhas verdes ou secas e amarrado com suas própria fibras.
Vale ainda chamarmos a atenção, que, quando se fala da comida de Orixá, associada à uma “cozinha africana”, esta é entendida como um conjunto de técnicas, formas e maneiras de preparar, trazidas pelas diversas etnias africanas, que aqui foram conservadas e reelaboradas, ao lado de outras inventadas. Assim, também, a cozinha dos Orixás. Não se trata de voltar à África, mas fazer com que tal cozinha se torne africana. Africana no sentido de expressar, trazer presente, experiências longínquas de reinos, civilizações, histórias de grupos, somadas a tantas outras. A comida de Orixá é, assim, uma “comida brasileira” em que tantos motivos afros se fazem presentes. Ao mesmo tempo, é uma “comida africana” onde inúmeras experiências do Novo Mundo foram acrescentadas à ela. Na cozinha dos Orixás, ao lado das continuações, temos recriações e invenções feitas a todo momento. O que faz a comida de Orixá é um ritual profundamente complexo, elaborado e articulado segundo códigos e princípios, alguns deles de “porque” perdido no tempo. Daí entender-se, mais uma vez, a frase que diz: “ Tem gente que pensa que é só comida.”

A sacerdotisa da comida

O segredo desta culinária é comandado pela guardiã da cozinha, a Yabassê. Aquela que “muito faz e pouco fala.” Quando se fala da sacerdotisa da comida, as formas mais antigas de transmissão do conhecimento trazida pelas diversas etnias africanas vão ser evocadas: a observação e a convivência. E o mestre dos mestres será mais uma vez chamado: o tempo. O conhecimento ritual, o respeito, a criatividade e o comando apresentam-se como o perfil da Yabassê e orientam à sua escolha, mesmo que, hoje, nos “novos tempos,” poucas sejam as mulheres que se disponham a tal cargo; não pelo gosto, mas pelas funções assumidas por elas na sociedade.
A imagem da Yabassê apresentada pelos sacerdotes, remonta aos primórdios, quando Olodumaré, Deus, entregou o poder de criar e de tudo transformar às Grandes Mães. A velha que cozinha, divide, assim com o poder ancestral feminino esta força, assim como todas as mulheres. Daí recair sobre ela o tabu da impureza, que reflete as relações de poder, as tensões entre homem e mulher expressas em alguns mitos da sociedade yorubá, num ambiente onde embora sua função seja de procriar, ela goza de plena liberdade e independência dentro do grupo. Permitir que a mulher menstruada manipule a comida é expor toda a comunidade ao poder das Mães Ancestrais, que serve tanto para o bem, quanto para o mal. A Yabassê é, uma das pessoas que no terreiro, mais expressa essa força, pois trabalha com ela dia e noite, ao manipular a colher de pau para transformar grãos e alimentar tudo e todos, conservando, recriando e inventando.

Os Orixás e suas comidas

Para o povo de santo, falar sobre as iguarias oferecidas aos seus Orixás não é o mesmo que informar sobre o cardápio de um dia de festa. Dizer as coisas que o santo come é quase como revelar um segredo, um espaço de foro íntimo de cada terreiro. A ausência de muitos pratos, a presença destes sem nomes, silêncios, lapsos de memória, muitas vezes, antes de ilustrarem um desconhecimento, constituem parte de um saber, muito especial, guardado pelos mais antigos na religião, a que só poucos tem acesso. Bastante impressionante o que certa vez ouvi de uma Yalorixá: “ a Yabassê é aquela que muito faz e pouco fala”.
O não falar insere-se no contexto onde a oralidade constitui um dos veículos mais fortes de transmissão do conhecimento, os chamados segredos, fuxicos de santo, ensinamentos rituais, fundamentais, na sua grande maioria balbuciados no ouvido do iniciado, ou passado em palavras incompreensíveis e fórmulas incompletas.
As comidas oferecidas no terreiro aparecem sempre como algo particular, pertinente àquela casa. Receitas pela metade, pratos sem nomes, queixas e justificativas somam-se, ao lado de recriações, a todo instante, no fogão dominado pela Yabassê.
Da África, os Orixás vieram de diferentes lugares, antigos reinos africanos, muitos deles inimigos. Diferentemente das suas regiões de origem, o culto dos Orixás no Brasil, antes de estar ligado à uma família, uma confraria, foi ampliado e praticado num mesmo espaço. Destruída a família clânica, extensa, sua noção vai ser reconstruída no solo brasileiro como uma grande família teológica, chamada família de santo.
No Brasil, esse universo teológico foi perpetuado mas também reinterpretado. Muitos Orixás não poderam mais ser cultuados, outros transformaram-se na vinda para o Novo Mundo. Assim como outrora na África, muitos deles trocaram de nome, mudaram de região ou até mesmo cairam no esquecimento, por conta de migrações, ou de guerras que obrigavam o grupo a peregrinar de um canto a outro. Não levavam seus rios, mas objetos sagrados em torno dos quais reorganizavam o culto de seu orixá.
Dos diversos Orixás introduzidos no Brasil, dezesseis são os mais conhecidos e cultuados pela maioria dos terreiros, embora se saiba que este número é também simbólico.

A farofa de azeite e Exu

Exu é um dos Orixás, sobre o qual, ainda hoje, mais se fala. Ele permanece no dia a dia dos terreiros como aquele mais enigmático sobre o qual, nada traduz seus feitos, artimanhas e armadilhas.Como na África, colocado nas estradas, no mercado, na frente das casas, entradas das cidades, Exu é quem governa a frente da porta de entrada do terreiro. É o grande controlador das entradas e saídas. Daí serem seus domínios, encruzilhadas, esquinas, portas, janelas, ruas, etc. Dele depende a comunicação, o trânsito, o sucesso nos negócios, nos jogos...
Se acredita, no terreiro, que Exu coma tudo, contando que esteja regado com muito azeite-de-dendê e ataré, pimenta. Exu recebe ainda, pratos á base de milho vermelho torrado, feijão preto torrado no dendê e farofas de vários tipos: farofa de mel, de água, de cachaça, de vinho, de champanhe, de cerveja, embora se saiba que, como “dono do azeite”, a farofa de azeite é sua iguaria preferida.

Ogun e a comida feita às pressas

Ogun, é um dos Orixás mais populares no Brasil. Segundo a teologia dos terreiros, ele marcha à frente de todos os cortejos, rememorando a chegada dos novos tempos, sob a marca do ferro. Ogun é o senhor das coisas cortantes. É o patrono dos ferreiros e lembrado como pai da metalurgia. Representa a ousadia do homem em domesticar o fogo, trazendo-o para a casa, inventando a forja e construindo cidades.
No terreiro é sob a forma de desbravador e guerreiro que Ogun vai ser lembrado, empunhando sempre uma espada .
Além da famosa feijoada, Ogun come inhame assado e descascado regado com azeite-de-dendê, ou o inhame assado e espetado com palitos, como também come o inhame simplesmente cortado ao meio, passado mel e dendê . Recebe feijão preto, milho vermelho torrado e enfeitado com coco . Acredita-se que os Orixás guerreiros comem também cru ou torrado pois eles não tem tempo de esperar...

Oxossi e a fartura

Oxossi aparece intimamente ligado à Ogun. No terreiro, diz-se que é seu irmão. Orixá caçador, Oxossi liga-se à terra virgem àquela não pisada, descoberta pelo pioneiro prudente que enfrenta o mistério e o segredo das florestas. Além de Ogun, Oxossi liga-se à Ossain, às folhas, ao segredo das plantas e remédios. De acordo com alguns mitos, Ele teria sido enfeitiçado por este Orixá, se embrenhado no mato de onde nunca mais saiu.
Oxossi representa o recolher dos grãos, a produtividade, as atividades coletoras e à caça. A ele são oferecidas frutas, além de comidas à base de milho e feijão fradinho torrado.

Ossain, o vegetal

Ossain participa de toda a vida do terreiro, mantendo relações com todos os Orixás. Ele é as próprias folhas ( Ewé), indispensáveis à medicina.
Ao lado das comidas oferecidas a este Orixá, vão aparecer oferendas obrigatórias como moedas: o pedaço de fumo, o mel e o vinho colocados na sua cabaça. Acredita-se que, sem estas prendas, ninguém ousaria penetrar no seio das matas, no âmago da floresta, domínio de Ossain.
Ossãe vai comer pouco por ser considerado um vegetal. Em algumas casas, recebe um prato de milho branco, temperado com cebola, dendê e camarão e enfeitado com duas maçãs verdes, cortadas em cruz.
Ossain também come, além de frutas, comidas à base de feijão fradinho, torrado ou cozido, milho e batata doce cozida, amassada e refogada com azeite-de-dendê. Come, também, farofa de mel temperada com fumo de rolo desfiado e enfeitado com folhas da costa.


Obaluaiyê come mesmo é doburu, pipocas

Obaluaiyê ou Omolu é conhecido por vários nomes: médico dos pobres, meu avô, o velho. Diante dele todos são obrigados a se curvarem. Ele liga-se, diretamente, à terra e com ela aos antepassados, nascidos para uma outra vida. No Novo Mundo, várias histórias de curas se juntaram aos mitos trazidos pelos africanos e africanas escravizados, sobre suas conquistas e guerras vencidas. No barracão do terreiro, o guerreiro valente vai apresentar-se sob palhas que caem sobre seu corpo, escondendo a varíola e todas as espécies de doenças contagiosas. Só os preparados podem tocar neste Orixá. Dele só se ouve o grito ou o assobio que intercala sua dança principal, o opanijé, quando somente os atabaques tocam. Em Yorubá, tal palavra traduz a marca forte deste Orixá temível e respeitado por todos: “Ele mata qualquer um e come.”
Obaluaiyê come tudo! A comida dos outros e a dele. Come doburu torrado, isto é, pipopas, coco, feijão preto, milho torrado e o afufurá que é uma farofa de milho, temperada com coco, açúcar, tudo torrado e enrrolado tipo cartucho. Ele come o que Ogun come.

Dan, as cobras e a comida

Oxumarê é a cobra e o arco-íris ao mesmo tempo. Dan, na língua fon, ou Oxumarê para os yorubás, que dança fazendo os movimentos de uma cobra, apontando para cima e para baixo, ou arrastando-se no chão, é macho e fêmea. Nesta última posição aparece com o nome de Ewá.
Em algumas estórias, Ewá foi a mulher bonita que teria enganado a morte quando esta procurava Orunmilá , o testemunho do destino . Como Oxumarê, Ewá é considerada um dos Orixás que exigem muito saber e conhecimento para que se realize a sua iniciação. As suas comidas são à base de banana da terra e batata doce. Há casas, todavia, onde ele recebe feijão fradinho torrado ou cozido e folhas de mostarda.
Sobre estas comidas não se comenta muito também. Verdade é que, assim como este Orixá macho e fêmea, de difícil fundamento. Suas comidas são consideradas também escassas.

Nanã e o respeito às idades

Outro Orixá que é cercado de muito mistério, respeito e temor é Nanã. Ela, juntamente com Obaluaiyê, é um Orixá muito antigo.
Diante da Anciã que domina os pântanos e territórios lamacentos, com seu cajado ritual, seus passos lentos, sua sabedoria, as pessoas se curvam como se dobrassem o corpo perante a própria morte.
No terreiro, diz-se que ela é mãe de Omolu e Oxumarê. Tiras longas de búzios caem de seu ombro, assim como em seus filhos. Colocada sempre junto à Oxalá, Nanã guarda nas suas cores escuras, o segredo e o mistério da existência.
Nanã come dandoró, feijão fradinho descascado um por um, após ter ficado de molho por algum tempo. Depois tempera-se com cebola, camarão e dendê. Ela gosta também de mingaus
Nanã também recebe milho branco temperado com azeite doce e camarão, enfeitado com folhas de mostarda, assim como arroz bem cozido, temperado com mel, ou arroz com casca, “estourado” no fogo como pipoca, além da sobra da pipoca, pilada, feito, pó, refogada no azeite-de-dendê.
Diz-se ainda que a Velha é o celeiro do mundo, todos os grãos lhe pertencem. A ela nosso respeito!

Os truques, a cozinha e Oxun

Oxun é conhecida por sua vaidade, riqueza e beleza. Ela é a grande responsável pela vida uterina, daí suas relações com as feiticeiras, mães ancestrais. Cultuada nos rios, nas águas correntes das cachoeiras, Oxun come Omolocum, mas seu prato predileto mesmo é o ypeté, seu segredo feito com camarão ou peixe. Oxun come também ovos, efó e vatapá.
O omolocum é considerada a comida sagrada de Oxun, e possui muito mistério. É feito com feijão fradinho cozido, temperado com azeite-de-dendê, cebola, camarão e um pouco de sal. Depois de pronto, é arrumada numa vasilha e enfeitada com ovos cozidos, símbolo por excelência de Oxun.
O efó é uma comida feita com folhas. Consiste em folhas aferventadas no vapor e refogadas no azeite-de-dendê com um pouco de sal.
O vatapá pode ser feito de farinha de trigo, de mandioca, ou de pão. É uma comida onde se mistura ao leite de côco, a farinha , o azeite-de-dendê, a cebola, o camarão, a castanha, o amendoim, o coentro, o tomate e o pimentão bem triturados.

Logun, caçador e filho de Oxun

Entre os velhos, guerreiros e grandes mães, Logun Edé é colocado como menino, príncipe. De acordo com algumas estórias, é filho de Oxun com Oxossi. A dona dos rios teria se travestido em samambaia para conquistar o velho caçador que pescava às margens deste. Desse casamento nasceu Logun, um caçador que possui os atributos de seu Pai e de sua Mãe.
Dos Orixás trazidos pelos africanos de Ijexá ao Brasil, só restou Logun Edé, o menino que seis meses vive na terra e caça e seis meses vive debaixo d’água e se alimenta de peixes. A terra que sustenta o leito dos rios, na verdade é a sua representação por excelência.
No terreiro, as oferendas que lhe são servidas, são acompanhadas das comidas de Oxun e de Oxossi misturadas. Logun come o que Oxosse e Oxun comem. Come misturado o axoxô com o omolocum.

Obá, o Orixá vencido pela comida

Obá insere-se na lista daqueles Orixás raros, de culto quase em extinção, que exige muito saber e profundo conhecimento ritual, fundamentos e preceitos para iniciar alguém.
Na memória do povo de santo, guarda-se sua profunda ligação com Xangô, do qual teria sido a terceira esposa. Traída por Oxun, a velha Obá teria sido logo abandonada por seu marido, irritado por ver flutuando na sua sopa um pedaço de sua orelha.
A guerreira que se traja de cores fortes, come abará, mas gosta também, de Omolocum misturado com farinha de milho com uma cebola crua em cima.
O abará é uma comida feita à base de feijão fradinho descascado e passado na máquina com cebola e camarão. Após a massa pronta, acrescenta-se gengibre e azeite-de-dendê. Depois enrola na folha de banana e cozinha-se no vapor.


Oyá, akará e o fogo

A senhora dos ventos e das tempestades e do rio Níger, que na África chama-se Odò Oyá, esposa preferida de Xangô, o rei dos trovões, popularmente conhecida por um dos seus títulos, Yansã , em terras brasileiras é um dos Orixás mais festejados.
Embora associada às águas, Yansã divide o elemento fogo com o rei. De acordo com um mito, esta teria esta poção mágica, a pedido deste, mas no meio do caminho comeu parte dela, dividindo-a a partir de então, com o senhor que arremessa pedras de raio, tal poder.
A comida preferida de Oyá é o akará, o famoso akarajé. Mas ela come também, caruru em rodelas.

Yemanjá e o ebô-yá

Yemanjá é a mãe de todos os Orixás. Nas estórias, Yemanjá possui vários nomes. Todos querem dizer algo sobre a mulher cujos seios partidos deram origem aos dois maiores oceanos e cujo ventre esfacelado a fez mãe de todos os Orixás.
A paciência é uma de suas características, o rigor sua marca; a beleza e a serenidade lembram a grande mãe que, quando dança nos seus filhos e filhas, balança os braços as mãos como ondas que outrora embalaram o mundo. Yemanjá é a mãe de todos .
Princípio da fertilidade, várias passagens lembram seu trabalho ao lado de Ajalá, o modelador do ori, a cabeça. Yemanjá encontra-se naquele período primordial de cada ser humano, quando seu odu, destino, herança ligada aos seus ancestrais míticos e antepassados é dado, amparando tudo e todos. A ela são consagradas todas as cabeças. A inteligência e o equilíbrio do mundo lhe pertencem.
A principal comida dada a Yemanjá chama-se Ya Ebô, ou seja, milho branco refogada com cebola ralada e camarão moído e um pouco de camarão inteiro. Em determinadas casas, faz-se com azeite de oliva em razão de Yemanjá está muito próximo a Oxalá.Yemanjá recebe também manjar, um prato feito com leite de coco e creme de arroz.

Amalá, a comida secreta do rei

Xangô é rei. Este Orixá é de tanta popularidade que, no Recife, seu nome diz respeito a todos os cultos africanos praticados em Pernambuco.
Conhecido como juiz e princípio da justiça, Xangô, que odeia a mentira, pune com rigor e violência todos os seus inimigos. Na sua dança, relembra sua majestade, mas também sua criatividade diante do fogo. Pai de muitos filhos e homem de muitas mulheres, Xangô é comemorado ao redor de sua comida preferida, o amalá, prato regado com um molho de quiabos. Além disso, Xangô gosta de comer inhame, bola de arroz e akassá .

Oxalá, as raízes e os grãos

Na lista dos Orixás, Oxalá ocupa uma posição incontestável. É o rei do pano branco. Por baixo da alvura de suas vestes vela-se o segredo da existência, da vida e da morte. Ele é as águas imemoriais que enchiam a terra. Quando se fala em Oxalá, pensa-se em Deus, numa coisa universal, no Universo , feminino e masculino, pois, Deus não tem sexo. É um dos Orixás mais antigos.
Apoiado num cajado ritual, o opaxôro, ou árvore da vida, o Ancestral da Criação surge sob duas formas. A primeira, como um ancião que se movimenta apoiado com a ajuda das pessoas e a outra como um guerreiro, amante de inhame pilado que luta armado de escudo, espada e exibe numa de suas mãos, sua insígnia, a mão de pilão.
Uma de suas comidas, o ebô, nomeia também a sua festa. O Ebô é uma comida feita de milho branco simplesmente bem cozido. Oxalá come também inhame cozido amassado, akassá, uma pasta feita de milho, enrolada na folha de banana, e ekuru, iguaria à base de feijão fradinho, cozida no vapor.

Grãos, frutas, raízes e folhas..

No cardápio à base de folhas, grãos, frutas e raízes, o feijão e o milho aparecem quase como ingredientes obrigatórios. Oxossi e Ossain vão receber todas as frutas.
Em linhas gerais, os Orixás elementares associados à terra e os que se relacionam com estes reclamam comidas menos elaboradas, mais simples: raízes e grãos simplesmente bem cozidos, às vezes amassados. Aqueles que se ligam a momentos de passagens, de rupturas, às migrações, às guerras, como os caçadores, comem muito rápido, na linguagem do povo de santo, às presas, refletindo a instabilidade da fixação do grupo no solo, as resistências e dificuldades encontradas, o esforço para expandir as fronteiras de sua civilização: São suas comidas: o milho torrado, o inhame espetado de palitos, ou assado, sapecado no fogo, ou até mesmo cru, cortado e posto simplesmente nos pés do Orixá, ou regado com azeite-de-dendê ou jogado a seus pés, como é o caso de Oxoguiã. Comidas preparadas, diferentemente daquelas feitas à base de farinhas de inhame, de milho, de feijão, quiabo, regadas no azeite-de-dendê, em forma de pastas ou fritas.
O inhame permeia todos os pratos. Com ele se prepara múltiplas iguarias, as mais variadas, servindo desde suporte para se fazer um paliteiro, à ingrediente de papas e massas através de seu cozimento, refletindo, assim, a sua importância social e cultural conhecida por toda a África pré-colonial que ergeu verdadeiras civilizações em torno deste tubérculo. Na linguagem do terreiro, o inhame aparecerá como um instrumento forte e, como tal, algo que entra em toda culinária

Um brinde às comidas

Embora fuja à nossa discussão, as bebidas exercem uma vital importância ao lado das comidas de santo no terreiro. Não há comida sem bebida.
No terreiro, é por todos conhecido, que um dos tabus de Oxalá é a bebida alcólica, obtida através da fermentação independente do método usado para isso . O Criador teria se embriagado com o vinho de palma, extraído do dendezeiro, após furar o seu tronco, no momento da criação. Mas é também sabida, a grande apreciação de Ossain, pela bebida. Ninguém ousa entrar no mato sem desejar ao lado de sua comida uma garrafa ou cabaça contendo os elementos de sua preferência . Sem falar de Exu, que reclama todas as bebidas. Beber é um ato que acompanha o comer e há momentos onde isso se torna imprescindível.
Água é a bebida básica presente em tudo. Assim, é prestígio para a casa, uma pessoa reconhecida na religião pedir água e tomar. Mesmo porque só se pede e se bebe água quando se tem muita confiança. A água acompanha, obrigatoriamente, todas as comidas oferecidas aos Orixás.
Não pode deixar de ser mencionada a importância do vinho de uva. Talvez rememorando o vinho extraído do dendezeiro, vinho africano, presente somente, hoje, na memória dos terreiros. O mais usado é o vinho branco, licoroso, doce. Há situações, todavia, que pedem o vinho tinto, mas sempre o doce, como é o caso do caruru de Ibeji em alguns terreiros. É imprescindível que na mesa dos “meninos”, nas taças em que as crianças brindam neste dia, não falte o vinho. É uma bebida de honra.
Há bebidas consideradas quentes como o aguardente de cana, estas são reservadas à Exu, que algumas vezes recebe também gin ou whiskey. Na verdade, Exu toma de tudo, desde o champanhe, bebido em momentos de passagens muito especiais, à cachaça comum.
A cerveja é outra bebida que merece destaque. É comum ser oferecida à beira das estradas para Ogun . Os refrigerantes, por sua vez, são oferecidos à Ibeji, exceto a coca-cola que parece não participar das comidas que acompanham alguns pratos rituais.
Estas bebidas alternam-se nos terreiros, ao lado do tradicional, aluá, ou aruá, bebida africana fermentada, após três a sete dias numa vasilha de barro, feita com gengibre e rapadura. Ou ainda com abacaxi, ou milho. Dentro do ritual o aruá cumpre várias funções. Ao lado da àgua, é a bebida que não pode faltar.
Há ainda os mingaus, mingau de mungunzá, mingau de carimã, o mingau de tapioca , o arroz doce de beber e até mesmo o dengué.
O mungunzá é uma bebida feita de milho branco cozido, temperado com leite de côco e açúcar e um pouco de sal.
Carimã é a massa obtida da mandioca após deixá-la de molho na àgua, de três a sete dias a fim desta amolecer.
Para se fazer o arroz doce de beber, cozinha-se o arroz bem cozido depois acrescenta-se leite de cocô e açúcar e um pouco de sal para equilibrar o doce, como se diz.
O dengué surge sempre associado à Oxalá. É uma bebida feita de milho branco cozido, comida preferida deste ancestral, acrescido de àgua e açúcar.
Há ainda, bebidas sobre as quais não se falam, feitas na hora, como alguns chás e beberagens. Como algumas comidas, certas bebidas inserem-se no mistério do mundo do segredo das folhas, domínio de Ossain que conhece todos os encantamentos.

Uma cozinha africana?
Já no seu tempo, Nina Rodrigues, ao finalizar o capítulo sobre algumas nações africanas no trabalho sobre “ Os Africanos no Brasil ” , ao referir-se à arte culinária e à marcante presença de hábitos africanos, sobretudo na Bahia, chama a atenção para o fato de que é difícil precisar, devido ao estado atual dos costumes, a quais grupos pertenceriam determinada comida. Salvo o famoso arroz de haussá que, de acordo com a sua designação, expressaria sua origem, levando-se a crer que , se não toda a culinária, a maioria dos pratos deveria ter provindos dos negros sudaneses.[6]
Manuel Querino é um dos poucos autores que assinalam a contribuição dos grupos banto ao lado dos minas, à culinária chamada de africana, contrariando a tese daqueles que insistem na predominância eminentemente nagô nesta cozinha. Diz Querino: “ Entre as mais peritas na arte culinária destacavam-se angola, jeje e congo...” Nos terreiros, esta cozinha, marcada por uma série de preceitos e interdições, vai aparecer relacionada diretamente aos Orixás através das chamadas “comidas de santo”. Assim, cada Ancestral recebe em dias especiais pratos de sua preferência. Não se trata porém só de comer: o que se come, o que não se come, quando se come, com quem, participam de um todo integrado que diz respeito à códigos imprescindíveis dentro do “cardápio dos Orixás”. E mais ainda, esta comida dentro da dinâmica do terreiro é um dos veículos de vital importância para a transmissão e distribuição do Axé. Cabe, então, buscar responder a duas questões: a primeira diz respeito ao que faz com que esta cozinha seja “africana” e depois, o que faz com que a comida seja comida de santo.
Seja a “comida de santo” reelaborada a partir de técnicas e maneiras de predominância banto, jeje ou nagô-yorubá, fato é que, desde cedo, alguns africanos e africanas foram aproveitados para o serviço culinário, produzindo, desde então, modificações nas refeições à moda do Reino.
Outro fator que deve ser considerado é a falta de mantimentos num país, desde os seus começos, assolado pela fome. Da nova terra, o português, ao lado das caças e muitos frutos, só pode aproveitar a mandioca e o milho, mantimentos básicos que sustentavam seus habitantes.
Situações diferentes, viviam os africanos da cidade. Sobre a escravaria urbana, somente nos últimos anos começaram a ser realizados estudos mais elaborados e profundos. Segundo Edison Carneiro, o aparecimento do negro doméstico ( negro de aluguel e de ganho) estava eminentemente relacionado com o momento econômico em que os africanos passaram a exercer trabalhos de confiança, em que eram escolhidas as mulheres mais bonitas e os homens mais sociáveis para vender nas ruas. Isso teria ocorrido no século XVIII, sobretudo no Nordeste. Carneiro, todavia, não desconhece que os africanos, desde cedo, ocuparam as cozinhas, e nelas introduziram, como puderam, seus modos e aos poucos foram modificando o que se comia .
Os ingredientes africanos ou vindos da África como o quiabo, a vinagreira, o inhame, a erva doce, o gengibre, o gergelim, os bredos, o amendoim, as melancias, o azeite-de-dendê e outros, foram entrando aos poucos no Brasil de acordo com as exigências do tráfico ou da população que aqui se estabelecia, como por exemplo, o óleo de palma importado da costa da Mina, trazido através de passaporte, após decretada a ilegalidade do tráfico a partir do século XVIII. Não é possível, no entanto, se pensar nesta cozinha e nem em nenhuma outra somente a partir de tais elementos. Ela é mais do que um conjunto de materiais naturais que podem ser adaptados ou substituídos. A própria adaptação e substituição obedece a uma certa ordem inscrita nos mais remotos tempos, fazendo com que a comida não perca seu sentido nem se afaste da visão de mundo que ela representa. O que dá identidade a determinada comida não é a origem dos vários ingredientes combinados, mas a maneira como estes elementos são combinados. E estas maneiras obedecem a determinados ritos que lhes dão sentido e, como tais, apresentam-se como algo criativo. Assim, é completamente arbitrário buscar precisar datas para essa culinária, entendendo esta como algo parado, fechado, se o próprio tempo se incumbiu de dinamizá-la.
Neste trabalho dinamizado pelo tempo, é essencial chamar a atenção para um fato de que poucos se deram conta, além do etnólogo Pierre Verger: a participação do Oceano como um fator de ligação, mais que de separação. Não se pode esquecer que por ele, vieram várias permutas alimentares trazidas pelos europeus para o Novo Mundo, entraram muitos elementos africanos que voltaram abrasileirados de uma Nação onde o elemento negro era os pés e as mãos, parafraseando Antonil, e mais ainda, onde era quase que impossível após três séculos de convivência não impregnarem a sociedade com profundas marcas.
Era impossível, diante dos novos quadros sócio- culturais, políticos e econômicos, que estes modos de fazer, técnicas e maneiras das diversas etnias africanas, não fossem visivelmente sentidas, ao lado de tantos outros. Bem como não terem incorporados outros elementos da sociedade que estavam inseridas.
As condições de possibilidade para se pensar uma “ cozinha africana” não podem ser pensadas a nível cronológico, assim como não pode prescindir desse tempo. Elas vão acontecendo, se dando, de acordo com o tipo de situação servil ou livre e o lugar em que vivia o africano, variando, desde o primeiro momento em que dividiu a cozinha com a cunhã, até quando pode, ante às novas condições suscitadas pelo processo histórico, negociar com um tabuleiro. Certamente será, sobretudo, na cidade, a partir do século XVIII que estes usos e abusos mais poderão ser sentidos, seja nas mesas ou nas ruas como mercadoria cantada.

“Cozinha é lugar de truque”

Seja fazendo o uso de ingredientes nacionais ou de outros vindos do além mar, conservando, recriando ou inventando alguns pratos, a “africanidade” sugerida pelos pratos que compõem “a cozinha de santo” não se explicam pelos ingredientes que entram na sua composição, mas pelas técnicas, maneiras, pelo tratamento recebido por eles. A Cozinha é um lugar de ritual. Bastide assinalou muito bem isso:
“ A cozinha não é feita unicamente por mãos peritas; a cozinheira nela põe, com suas mãos, também o coração- como o diz- Isto é, seus complexos, traumatismos, recalques e pensamentos secretos. Se ela não permite que estranhos penetrem no local de seu trabalho, não é apenas por ser ele um santuário do qual ela é a sacerdotisa, e a cozinha uma religião da qual ela celebra o ritual. É também porque ela aí está inteiramente nua.”
Não se trata de voltar à África, mas fazer com que a comida se faça “africana”, ou seja, remonte a histórias e passagens, visões de mundo associadas aos Ancestrais, princípios universais ou Antepassados, aos primórdios dos tempos quando estes fundaram a humanidade, constituíram as cidades e criaram os diferentes grupos. Visões de mundo juntadas à inúmeras outras experiências históricas constituídas no Novo Mundo É este fazer, que faz com que tal comida seja comida de santo.

A invenção e a recriação, ao lado das continuações, não são feitas aleatoriamente. Embora se liguem diretamente às circunstâncias múltiplas e variadas de cada terreiro, inserem-se num universo mais amplo, ligado a um passado expresso em determinados preceitos, códigos, explicações e silêncios que regulam os porquês, os modos e as formas de se pôr à mesa.
A comida de santo diferencia-se, assim, daquela, do dia a dia. Uma coisa é cozinhar o inhame, cortá-lo em pedaços para o café. Outra é preparar este mesmo inhame para Oxalá, quando variam desde o tamanho, e a forma das raízes, os procedimentos observados para feitura de tal prato e por fim, as palavras ditas para “encantar” a comida. Fazer um feijão de azeite não é o mesmo que preparar um Omolocum. Enquanto, para se fazer o primeiro, somente se separa a sujeira, o segundo exige que se escolha os grãos maiores, perfeitos. Nada pode escapar, afinal, Oxun liga-se à fecundidade. Não é simplesmente fazer um caruru, cortar os quiabos, acrescentar cebola, camarão e azeite de dendê. É cortar de diferentes formas, ou como se diz: “de forma certa”, conversar com o quiabo, assim por diante... Os Orixás comem comidas mais elaboradas.
Embora os ingredientes sejam os mesmos, muda o tratamento que estes recebem. E a forma, como estes são tratados expressa seu sentido através de um ritual onde nada é por acaso. Assim, Exu pode comer de tudo, como outrora fez, segundo um de seus mitos. Ogun pode receber a feijoada, uma vez que as carnes gordas lhe pertencem. Ele também é um tropeiro. Bem como no dia de sua festa distribuir pães de trigo numa sociedade onde este é o pão de cada dia . E Oxossi, por se ligar à terra receber todos os frutos dados pelo Novo Mundo.
A elaboração das comidas oferecidas aos Orixás segue um ritual diferente daquele realizado no dia a dia para a feitura dos “mesmos pratos” que aparecem nos cardápios e self-service. Certo que os Orixás comem, o que os homens comem, porém, recebem à seus pés, nos terreiros, comidas onde os modos de preparar, ao lado dos saberes: palavras de encantamentos ( Ofó), rezas ( Àdúrà), evocações (Oriki) e cantigas (Orin) ligados às estórias sagradas ( itan) são elementos essenciais e vitais para a transmissão do Axé.
No terreiro, este ritual vai apresentar-se como algo criativo. As variações nos modos de preparar determinada comida mostram que há uma constante busca de legitimidade através da qual, as diferenças são constituídas.
As continuações, recriações e invenções na comida de santo, orientam-se por um conjunto de saberes, técnicas e maneiras ligadas a uma matriz cultural revisitada a todo tempo, articulada através de sentimentos e da íntima relação com a Natureza, onde o Sagrado é elemento constitutivo da vida da comunidade e acompanha as pessoas muito antes do seu nascimento e depois de sua morte. Daí o abuso no uso dos mais variados grãos, raízes, certos condimentos como a pimenta e o azeite-de-dendê e da técnica de tudo enrolar na folha de banana mais a observância: de alguns preceitos, da ordem seguida para preparar determinados pratos, de certas horas, de como servir e quando.
Indagando certa vez, sobre a importância da folha de banana dentro da culinária dos Orixás, ouvi a seguinte explicação:
“ A bananeira está ligada à Oxumarê, e ele que é macho e fêmea, liga-se ao crescimento e ao desenvolvimento. Talvez seja por isso que a técnica de embrulhar ns folha de banana apareça em muitos pratos. Eu não sei o certo. Por sua vez, ela está associada à morte, ao processo de individualização de cada ser. É isso!... É preciso que ela exista para que haja a vida, o crescimento e a expansão da existência.”
Explicações semelhantes vão ser dadas para cada prato. Talvez destes, só consigamos visualizar os conteúdos que entram na sua composição, o que já fizeram muitos autores, porém, apreender todo o sentido que estes encerram dentro de si, bem como as visões de mundo que expressem, é tarefa quase que impossível. São elas, todavia, que fundamentam as continuações, recriações e invenções na comida servida pelos devotos aos Orixás, através de truques inseridos no tempo de uma tradição dinâmica onde o não saber, o não ouvir e o não ver, cabem em qualquer lugar.

E o tempo não pára...

Nos últimos anos, várias linhas de pensamento vem insistindo na mudança e transformação desse patrimônio sócio, cultural, político e religioso face às mudanças da sociedade. Se a suposição de um todo integrado no Candomblé significa a criação de uma nova religião e uma ficção criada pelos cientistas sociais, tão ilusória é, também, a suposição de que este complexo não existe, ou ainda, que se orienta seguindo os rumos do progresso e caminha com os passos da modernidade.
É importante procurar perceber as formas através das quais, as comidas de Orixá dialogam com essa sociedade racionalizada. Ou, ainda, buscar descrever e acompanhar a utilização dos eletrodomésticos, para feitura de determinados pratos, perguntando, como a comunidade utiliza isso. Ou seja, como se dá a passagem dos métodos antigos para os novos, como por exemplo, a substituição de todo processo de feitura do akarajé, escolha, lavagem do feijão, etc. para o simples preparo da massa que já vem industrializada.
Certa ocasião, presenciei uma Yalorixá dizer que o Orixá de determinada pessoa deveria se acostumar comer o akassá feito com a farinha de milho branco já pronta, dispensando o método tradicional, mais demorado de preparar.
Certo que na grande Metrópole, governada pelo relógio, pouco tempo se dispõe para cultuar um Sagrado que exige muitas horas de dedicação e na qual, os Orixás comem o que os homens comem. Deve-se perguntar, então, se certas adaptações e substituições regem-se pela necessidade, portanto são um fato, ou se podem, simplesmente, ser tomadas como condições para a sobrevivência desses Orixás na Metrópole.
Participei, certa ocasião, da festa de Nanã. Ao contrário das comidas tradicionais associadas à este Ancestral, havia somente frios, queijos e saladas. E Nanã não deixou de dar a mesma volta ao redor daquelas comidas que daria na mesa de seus mingaus. Parece que o surgimento de alguns pratos, ou ainda, de certas concepções, não significa que os fundamentos foram diluídos no contexto da cidade, mas ao contrário, que permanecem apoiados em suportes que não podem ser ignorados. A suposição de um impacto das novas condições de vida sobre o papel desempenhado pela religião dos Orixás deve ser mais uma pergunta do que um pressuposto. Mais desafiadoras são as teias de comunicação, formas de diálogo desenvolvidas pelos terreiros para marcarem sua presença e colocarem estes produtos à serviço dos próprios Orixás.
É verdade que o Candomblé não pode mais voltar à tribo, nem se prender à laços étnicos. Todavia, não pode ignorar pressupostos reorganizados por homens e mulheres profundamente conhecedores de sua cultura de origem . Embora não se possa conservar, na maioria das vezes, por conta dos laços rompidos pela escravidão, a idéia de ancestralidade, a memória do antepassado permanece viva nos terreiros, até nos mais recentes, seja através de quadros, cadeiras, comidas, ou passagens da sua vida. Vários trabalhos já insistiram sobre a importância da idéia e do lugar ocupado pelo antepassado dentro do Candomblé. Assim, nomes como o do Tio Bamboxé, Mãe Aninha, Tia Massi, Mãe Menininha, Sr. Manoel de Neive Branca, Pai Bobó, Mãe Runhó, Nezinho do portão, Mãe Caetana Bamboxé e tantas outros, evocados no Padê, junto a nomes de antepassados transportados do além mar, constituem referências vivas de uma tradição que dialoga e se expressa no tempo histórico.
A comida de Orixá, os procedimentos rituais, encontram-se fundamentados nos ensinamentos das pessoas que plantaram, fundaram, iniciaram, reorganizaram o culto dos Orixás no Brasil. E que, certamente, não prescindiram do limite do seu tempo.
Enquanto houver casas onde determinados procedimentos rituais de preparar as comidas continuarem sendo feitos na sua forma mais arcaica possível, mesmo que em alguns momentos, isso seja alterado, utilizando alguns aparelhos eletrodomésticos, é por que os “fundamentos” não foram sucumbidos pelo processo de crescimento e mudança da cidade como alguns supõem.
Significa dizer, que os olhares otimistas que privilegiam a mudança da Religião dos Orixás, face às transformações da cidade, mais uma vez se enganaram, porque nem sempre o que se diz corresponde ao que se faz. Os orikis, ofós, itãs, modos de fazer e determinadas explicações, constituintes do segredo, são mais do que uma estratégia de sobrevivência do grupo. Constituem uma linguagem que as teorias da sociedade moderna não conseguiram ainda decifrar por assentar-se no não ver e não saber, nos truques e “faz de conta” . É ela que continuará sendo o maior desafio não para os que apostam no seu desaparecimento, mas para os que virão.
Vilson Caetano de Sousa Júnior é Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e Doutorando pela mesma Universidade. Título da Dissertação : Usos e Abusos das Mulheres de Saia e do Povo do Azeite: Notas sobre as comidas de Orixás no terreiro de candomblé. Membro do Grupo ATABAQUE, Cultura Negra e Teologia e Coordenador do AGBARA- Grupo Ecumênico de Leitura da Bíblia a partir dos Afro Americanos e Caribenhos. Outros títulos publicados: Evangelização e Diálogo junto às comunidades afro-americanas e caribenhas. in: Mandrágora. Ano 3- nº 3. São Bernardo do Campo, São Paulo, 1996. Em Defesa da Palavra In: Revista Mosaicos da Bíblia, 17. p. 5-10. Rio de Janeiro, 1995. Para que a comida não se estrague. Revista Mosaicos da Bíblia, 15. Rio de Janeiro, 1994. Celebrando a vida com os Orixás. In: Revista Sem Fronteiras. Número Especial. Julho. p. 13-16, 1994.
ebó- oferenda
Axé- princípio gerador de vida
contra-axé : tudo que não gera vida dentro da comunidade
obi- também chamado de noz de cola é uma espécie de semente usada nos rituais para conversar com o Orixá.
RODRIGUES, Nina. Os Africanos no Brasil. 7a Ed. São Paulo, Nacional; Brasília, Editora da Universidade de Brasília. 1988.pág. 120.
QUERINO, Manuel. Costumes Africanos no Brasil. Recife, FJB- Massangana. 1988. pág. 60.
Idem.
CARNEIRO, Edison. Ladinos e Crioulos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1964. pág. 4.
VERGER, Pierre. Fluxo e Refluxo. São Paulo, Corrupio. 1987. pág. 92.
O Psicanalista na Cozinha. In: Cultura e Alimentação Rio de Janeiro, 2 (2) : 21 e 96, dez. 1951, pág. 21.

sobre Umbanda

Tu sabes o que é caridade?
Caridade é...
Apartar a pedra do caminho para que ninguém nela venha a tropeçar;
Preparar o espírito para ajudar a qualquer momento;
Não te maldizer daquilo que não te parecer justo;
Não esperar que o necessitado te procure, vá ao encontro dele;
Perdoar sempre, humilhar nunca;
Não praticar atos contrários à consciência universal;
Não falar mal de ninguém, servir sempre e de boa vontade!
(extraído do 2º número do Jornal a Caridade, julho de 1956)

Não se concebe umbanda sem ritual. É fundamental oferecer às entidades um ambiente propício aos seus gostos. Para os caboclos, oferecem-se charutos, velas; para os pretos velhos, banquinhos, café, cachimbos, fumo; para as crianças doces e refrigerantes. Entre esses rituais, destacamos alguns elementos básicos para o perfeito transcorrer dos trabalhos, à seguir:

CORRENTE MAGNÉTICA
Muita gente ainda não sabe por que não se deve cruzar braços e pernas quando se assiste a uma gira de Umbanda. Para quem desconhecem isso parece estranho.
Ao redor do corpo humano existem correntes de energia circulando, uma em sentido contrário à outra; enquanto uma sobe, a outra desce, sem contudo se chocarem. Ao cruzarmos braços e pernas, misturamos a trajetória destes fluidos e consequentemente as linhas se chocam, resultando desequilíbrio no fluxo magnético, com dispersão da energia vibratória, cortando a corrente formada entre os presentes.
Semelhante ação ocorre no plano físico, quando cruzamos o circuito da corrente elétrica. Se encostarmos dois fios de luz, haverá o curto circuito, com prejuízo para algum aparelho elétrico ou fusível, queimando-os e cortando o fluxo eletrônico.
Como vemos, tudo obedece a leis lógicas e naturais, tanto no plano material quanto no astral.

DEFUMAÇÃO
A queima de ervas é um recurso usado para afastar fluidos perturbadores de lugares e de pessoas, muito usado em quase todas as religiões. É obrigatório no início dos trabalhos de terreiros em que se queira limpar o astral do ambiente. Para defumação, usa-se em geral plantas e ervas específicas. As mais recomendáveis são: alecrim, arruda, benjoim, alfazema, guiné, sândalo, incenso e mirra, podendo ser apenas uma, três, cinco ou sete delas.
As defumações podem também ser utilizadas para casas, carros, etc., eliminando os maus fluidos; para este tipo de ritual, pode-se utilizar os defumadores em cubo ou os que queimam em braseiro. Igualmente aos banhos, os restos das defumações devem ser despachados em água corrente.

PONTOS CANTADOS
São hinos de relevante importância na Umbanda, para a evocação das entidades. Estes cânticos permitem ao médium manter-se em equilíbrio real, e funcionam como verdadeiras preces. Sob suas vibrações é que o indivíduo percebe de maneira eficaz a aproximação das entidades, conseguindo melhor concentração para o trabalho espiritual.
O ponto cantado possui várias finalidades, apresentando-se como: ponto de chamada, aquele que é cantado apenas para evocar a entidade de trabalho daquela sessão; o ponto de subida, com o qual o guia se despede dos trabalhos daquele dia; há também os pontos de abertura e encerramento dos trabalhos, os de defumação, etc.
Em alguns casos, os pontos cantados podem ser acompanhados de palmas.


BANHOS
Os banhos se firmaram como sendo parte de uma liturgia religiosa. Sendo o médium um receptáculo de vibrações boas e más, deve zelar cuidadosamente pela saúde de seu corpo físico e astral. É muito comum também os filhos de fé tomarem banhos de descarga e de defesa, receitados pelas entidades. Há banhos que possuem sal grosso e ervas em sua composição, que devem ser preparados em infusão de água fervente pôr volta de 15 minutos, abafando o recipiente. Quando a água estiver morna, derrama-se sobre o corpo, do pescoço para baixo, sem banhar a cabeça. Não se deve molhar a cabeça porque muitas ervas se prestam para facilitar o desenvolvimento da mediunidade, "abrindo a mente". As ervas usadas no banho devem ser despachadas em água corrente, e devem ser usadas em seu estado verde, para não perderem as suas propriedades vibratórias.

GUIAS (COLARES)
As guias usadas para defesa ou para trabalhos nos terreiros são colares feitos de materiais facilmente imantáveis, condutores de correntes magnéticas.
Ajudam na invocação dos protetores, na concentração, captam bons fluidos, formando um círculo de vibrações benéficas ao redor da pessoa que os usa. Após um processo de 'cruzamento', ficam em ligação fluídica com as entidades espirituais. Uma guia só terá valor quando for cruzada por uma entidade incorporada.
A guia é usada praticamente em todo tipo de ritual, é um objeto sagrado.
Normalmente quando o filho de fé dá seus primeiros passos dentro da Umbanda, este fica com a primeira guia, que também é a mais importante. Ela é constituída de pedras de cerâmica, miçanguinha de cor branco leitoso.
Para tanto, as guias devem ser confeccionadas de matéria natural, não de plástico, pois este não é substância imantável. Cada linha possui seu material e cores apropriados.
Se uma guia quebra, procura-se recuperar o máximo de contas e depois devemos montá-la e consagrá-la novamente. Para cuidar-se bem das guias, devemos lavá-las de vez em quando com água do mar ou água e sal grosso, ou conforme solicitação do guia.

VELAS
O uso das velas é um ritual simples para qualquer religioso. O único pré requisito para o ritual com uma vela é a crença no que se está praticando.
Muitas são as pessoas que têm o costume de acender velas para seus anjos de guarda, ou mesmo para parentes e amigos já falecidos. Entendemos que é fundamental oferecer velas a estes, porém é aconselhável não fazer no interior de casa, pois além de evitar possíveis incêndios, também evita-se a presença de quiumbas que só prejudicam.
Os lugares adequados para acender velas são os velários de igrejas, com exceção de trabalhos feitos pelos guias, onde eles determinam como e onde se deve acender as velas.
O trabalho com velas é fundamental em um terreiro. Porém é através delas que as entidades auxiliam os filhos de fé na resolução de seus problemas. Na maioria dos trabalhos com velas é utilizada a de cor branca; porém ao uso de velas coloridas, deve-se possuir o consentimento do chefe do terreiro.

PATUÁS
O patuá é um objeto consagrado que traz em si a força mágica dos guias, a quem ele é consagrado.
É considerado um amuleto de proteção e sorte, porém só terá valor se for preparado por entidades incorporantes. Após o cruzamento do patuá, o mesmo é entregue ao filho de fé, que deverá guardá-lo em lugar próprio. Vale ressaltar que cada patuá é feito para apenas uma pessoa.
Os ingredientes mais utilizados na confecção de patuás são: figas de guiné, olhos de boi, cruz de caravaca, sementes variadas, ervas, etc.



ROUPA BRANCA
As roupas de um umbandista, quando em atividade dentro do terreiro, devem ser brancas e muito limpas. Elas devem ser guardadas em local sempre determinado. Não devem possuir nenhum luxo, apenas o essencial. Calças folgadas, camisetas não apertadas para deixar à vontade médiuns e cambonos.
As meias e peças íntimas também brancas são fundamentais. Os sapatos brancos, devem ser de sola de borracha (de preferência, tênis).
Essas roupas devem ser somente de uso nas giras, não podendo em hipótese alguma serem utilizadas em locais ou atividades diferentes.

Toda a Prática de umbanda é gratuita, dentro do principio das leis de Deus: "Dai de graça o que de graça recebestes".
A prática Umbandista é realizada conforme Cristo disse: "Aonde estiver um ou mais falando de Deus ali estarei".
UMBANDA

" Umbanda é a montanha
Que todos terão que galgar.
Muitos serão os chamados
Poucos conseguirão chegar...!"
(extraído do boletim mensal nº. 1 'A Caridade', da Tenda Nossa Senhora da Piedade)

A palavra "Umbanda" ainda é uma dúvida, mas ela poderia vir do sânscrito AUM-BANDHA, o que significa 'o limite do ilimitado', ou 'o conjunto das leis divinas'. Antes do surgimento da Umbanda propriamente dita, existiam os chamados cultos de nações, que não permitiam que médiuns desenvolvidos incorporassem "eguns" (espíritos de mortos), e caso isto acontecesse, repeliam-os, pois não os aceitavam em lugar dos Orixás (espíritos de encantados, entidades que nunca encarnaram). Também nessa época, o Kardecismo não admitia que espíritos de índios, pretos velhos e crianças incorporassem em médiuns à mesa: ou mudavam
seus hábitos peculiares, ou seriam expulsos do local.
Os pretos velhos e índios, por sua vez, acostumados a seus hábitos característicos, não poderiam mudá-los, por isso eram deixados de lado; não podiam baixar em cultos afros nem em mesas kardecistas, porém necessitavam das comunicação e ensinar ao povo seus costumes, suas tradições.
Assim, a primeira incorporação de Umbanda se deu no dia 15 de Novembro de 1908, através do médium Zélio Fernandino de Morais, pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, quando nesta data veio manifestar-se em mesa kardecista, solicitando que o 'cavalo' (médium de incorporação) preparasse no dia seguinte, na casa do médium, "uma mesa posta e toda e qualquer entidade que queira ou precise se manifestar pudesse ser ouvida e orientada". O local seria batizado por "Tenda Nossa Senhora da Piedade", pois da mesma forma que Maria ampara nos braços o filho querido, também serão amparados os que se socorrem da Umbanda, ricos e pobres, negros ou brancos, inaugurando a primeira tenda de Umbanda no Brasil, no Rio de Janeiro, em 16 de Novembro de 1908. Aí então surgem manifestações em massa...Hoje, a Umbanda conta com mais de 40 milhões de adeptos só no Brasil.

As sete linhas da Umbanda
As linhas de proteção da Umbanda são baseadas em sete cores, à seguir:
- Cor Ouro: Iansã Orixá guerreiro que domina raios, chuvas e ventos Sincretizado com Santa Bárbara
- Cor Rosa: Ibejis Espíritos de crianças Sincretizado com Cosme e Damião
- Cor Azul: Iemanjá Vida gerada no útero materno - "Mãe Peixe" Sincretizado com Nossa Senhora da Conceição
- Cor Verde: Oxosse Natureza, as matas Sincretizado com São Sebastião
- Cor Vermelho: Ogum Patrono da força e garante a execução da lei Sincretizado com São Jorge
- Cor Marrom: Xangô Força da justiça Sincretizado com São Gerônimo
- Cor Roxo: Nanã Representa o elemento senil Sincretizado com Sant'ana
Zélio Morais explica que as cores branco e preto não fazem parte das Sete linhas, pois o branco é presença da luz e existe em todas as outras cores, e o preto é justamente a ausência da luz:
- Cor Branco: Oxalá O supremo, o chefe. A síntese de todas as cores irmanadas. Sincretizado com Jesus Cristo
- Cor Preto: Obaluaê (omulú) Chefe da falange dos mortos sincretizado com São Lázaro

Entidades da Umbanda
A Umbanda sustenta-se em três pilares: pretos velhos, caboclos e crianças.
São as entidades que os médiuns incorporam:
- Caboclos: espíritos de índios e mestiços que viveram antes e depois da descoberta do Brasil.
- Pretos velhos: almas de negros que morreram à época de cativeiro.
- Crianças (erês): espíritos de crianças que morreram em tenra idade.
Além dessas três entidades, manifestam-se ainda:
- Baianos: povo que faleceu quando habitantes do Nordeste brasileiro.
- Marinheiros: pessoas que faleceram nos mares e realmente eram marinheiros.
- Boiadeiros: vaqueiros
- Povo d'água: espíritos que não falam e emitem um canto triste.
- Ciganos: pertencentes à alma de ciganos. Fazem cura.
- Exus: entidades neutras, que são invocadas para desmancharem trabalhos e magias.
Apesar de existirem todas estas entidades, nos terreiros apenas as três primeiras (caboclos, pretos velhos, crianças) trabalham no desenvolvimento mediúnico, descarga de maus fluidos, dão orientações, passes, conselhos, curas, etc.

Toda a Prática de umbanda é gratuita, dentro do principio das leis de Deus: "Dai de graça o que de graça recebestes".
A prática Umbandista é realizada conforme Cristo disse: "Aonde estiver um ou mais falando de Deus ali estarei".

MEDIUNIDADE

"Decálogo do Umbandista
Responder:
Ao mal com o BEM;
À intolerância com a FRATERNIDADE;
À calúnia com o PERDÃO;
À incredulidade com a FÉ;
À indiferença com a CARIDADE;
À arrogância com a HUMILDADE;
À intriga com a COMPREENSÃO;
À descrença com a ESPERANÇA;
À perseguição com a TOLERÂNCIA;
Ao ódio com AMOR!"

Mediunidade é o dom que tem o indivíduo de se comunicar com o plano espiritual, recebendo doutrinas, lições e informações dos espíritos de pessoas que já morreram e se encontram em plano diferente do nosso. É um dom que a pessoa recebe de Deus para trabalhar em benefício de pessoas que necessitam de ajuda,
orientação, preces. São vários os tipos de mediunidade:
Vidente - vê espíritos
- Clarividente - vê acontecimentos futuros
- Auditiva - ouve os espíritos
- de efeitos físicos - barulhos, quebra de objetos, etc.
- Curadora - faz cura de doenças
- Psicografia - escreve mensagens de espíritos
- Intuitiva - pressentimentos
- Incorporação (o mais comum) - incorporação de entidades
A verdadeira mediunidade não é exclusiva de pessoas ricas; ela pode manifestar-se em pessoas de diversas classes sociais, de diversas culturas, espiritualistas ou ateus, sábios ou ignorantes.
Para desenvolver a mediunidade é necessário estar ciente do que está praticando e principalmente ter vontade própria em fazê-lo. É necessário frequência nas giras em um único terreiro (pode-se visitar outro terreiro mas não se pode trabalhar) para que as entidades possam explicar-lhe todas as mirongas da Umbanda.
Frequentar diferentes terreiros mistura a energia vibracional das entidades, facilitando o recebimento de quiumbas (entidades más) que podem confundir o médium, principalmente durante o seu desenvolvimento. Além de cada terreiro seguir uma linha de trabalho que não deve ser misturada ou confundida.
Os médiuns de Umbanda não trabalham com Orixás, e sim incorporando guias e entidades que estiveram encarnados entre nós, ou seja, caboclos, pretos velhos, crianças, baianos, etc.
Os problemas espirituais que afetam a humanidade são de quatro espécies:
- Mediunidade
- Obsessão
- Trabalho feito
- Provação

Obsessão: um dos casos espirituais que mais oprimem o ser humano, que é o fato de um espírito desencarnado 'encostar' em uma pessoa, permanecendo ali devido às atitudes de baixas vibrações dela, sugando tudo o que resta de boas vibrações e bons pensamentos. Isto traz perturbações mentais e alterações de comportamento.

Trabalho feito: também conhecido como macumba, é praticado por pessoas fúteis e inconsequentes que desejam realizar seus desejos à qualquer preço. Em geral, é feito de modo verbal, quando rogamos pragas, invejamos algo, etc. Há também o feitiço criado por entidades de má fé ou pessoas que só praticam atos inescrupulosos.

Provações: "...somos livres para plantar; porém, uma vez plantado, teremos de colher os frutos da semeadura. Se plantarmos o bem, colhe-lo-emos no futuro; se semearmos o mal, tê-lo-emos no porvir..."
Quando alguém tem de passar por provações ('pedras' no caminho, como dizem as entidades), ninguém pode tirá-las ou cancelá-las. Elas se executam de uma ou outra forma. Quem procura terreiros na ânsia de livrar-se delas, está cometendo tolice. O que os guias podem fazer é minorar o sofrimento, pedindo à pessoa paciência, fé e esperança em superar a má fase, dando conselhos e orientações, pois estas provações provavelmente venham de vidas anteriores.

Todo médium deve seguir à risca alguns ensinamentos:
Não pode ser invejoso
Deve fugir ao despeito e ao ciúme
Deve ter cuidado com sua língua (cuidado na maneira de falar)
Deve respeitar as refeições à mesa
Deve evitar álcool, bares, cabarés, assim como qualquer outro lugar de influências negativas
Deve ser honesto consigo mesmo
Deve manter a higiene do lar
Deve manter a higiene do próprio corpo
Deve cuidar de suas roupas de trabalho no terreiro e seguir todas as regras dos rituais da Umbanda
Deve saber o valor da prece.
E assim estar ciente que a mediunidade é o dom de beneficiar pessoas, através das entidades, que necessitam de auxílio material e espiritual.

Toda a Prática de umbanda é gratuita, dentro do principio das leis de Deus: "Dai de graça o que de graça recebestes".
A prática Umbandista é realizada conforme Cristo disse: "Aonde estiver um ou mais falando de Deus ali estarei".